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Natalidade

Consumo de peixe na gravidez não protege a criança de doenças respiratórias

Um estudo internacional concluiu que, ao contrário do esperado, o consumo de peixe durante a gravidez não previne para o desenvolvimento de doenças respiratórias.

Os resultados não apontam para que exista evidência de um possível efeito protetor do consumo de peixe

MAK REMISSA/EPA

Autor
  • Agência Lusa

Um estudo internacional, no qual participaram investigadores do Instituto de Saúde Pública do Porto (ISPUP), concluiu que, ao contrário do esperado, o consumo de peixe durante a gravidez não atua como protetor para o desenvolvimento de doenças respiratórias.

Os resultados são considerados “surpreendentes”, uma vez que, de acordo com os investigadores, “o peixe é rico em ácidos gordos da série ómega 3 e este tipo de ácidos gordos promove a produção de um tipo de substâncias com propriedades anti-inflamatórias”.

“Pensávamos que este mecanismo anti-inflamatório poderia atuar como protetor para o desenvolvimento de doenças respiratórias nas crianças, o que não se observou, juntando dados de diferentes populações”, explicou Andreia Oliveira, uma das investigadoras do ISPUP envolvida neste estudo internacional, juntamente com Henrique Barros.

A investigação envolveu 60.779 mães e crianças, pertencentes a 19 coortes (estudos longitudinais) – 18 europeias e uma dos Estados Unidos – que integram a rede europeia CHICOS, a qual visa melhorar a saúde infantil na Europa, através da investigação integrada de coortes mãe-filho no espaço europeu.

O estudo integrou uma sub-coorte de cerca de 400 grávidas da Geração 21 – coorte que avalia o crescimento e desenvolvimento de mais de oito mil crianças da cidade do Porto, desde o seu nascimento – que tinha sido inquirida sobre consumo de peixe durante a gravidez, utilizando um questionário de frequência alimentar especificamente validado para Portugal. Foi também fornecida informação relativa à prevalência de sintomas respiratórios, asma e rinite alérgica nos primeiros anos de vida das crianças, dos 0 aos 2, dos 3 aos 4 e dos 5 aos 8 anos.

Os dados portugueses foram integrados com a informação proveniente das restantes coortes, e harmonizados, com o objetivo de se fazer, posteriormente, uma estimativa conjunta, que permitisse retirar conclusões a nível europeu.

“A vantagem deste tipo de estudos reside no facto de juntarmos informação de diferentes coortes que são muito heterogéneas. Existem coortes em que as mães consomem muito peixe e outras em que consomem pouco peixe. Como tínhamos um âmbito de variação da exposição bastante alargado, e dada a plausibilidade biológica conhecida, esperávamos encontrar uma associação entre o consumo de peixe durante a gravidez e a saúde respiratória da criança”, referiu Andreia Oliveira.

Contudo, os resultados não apontam para que exista evidência de um possível efeito protetor do consumo de peixe, de pelo menos uma vez por semana durante a gravidez, e o desenvolvimento de pieira, asma e rinite alérgica, durante a infância.

“Como não o conseguimos mostrar após harmonização e pooling de informação de mais de 60 mil pares de mãe-criança, podemos dizer que, de facto, não parece existir essa associação”, sublinhou a investigadora do ISPUP.

Os investigadores analisaram ainda o consumo por tipo de peixe (gordo ou magro) e fizeram algumas análises de sensibilidade (retirando uma coorte de cada vez, analisando o efeito por área geográfica das coortes, por exemplo), mas não conseguiram mostrar qualquer associação.

Para além da coorte portuguesa, o estudo contou com a participação de coortes provenientes dos Países Baixos, Dinamarca, Bélgica, Itália, Noruega, Espanha, Irlanda, França, Grécia, Reino Unido e Estados Unidos.

Os resultados do estudo constam do artigo designado “Fish and seafood consumption during pregnancy and the risk of asthma and allergic rhinitis in childhood: a pooled analysis of 18 European and US birth cohorts”, publicado no “International Journal of Epidemiology”, considerado “o mais importante” jornal dedicado à investigação epidemiológica.

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