Música

“Ganhar a Eurovisão? É-me indiferente. Com a quantidade de concertos e as pessoas a cantarem a música, eu já ganhei”

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A 10 dias da estreia na Eurovisão, Salvador Sobral garantiu ao Observador que está tudo "OK" para a sua ida. Mas sublinha que já ganhou. O prémio é ter salas cheias a cantarem "Amar pelos Dois".

Salvador Sobral vai representar Portugal na primeira meia-final da Eurovisão, a 9 de Maio. Este sábado atuou no Seixal

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

“O Jazz é a vida, é uma conversa”. E é por isso que lhe é impossível ficar quieto em palco e não deixar transparecer as emoções ao cantar. É também por isso, e por causa dos músicos que o acompanham, que todos os concertos são diferentes. As palavras são de Salvador Sobral (por estes dias dispensa apresentações) que, depois de mais de uma hora e meia de concerto no Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal e outra hora a dar autógrafos, esteve à conversa com o Observador.

Foram menos de 10 minutos de entrevista — já passava da meia noite e o cantor ainda ia seguir viagem para Faro onde deu um concerto este domingo às 12h00 –, mas bastou para falar da felicidade que sente ao ouvir as pessoas cantarem o tema que levará à Eurovisão (“Amar pelos Dois”). Sobre o fenómeno que se criou à sua volta, após a vitória no Festival da Canção, Salvador Sobral diz que ainda está a aprender a “gerir tudo isto”.

Quanto à ida a Kiev, na Ucrânia, para representar Portugal na Eurovisão, o jovem cantor de 27 anos garante que a sua saúde não comprometerá a participação. “Indiferente” ao resultado, Salvador Sobral afirma que o prémio já está ganho.

O concerto acabou. Lá fora as pessoas diziam que a sua voz é “incrível”, que os músicos “são fantásticos”, mas que o que fica do concerto é a “emoção” que transmite. Tem mais a ver com a sua forma de cantar ou o próprio estilo musical o exige?
É isso. É orgânico. É uma conversa, como estamos a ter aqui e agora. Imagina que chega ali uma pessoa e começa a falar contigo, nós vamos falar com ele. E o jazz é assim. Alguém diz uma coisa e eu reajo, ou não reajo porque prefiro não ouvi-la, não gosto dessa pessoa. Não gosto do que ela disse. E é isso, o jazz é a vida, é uma conversa.

É por isso, que aquilo que canta em palco soa diferente do que se ouve em disco? Muita gente comentava isso também. Que reinventou alguns dos temas.
Sim. Em todos os concertos tento fazê-lo.

Mas isso é ponderado, é deliberado. Ou não?
Não. De todo. Tenho um objetivo que é nunca repetir, de certa forma faz com que seja ponderado. Agora, para que lado é que vai não sabemos. Sinto essa missão de ser sempre diferente. Às vezes é um bocado cansativo por termos de estar sempre a fazer algo diferente. E pode parecer forçado, mas se até não me apetecer e disser “Bom, vou fazer normal”, o Júlio diz qualquer coisa e já me leva para outro sítio, ou o Bruno [dois músicos que acompanham o cantor ao vivo]. Portanto, nunca pode ser igual. E acho isso incrível também porque eles estão sempre a dizer coisas. Se há um menos inspirado não há problema porque os outros encarregam-se.

Fala muito dos músicos. Lá fora, o Bruno Pedroso disse que o Salvador é mais do que um cantor, é um músico.
Isso é o que eu mais queria ouvir. É bonito dizer isso.

E isso nota-se em palco quando desaparece de cena e deixa as atenções recaírem sobre os músicos.
Eles têm tanta coisa para dizer que seria injusto não o fazer. Às vezes estou a cantar e penso “estou a cantar demasiado” e saio um bocadinho.

Nessa altura ausenta-se do palco ou senta-se naquela cadeira estrategicamente colocada.
Sim. Houve uma altura que tirei a cadeira e um amigo disse-me: “Não tires. Olha que a cadeira é boa porque sentas-te ali e não olham para ti”. Assim estou a dar espaço aos músicos.

Portanto usa sempre essa cadeira em palco.
Sim, para relaxar e ouvir e compreender o solo.

Foi o Festival da Canção que lhe deu maior popularidade. Como está a ser gerir tudo isto? O seu nome está em toda a parte.
Sim, até demasiado. Estou ainda a tentar perceber como devo gerir e como vou gerir no futuro. Às vezes não tenho os melhores comportamentos, mas …

Qual a pior parte.
O mais chato é inventarem coisas na comunicação social e, às vezes, na rua as pessoas são super inconvenientes, têm zero de sensibilidade. Embora isso acontecesse mais na altura do “Ídolos”, por exemplo.

E a melhor parte?
O que aconteceu aqui. As pessoas a cantar a música dá-me uma felicidade… Porque é uma canção tão bonita e as pessoas gostam. É uma canção lindíssima que eu adoro cantar.

E esta canção permitiu alargar o seu público…
Sim, com esta música, imensas pessoas que nunca ouviram jazz, e que não gostavam, vêm ouvir-me. E atenção que este não é o jazz tradicional, mas é um boa porta de entrada para as pessoas começarem a ouvi-lo. Muitas me dizem que vão começar a ouvir. E eu fico super contente. Acho uma boa missão trazer o jazz às pessoas.

Quanto à Eurovisão, está quase aí… falta pouco mais de uma semana.
Verdade. A minha irmã já lá está. Está a fazer uns ensaios por mim porque eu não posso estar muito tempo fora e também tenho estes concertos aqui, agora.

E como é que está a ser? O que vai nessa cabeça?
Sinto-me um bocado deslocado, mas a minha irmã um dia disse-me uma coisa e eu resolvi encarar tudo dessa maneira: vamos à Euro Disney. Vamos ver aquelas pessoas, ver aquilo, estar um bocado à parte porque não temos muito a ver com aquele mundo, aquela música e parafernália todas.

Mas a verdade é que o site Eurovision World coloca a música portuguesa como uma das favoritas à vitória, só ultrapassada pela italiana…
Sim, porque é uma coisa diferente, é uma coisa que respira.

Está confiante? Ou nem sequer tem pensado muito nisso?
Em ganhar a Eurovisão? É-me indiferente. Completamente. Eu já ganhei. Com a quantidade de concertos e as pessoas a cantarem a música, já ganhei.

Em relação à sua saúde. Pode comprometer de alguma maneira a sua ida a Kiev, na Ucrânia?
Não. Não pode. Está tudo OK.

Texto de Marlene Carriço, fotografia de Henrique Casinhas.
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