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Crítica de Música

O mundo está a enlouquecer? Dancemos ao som de Gorillaz, então

Brexit, Donald Trump, racismo, aquecimento global. O mundo está a viver uma fase de incógnita. Podemos ficar a chorar em casa. Ou podemos escutar "Humanz" e aproveitar bem o tempo que nos resta.

Aleluia, aleluia, uma nova canção — e das boas — terão pensado os fãs de Gorillaz no dia 19 de janeiro. Um dia antes da tomada de posse de Donald Trump. Sete anos depois de The Fall, sabia-se que um novo disco estava quase a chegar. Como seria? Teria muitos ou poucos convidados? Seria um disco de protesto? “Hallellujah Money”, embora ainda não soubéssemos com certeza, dava-nos todas as pistas do que seria este Humanz, que agora temos nas mãos — ou na plataforma de streaming mais próxima.

Here is our tree
That primitively grows
And when you go to bed
Scarecrows from the far east
Come to eat its tender fruits
And I thought the best way to protect our tree
Is by building walls
Walls like unicorns
In full glory
And galore
And even stronger
Than the walls of Jericho”

Embora sem referências diretas, “Hallellujah Money” é uma crítica a uma onda que torna possível o Brexit e o novo presidente dos Estados Unidos. Essa crítica, sabemo-lo agora — quer a ideias concretas, quer ao que Trump representa — está muito presente ao longo de todo o disco. Benjamin Clementine foi o primeiro convidado a ser conhecido e Humanz está cheio deles. E a soul que se ouve na canção também foi o prelúdio do que é um disco muito virado também para o hip-hop e o R&B.

No centro de tudo está Damon Albarn, o senhor britpop que cresceu e, qual maestro, sabe juntar o rapper Pusha T (em “Let Me Out”), o grupo hip-hop De La Soul (“Momentz”) e Jehnny Beth, das ferozes Savages (em “We Got the Power”). Até Noel Gallagher, ex-Oasis, foi convidado a participar. Pegar nisto tudo e cunhar-lhe uma identidade não é fácil. Aqui entra também a componente visual de Jamie Hewlett, quase tão importante para os Gorillaz quanto a música.

Sete anos pode ser muito tempo, mas escuta-se Humanz e percebe-se que não foi feito de um dia para o outro. São 26 canções — ainda que com sete interlúdios, e seis faixas disponíveis apenas na versão deluxe — feitas de letras que retratam um mundo instável, que em vez de evoluir, regride em alguns aspetos, como no racismo (é escutar “Ascension”, com o rapper Vince Staples).

Se já não há nada a fazer e os céus estão a desabar sobre as nossas cabeças, a mesma “Ascension”, que dá o tiro de partida de Humanz, manda-nos aproveitar bem o tempo que nos resta a dançar. The sky’s falling baby / Drop that ass ‘fore it crash.

Mas talvez ainda haja. Apesar do tom pessimista, a faixa que encerra o disco, “We Got The Power”, consegue a proeza de juntar os ex-rivais Damon Albarn e Noel Gallagher a cantarem We got the power to be loving each other. No matter what happens, we’ve got the power to do that. Uma espécie de lembrança de que ainda podemos ser todos amigos. E tudo se pode corrigir.

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