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Crítica de Livros

Churchill e a Europa: uma história por contar?

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As ideias para um projeto europeu alimentadas pelo histórico primeiro ministro inglês não são segredo mas nunca até agora tinham sido tão bem documentadas, não como neste livro de Felix Klos.

Wikimedia Commons

Autor
  • Miguel Freitas da Costa

Título: “Churchill on Europe. The Untold Story of Churchill’s European Plan”
Autor: Felix Klos
Editora: I.B. Tauris (amazon.co.uk)

Churchill on Europe, de Felix Klos, foi publicado em plena campanha do referendo sobre a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia. Não é propriamente uma ‘história por contar’, como diz o subtítulo (The Untold Story of Churchill’s European Project). É pública, embora talvez nunca tão sistematicamente documentada como nesta breve mas cerrada defesa e ilustração das convicções ‘europeístas’ de Churchill.

O grande Primeiro-Ministro inglês da Segunda Guerra Mundial é um dos poucos políticos do século XX europeu cujo nome ainda hoje toda a gente sabe. Ao contrário dos outros – poucos – que toda a gente também conhece, continua a ser geralmente venerado (uma exceção que por acaso tenho debaixo dos olhos: Churchill for dummies, um verrinoso artigo de Michael Lind, publicado no Spectator em 2004). Essa persistente veneração explica facilmente que Leavers e Remainers tenham querido, à vez, associá-lo às respetivas causas, num debate que viveu em grande parte de apelos emocionais, ‘fake news’ e argumentos de autoridade. É um debate que já nos parece hoje, escassos meses depois do referendo, quase história antiga (que ‘não há nada mais morto do que o jornal de ontem’ já faz parte da sabedoria convencional).

Este livrinho (são 86 páginas, das quais mais de 20 são notas e bibliografia), muito procurado nas livrarias de Bruxelas, é fundamentalmente uma resposta aos partidários do chamado Brexit que invocaram o augusto patrocínio do ‘leão’ inglês para o campo dos leavers. É, em especial, uma resposta a Boris Johnson, atual Ministro dos Estrangeiros britânico, jornalista e escritor, figura de proa do movimento em favor do Leave e, justamente, um dos mais recentes biógrafos de Churchill. Neste mesmo sentido, o historiador Brendan Simmms acusou Johnson de refinada má-fé num longo artigo no New Statesman: ‘Dizer que Johnson sabe muito bem que não tem razão não é uma figura de retórica: já o demonstrou por escrito. O seu recente livro The Churchill Factor contém uma descrição muito equilibrada da posição de Churchill sobre a Europa, incluindo muitas das afirmações que cito acima.’

Johnson foi buscar em apoio da sua causa uma frase escrita em 1930 num artigo em que o homem das grandes frases defendia uns ‘Estados Unidos da Europa’, uma geringonça de que a Grã-Bretanha se manteria à parte, no entanto, ‘interessada e associada mas não absorvida’. Havia ainda um império britânico, é claro – e a Grã-Bretanha era ainda uma grande potência. Nos anos da Segunda Guerra Mundial e do pós-guerra, a posição do Primeiro-Ministro que chegou a propor em 1942 uma união ‘franco-britânica’ era um tanto diferente. No ano de 1946, depois da derrota eleitoral que terá deixado Estaline espantado (um homem com aquele poder, perder eleições?), Churchill fez dois discursos que marcaram o pós-guerra e politicamente o reinventaram na cena internacional: o célebre discurso de Fulton, nos Estados Unidos, em que cunhou a expressão ‘cortina de ferro’, e, meses depois, o discurso de Zurique em que apelou a uma espécie qualquer de ‘federação’ europeia cimentada por uma reconciliação franco-alemã – e talvez ‘guiada’ pela Grã-Bretanha.

Foi depois um dos inventores do Conselho da Europa. Churchill não era imune a mudar de opinião, quando os ‘factos’ mudavam, para usar a famosa e talvez apócrifa impertinência de Keynes (When the facts change I change my mind. What do you do, Sir?). Mas nisto não mudou muito. Para ele, os ‘Estados Unidos da Europa’, sob uma forma qualquer, eram a condição de uma ‘Paz Europeia’ duradoura. Naquela altura, podia ter dito, como pouco diplomaticamente disse o primeiro Secretário-Geral da OTAN, General Hastings Ismay, que a questão era ‘manter os americanos dentro, os russos fora e a Alemanha em baixo’. (Ismay fora o assessor militar de Churchill durante a guerra.)

O destino da Alemanha – o grande pedregulho ‘continental’ – persegue-nos. São malhas que a geopolítica incansavelmente tece. Na sua breve história da Grande Guerra, A. J. P. Taylor escreveu, por exemplo: ‘A Primeira Guerra Mundial resumiu-se essencialmente à questão da Alemanha. Os Aliados combateram para a refrear; os alemães, para obter um domínio político proporcional ao seu poder económico’. A Segunda Guerra Mundial foi uma segunda parte. No seu volumoso Europa: a luta pela supremacia, Brendan Simms faz girar a história da Europa – e, até, do mundo – dos últimos cinco séculos em torno da questão alemã. No seu artigo citado acima, diz que ‘longe de se destinar a promover o poder da Alemanha a União Europeia foi concebida para o conter ou, pelo menos, o canalizar na direção apropriada. Ao contrário do que sugeriu Johnson, o euro não foi planeado pela Alemanha para subjugar a indústria italiana ou qualquer outra economia europeia. Foram os franceses que insistiram na sua criação, para desarmar o marco, que descreviam como a ‘bomba atómica’ alemã. Do mesmo modo, os alemães não têm os gregos encarcerados na sua prisão europeia: os gregos é que estão desesperados por não serem devolvidos à ‘liberdade’ do dracma e da corrupta política nacional de que fugiram para a ‘Europa’.’ É o contrário para quem gosta de dizer que a EU é ‘a continuação da Alemanha por outros meios’ (a fórmula de P. Hitchens) ou como outros adversários da ‘federação’ europeia que chamaram ao projeto europeu a ‘germanização da Europa’.

O debate do Brexit morreu. Partiu a Grã-Bretanha ao meio. Foi uma guerra, que não deixou uma herança de grande esclarecimento. (‘Em tempo de guerra’ – terá escrito Churchill, noutra ocasião – ‘a verdade é tão preciosa que deve ser sempre protegida por uma escolta de mentiras’.) Nesse debate, também se usou, por parte dos partidários da saída, o argumento ad hitlerum: quem quer uma Europa unida está a perfilhar uma ideia mestra do III Reich. Mas Hitler escreveu, como lembra Simms: ‘A solução não pode ser a Pan-Europa mas antes uma Europa de Estados nacionais livres e independentes, cujas esferas de interesses sejam separadas e claramente delineadas’. Já se sabe: estamos de volta à história.

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