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Cinema

Três filmes para ver esta semana

Uma fita biográfica sobre Karl Marx, uma comédia negra e grotesca francesa e "Esta Terra é Nossa", o filme anti-Frente Nacional de Lucas Belvaux, são as escolhas desta semana de Eurico de Barros

"O Jovem Karl Marx", de Raoul Peck: a história da amizade entre Marx e Engels e da génese do marxismo

Autor
  • Eurico de Barros

“O Jovem Karl Marx”

Parte filme biográfico de época convencional, parte “buddy movie” comunista, parte “Marxismo para Totós” em versão cinematográfica, “O Jovem Karl Marx” foi produzido pelo também realizador francês e comunista antediluviano Robert Guédiguian e é realizado pelo cineasta e activista de esquerda haitiano Raoul Peck, que já foi ministro da Cultura do seu país. À base de muita, muita conversa, em tom de palestra escolar entusiasmada (há tiradas como “és o maior pensador materialista dos nossos tempos!”) e numa atmosfera do tipo “Quarto com Vista para a Cidade” em registo de revolução social, Peck conta a história da amizade entre o jovem e depauperado Marx (August Diehl) e o jovem e endinheirado Engels (Stefan Konarske), e da génese do marxismo, com a Revolução Industrial em pano de fundo e Jenny, a devotada mulher de Marx, a completar o grupo. Formalmente engomado, didáctico e condensado, o filme acaba por transformar o biografado num santinho de papel maché. Se Peck fez “O Jovem Karl Marx” a pensar que o marxismo está de novo na moda, o filme não é lá grande anúncio para uma doutrina que a História já comprovou sobejamente dar maus e sangrentos resultados. O que virá a seguir? “A Infância de Lenine”? “Estaline no Seminário”?

“Ma Loute”

O francês Bruno Dumont repete aqui a matriz da sua realização anterior “O Pequeno Quinquin”, só que passada no início do século XX e carregando ainda mais na farsa grotesca e na caricatura de traços espessos. Filmado, como sempre, na agreste região natal do realizador , o Nord-Pas-de-Calais, “Ma Loute” põe em cena os excêntricos membros da família burguesa dos Van Peteghem, que vão passar as férias na moradia que têm junto à praia, e os de uma família de pescadores e apanhadores de bivalves da zona, a que pertence o jovem Ma Loute do título, e que são canibais, alimentando-se dos turistas que matam. Os misteriosos desaparecimentos estão a ser investigados por um bizarro par de polícias, um gordíssimo e outro magérrimo, e tão burros e incompetentes como os dois agentes de “O Pequeno Quinquin”. “Ma Loute” é uma comédia negra e anarquizante tão arrevesada como gratuita, que depressa se auto-consome no seu próprio ridículo e desperdiça actores como Fabrice Luchini, Juliette Binoche e Valeria Bruni Tedeschi. E se Bruno Dumont julga que está a ser iconoclasta, subversivo e “simbólico” ao mostrar burgueses decadentes dos alvores do século XX a serem devorados por proletários boçais, então precisa de rever urgentemente os seus conceitos de subversão, iconoclastia e simbolismo.

“Esta Terra é Nossa”

O belga Lucas Belvaux realiza este filme de “agit-prop”, estreado em França à boca da campanha para as eleições presidenciais, onde a personagem da líder de direita radical Agnès Dorgelle (Catherine Jacob) é uma sósia de Marine Le Pen e o seu partido, o Rassemblement National Populaire (RNP), uma evidentemente mal disfarçada Frente Popular (FN). A acção passa-se em Hénart, cidade mineira do norte assolada pela insegurança, pelo desemprego, pelo afluxo de refugiados e por tensões sociais e raciais, que Belvaux (também autor do argumento, com Jérôme Leroy, autor de “Le Bloc”, um policial político no qual o filme se inspira) apresenta como um microcosmos da França. Pauline Duhez (Émilie Dequenne, sempre óptima) é uma enfermeira muito querida e popular na zona e desligada da política, que um médico amigo (André Dussolier) convence a concorrer à Câmara Municipal como cabeça de lista do RNP. O que interessa aqui ao realizador é apenas a diabolização daqueles que elegeu como inimigos. “Esta Terra é Nossa” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.

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