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Relações

7 das dúvidas existenciais mais recorrentes. E como responder-lhes

Perguntámos à mediadora e autora do livro "Verdades, Mentiras e Porquês" quais as perguntas existenciais que mais ouve. Margarida Vieitez escolheu sete e dá algumas respostas (sem verdades absolutas).

Margarida Vieirez tem seis pós-graduações, entre as quais Mediação Familiar, Mediação de Conflitos e Saúde Mental.

Andreia Reisinho Costa/Observador

Será que estou à altura do desafio?

De um modo geral, temos medo de falhar porque, no fundo, vivemos em função de ideais que são alimentados por diversos meios, desde a comunicação social aos filmes de Hollywood. Diz Margarida Vieitez, autora do livro “Verdades, Mentiras e Porquês” (edições Chá das Cinco) e especialista em mediação familiar e de conflito, que as pessoas reconhecem à partida que não são perfeitas e que não são capazes de agir nesse sentido — afinal, há sempre margem para erro. O problema é que, apesar deste reconhecimento, deixam-se guiar por um ideal de felicidade que está permanentemente mais além, sempre por chegar. “A própria felicidade é sempre idealizada como uma coisa que está lá à frente, sentimos sempre falta de alguma coisa”, aponta a autora, relacionando a constante sensação de insatisfação com alguns casos de depressão. “A felicidade está no dia-a-dia e na gratidão. Felicidade 24 horas sobre 24 horas não existe.”

O medo, neste caso de falhar, é descrito por Vieitez como um mecanismo de defesa. “Muitas vezes temos mais medo do que é suposto”, diz, estabelecendo uma eventual relação entre o medo sentido e a visão do mundo, mais ou menos insegura, que os pais transmitiram aos filhos quando em crianças. “Se os pais tiverem sido mais preocupados ou ansiosos, a pessoa em causa dificilmente vai confiar nos outros ou aceitar novos desafios.” E o que dizer da culpa? Segundo a também terapeuta conjugal, vivemos numa sociedade de culpa, no sentido em que as pessoas têm dificuldade em assumir a responsabilidade pelas suas ações. “É sempre mais fácil culpar o outro”, atira.

A minha imagem é boa?

Vira o disco e toca o mesmo: segundo a autora, todas as pessoas tentam corresponder a uma imagem idealizada. No caso das mulheres, é fácil conceber a ideia de que uma grande parte aspira a um corpo esbelto, com curvas e silhueta tiradas de uma modelo. Tal imposição representa uma dificuldade acrescida ao nível da aceitação pessoal. “Há a dificuldade de as pessoas aceitarem-se tal como são porque existem modelos veiculados que nos pressionam. Não se sentem bonitas e tentam corresponder a estereótipos, o que gera uma grande frustração. Não aceitam o seu próprio corpo”, diz Vieitez. Isto vem em linha de pensamento com a ideia de que vivemos numa sociedade que não permite erros e que exige rapidez. “Qualquer dia somos máquinas”, lamenta.

Muitas vezes o problema está no facto de nos compararmos continuamente uns com os outros, sobretudo ao nível da aparência. “Em vez de estarmos tão focados nos outros, devíamos dar um passo atrás. Há que ser genuíno e autêntico.” Vivemos num paradoxo, isto é, vivemos na já designada de “cultura do eu”, mas, ao que parece, as pessoas gostam cada vez menos de si próprias.

Afinal porque é que tiramos selfies?

Devo dizer o que penso e o que sinto?

As pessoas que têm dificuldade em dizer exatamente o que pensam e o que sentem poderão ter, de igual forma, necessidade de aceitação dos outros. “Quem tem menos necessidade de agradar os outros terá menos propensão em reprimir as suas opiniões. Quanto menor dependência da aceitação dos outros, mais afirmação.

Porque é que não consigo auto-elogiar-me?

Ponto número um, a exigência constante a que nos sujeitamos gera “inseguranças brutais”. Segundo, há quem não consiga compreender/aceitar o seu próprio valor. “É uma das características do povo português”, afirma Margarida Vieitez, no sentido em que existe uma séria dificuldade em reconhecermos o nosso próprio valor em diferentes áreas da vida — é que, muito provavelmente, o mérito profissional não se deve apenas à sorte (situação que poderá remeter para a já falada “síndrome do impostor”).

Perante uma situação destas, em que a pessoa deveria sentir-se orgulhosa, há, ao invés, um sentimento de vergonha em dizer-se orgulhosa. Os espanhóis e os franceses não têm pudor em se auto-elogiarem. Em Portugal há a crença de quem se auto-elogia é pouco humilde. As pessoas têm vergonha de serem vistas como prepotentes ou arrogantes.”

Estes famosos sofrem de síndrome do impostor. E você?

Será que gostam de mim?

Esta pergunta tem mais do que uma variante: será que estou a corresponder às expetativas daquela pessoa, será que me aceita como sou ou, então, o que é que pensa de mim? E estes são apenas alguns exemplos. A verdade é que todos queremos a aceitação dos outros, o problema é quando se depende dessa mesma aceitação. “Se não gostarmos muito de nós, vamos sempre precisar que os outros gostem de nós”, afirma a autora, fazendo lembrar o já velhinho slogan da Matinal. Talvez a solução passe por se ter em mente que nem todos vão gostar de nós, que o contrário é mais uma utopia. “Andamos todos a viver de ideais.”

Será que confiam em mim?

Não é preciso dizê-lo, no entanto, a repetição tende a fazer efeito: para manter uma relação é fundamental que exista confiança. O que acontece é que pessoas muito inseguras têm receio que os outros não confiem nelas — se não confiam nas suas próprias capacidades, também vão ter dificuldades em acreditar que a outra pessoa confia em si. “O que está em causa é a confiança nela própria.”

E se eu errar, o que é que acontece?

Cada vez mais se aceita menos. Não se pode errar e esta é uma cultura onde não se aceitam os erros dos outros, diz Vieitez. Escusado será dizer que isto gera inseguranças. O problema é o mesmo: ir buscar validação lá fora. “Uma pessoa que erra, que não consegue corresponder aos outros, coloca a sua própria auto-estima em causa, o seu amor próprio. Como não se valida a ela própria, procura agradar os outros. É aditivo e, muitas vezes, essa mesma pessoa anula-se e acaba por não saber quem é.” Resta, então, à autora deixar uma pergunta para os possíveis leitores responderem: “Porque é que somos tão maus para nós próprios?”.

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