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Cinema

“Esta Terra é Nossa”: já nem o cinema militante é o que era

O filme anti-Frente Nacional do belga Lucas Belvaux é medíocre como cinema e sucumbe muito depressa ao peso de um arsenal de clichés narrativos e políticos. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Se tivesse um título alternativo, este filme anti-Frente Nacional e anti-“populista” do belga Lucas Belvaux poderia chamar-se “Vamos à Facholândia”. Seria até mais honesto, de tal forma esta produção franco-belga se exibe como “agit-prop”. Estreou em França à boca da campanha para as eleições presidenciais, a personagem da líder de direita radical Agnès Dorgelle (Catherine Jacob) é uma sósia de Marine Le Pen e o seu partido, o Rassemblement National Populaire (RNP), uma evidentemente mal disfarçada Frente Popular (FN). A fita foi logo denunciada como tendenciosa por dirigentes da FN, o realizador deu uma no cravo e outra na ferradura, dizendo que “Esta Terra é Nossa” não era “tanto um filme anti-FN como um filme sobre o discurso populista”, a crítica, incluindo a de esquerda, não se mostrou muito entusiasmada, os resultados de bilheteira foram medianos e a celeuma desapareceu tão depressa como se tinha levantado.

[Veja o “trailer” de “Esta Terra é Nossa”]

A acção passa-se numa cidade mineira fictícia do norte assolada pela insegurança, pelo desemprego, pelo afluxo de refugiados e por tensões sociais e raciais, que Lucas Belvaux (que co-assina o argumento com Jérôme Leroy, autor de “Le Bloc”, um “thriller” político no qual a fita se inspira) apresenta como um microcosmos da França. Pauline Duhez (Émilie Dequenne, óptima) é uma enfermeira ao domicílio muito querida e popular, e desligada da política, que um médico amigo (André Dussolier) convence a concorrer à Câmara Municipal como cabeça de lista do RNP. Claro que a intenção é capitalizar politicamente na excelente imagem pública de Pauline, que se transforma numa marioneta ingénua e bem-intencionada. E é nesta precisa altura que ela volta para os braços do antigo namorado do liceu, um ex-“segurança” e militante do Bloco Patriótico, a anterior encarnação do RPN, ideologicamente mais “dura”, de que foi afastado por violência e por gostar demasiado de esticar o braço.

[Veja as entrevistas com Lucas Belvaux e Emilie Dequenne]

No seu processo e afã de denúncia da hipocrisia, do oportunismo, da dissimulação e da perigosidade do RPN, o filme faz um diagnóstico sintético e certeiro da situação actual em França. Temor permanente de atentados terroristas islâmicos, mal-estar social e étnico generalizado, muçulmanos que recusam integrar-se e aceitar leis e valores republicanos, existência de zonas urbanas onde o Estado abdicou de ter jurisdição, crise económica e desemprego, regiões e populações esquecidas pelas elites e flageladas pelos efeitos da mundialização. Só que Belvaux não está interessado em mostrar e explicar como e porquê os partidos tradicionais falharam e traíram os cidadãos que, desiludidos, desesperados e revoltados, se viraram para os movimentos e para os candidatos anti-sistema, sejam nacional-identitários como a FN e Marine Le Pen, sejam socializantes-utópicos como Jean-Luc Mélenchon.

[Veja um debate sobre o filme]

O que interessa ao realizador é a diabolização daqueles que elegeu como inimigos. Nem que seja à martelada da assimilação ao “fascismo” de todo e qualquer descontente com o actual estado de coisas em França, e lançando mão de um aparato de clichés enferrujados, de caracterizações esquemáticas (as fotos de Maurras e Brasillach em casa do médico), de reducionismos sornas, de facilidades narrativas e de papões prontos-a-assustar, comprometendo muito cedo a credibilidade das personagens, a verosimilhança da história, as veleidades de realismo e objectividade e a consistência geral do filme, que acaba por implodir (Belvaux chega ao ponto de identificar o boxe com a violência de extrema-direita e de mostrar o “paintball” como um veículo de militarização das criancinhas).

O realizador revela ainda que ou está mal informado, ou finge estar, quando põe o pai de Pauline, um operário reformado e velho militante comunista, quase apoplético com a escolha política da filha. Em França, por esta altura, o partido que concentra o voto e os candidatos operários em eleições regionais é a Frente Nacional. “Esta Terra é Nossa” é um filme político com pés de chumbo e de carregar pela boca, medíocre no gesto cinematográfico e primário no discurso político. A França vai tão mal, que já nem o cinema militante é o que era.

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