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Cristiano Ronaldo é hoje o que sempre quis ser. E no futuro também será o que quiser

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A partir dos 12 foi trabalhado para ser o melhor no centro, depois fez-se o melhor nas alas. Hoje, com 32, é o melhor voltando a jogar mais vezes pelo meio. 20 anos explicados por Aurélio Pereira.

Cristiano Ronaldo tem mais golos sozinho na Liga dos Campeões do que 113 das 135 equipas que participaram na prova

AFP/Getty Images

Chamam-lhe “as estatísticas ridículas”. Todos sabíamos que Cristiano Ronaldo é, cada vez mais, o melhor marcador da Liga dos Campeões e o único a passar a barreira dos 100 golos. Mas um trabalho do football365 abriu ainda mais o livro. E de que maneira. Sabia que, por exemplo, o português marcou mais golos sozinho do que 113 das 135 equipas que participaram na Champions? E que, desde que chegou ao Real Madrid, em 2009, fez mais golos sozinho do que a antiga equipa, o Manchester United? E que foi o único a marcar nas últimas sete fases finais de Campeonatos do Mundo e da Europa de seleções, entre 2004 e 2016? Podíamos continuar, mas uma máquina, neste caso a máquina que leva 400 golos pelo Real Madrid, não é feita apenas de números.

Há exatamente duas décadas, após uma indicação que chegou a Alvalade da Madeira, Aurélio Pereira, diretor do departamento de prospeção e recrutamento do Sporting, foi averiguar quem era Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, de 12 anos. Aprovou-o e antecipou-lhe um futuro risonho. Hoje, quatro Bolas de Ouro depois (a caminho da quinta, como se consegue perceber sem ser grande adivinho…), ainda mantêm uma relação próxima. Encontram-se de quando em vez, vão falando por telefone, trocam mensagens. Aurélio conhece-o como ninguém e não se espanta com a quebra de recordes à média semanal que o avançado tem conseguido. Nem mesmo com os novos posicionamentos que ocupa, sem jogar tanto na ala e a surgir mais em terrenos centrais. “Por razões diferentes, foi assim com 12 anos”, atira. Ronaldo, a máquina, está melhor do que nunca aos 32 anos. Porque evoluiu e trabalhou para isso.

Ronaldo com Aurélio Pereira, em 2014, quando foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique

A parte mais técnica da máquina

Quando pensamos no fenómeno Ronaldo – não confundir com o brasileiro, que ganhou duas Bolas de Ouro também – vemos o miúdo de cabelo comprido e farripas amarelas que escavacou por completo a defesa do Manchester United na inauguração do estádio José Alvalade, a 6 de agosto de 2003. Jogava na ala, tanto fintava para dentro como para fora, de quando em vez arriscava o remate. Mas até esse momento de glória, com apenas 17 anos, houve muito trabalho “invisível” na formação. Com o menino no meio.

O Ronaldo era um miúdo com personalidade e características de futebol de rua – a bola é minha e não dou a ninguém. Tudo o que mais gostava era de ter bola para brilhar. Tinha magia nos pés. Isso é tudo para este tipo de miúdos, a bola é o brinquedo deles e têm também aquela manha típica de rua que se vê cada vez menos. Quando veio para o Sporting, quisemos manter esse perfil e adotámos um conceito muito próprio para que continuasse nesse registo. Tentámos sempre não retirar aquilo que nasceu com ele e que é a sua maior virtude. É até aos 15 anos que os jogadores devem ter a oportunidade para errar sem que se interfira nesse processo. Quanto mais decisões forem tomando por eles, sozinhos, maior criatividade conseguirão mais tarde ter”, explica Aurélio Pereira.

Ronaldo chegou aos seniores do Sporting com 17 anos, em 2002. Atrás está Quiroga. E este treino é no Estádio Universitário

Foi por isso que, durante a formação, jogou em zonas mais interiores do campo, sem ter tanto tempo nos corredores laterais. A intervenção com bola aumenta, ao invés de tocar 30 vezes na bola consegue ter contacto 50 ou mais. Além disso, como o centro é a zona mais povoada, adquire mais facilidade em executar rápido em espaços que são mais reduzidos. O que sai dos pés de um génio nem ele próprio consegue explicar mas apenas acontece porque, antes, habituou-se a tomar muitas decisões sozinho”, completa.

Também aqui, além da ajuda de todos aqueles que trabalharam com ele, Ronaldo investiu muito. Investiu tempo, investiu dedicação, investiu trabalho. Há muito que não se fala disso, mas o exemplo paradigmático é o célebre ‘tomahawk’, livre direto que notabilizou por ser batido com uma técnica específica de remate. Para marcar as dezenas e dezenas de golos que apontou em bolas paradas ou remates de meia-distância, teve dezenas e dezenas de horas a aprimorar a técnica, a forma como pegar melhor na bola e o posicionamento do corpo para que a bola não suba demais mas vá suficientemente alta para sobrevoar a barreira. E se há ponto onde se distingue de Messi, o outro fenómeno desta geração bipolar que o futebol enfrenta na última década, é a facilidade com que visa a baliza de pé direito, pé esquerdo ou de cabeça. Com eficácia.

A parte mais tática da máquina

“Ele deu nas vistas porquê? Foi pela força, foi pela potência? Não, foi pela genialidade. E quando as pessoas do Manchester United olharam e viram aquilo, perceberam o que estava ali”, recorda Aurélio Pereira a propósito do último jogo de Ronaldo como leão.

Costuma dizer-se que quando o artista não sabe dançar, até o chão atrapalha e vai servir de desculpa. Naquele dia de agosto de 2003, o chão era tudo menos bom, com tufos de relva a saltarem por tudo o que era sítio, mas o artista provou que sabe dançar e de que maneira. Para a história ficaram as vezes sem conta que o miúdo partiu no 1×1 com os adversários do Manchester United, fossem eles Rio Ferdinand, O’Shea, Phil Neville ou Fletcher. Sem medo. Sem vergonha.

E com um pormenor curioso que só agora reparámos – sem ter feito nenhum golo nem nenhuma assistência, esteve nos três tentos com que o Sporting derrotou o colosso inglês (3-1): aos 25′, foi um passe em profundidade dele para Rui Jorge que valeu o golo a Luís Filipe (1-0); aos 61′, foi uma falta que sofreu na junto à linha após mais uma maldade a um adversário que resultou no livre com que João Pinto fez o 2-0; aos 79′, foi pelo facto de já estarem a cair sempre sobre si dois jogadores dos red devils que começou a jogada que valeu o bis a João Pinto (3-0). Provavelmente, o Manchester United também viu isso. E não demorou a puxar dos cordões à bolsa.

Quando assumiu o comando técnico do Sporting, Paulo Bento optou por cortar com o passado e adotou o célebre losango tático com quatro médios, dois avançados e sem alas. Um dia, numa conversa informal, explicou algo que tinha repetido vezes sem conta nas conferências de imprensa mas com nomes. “O futebol tem 11 jogadores. De campo, sem guarda-redes, são dez. Para jogar com alas, são dois. Ou sejam sobram oito. Para ter 20% da equipa nessas posições, têm de ser muito acima da média para compensar. E não tenho o Ronaldo e o Quaresma no plantel”, terá confidenciado numa altura onde não proliferavam extremos em Alvalade.

O antigo jogador estava no plantel dos leões quando surgiu Quaresma – chegaram até a ser companheiros de quarto nos estágios – e, no ano seguinte, Ronaldo nos seniores. E mais tarde viria a treinar ambos, na Seleção Nacional. E o que dizia na altura faz todo o sentido. Sendo que, agora, poderia utilizar o jogador do Real Madrid mais na frente.

Quando estes génios como o Cristiano chegam aos seniores, rápidos, explosivos e com capacidade no último passe, é normal que derivem das zonas mais centrais para as alas. No ataque e no meio-campo, passam a jogar com atletas que têm outra experiência e, além disso, mesmo que percam a bola por arriscarem fazem-nos em zonas que são de menor perigo para as transições do adversário. Quando chegou ao Manchester United, chegou ainda com esse registo, se calhar com uma nota artística maior em termos técnicos e de exuberância. Hoje continua a ser o melhor de outra forma”, salienta Aurélio Pereira, antes de recordar uma entrevista a um jornal espanhol há alguns meses.

Comentei nessa altura que Ronaldo seria como Di Stéfano. E porquê? Porque, com o passar dos anos, tornou-se um jogador que faz menos cavalgadas com a bola, está mais fixo. Não precisa de correr tanto porque tem uma maturidade que lhe permite perceber antes onde a bola vai parar ou cair. E tem golo, se calhar como nunca. Além disso, vê no jogo aéreo outra arma importante. Já com 12/13 anos se via que iria jogar bem de cabeça, pela impulsão e pela técnica. Percebia o que era executar, agora está mais refinado do que nunca. As pessoas não se lembram mas, antigamente, quando estava na formação, se não marcasse ninguém dava por ela; agora, quando não marca, as pessoas falam logo. Estão habituadas, há anos, a juntar Ronaldo e golo. Ele trabalhou para isso. E amadureceu muito, como futebolista e como homem”, acrescenta.

Di Stéfano foi um dos melhores jogadores do futebol mundial e do Real Madrid. Ronaldo não para de quebrar os seus recordes

A parte mais física da máquina

A 18 de março deste ano, na deslocação a Bilbau, Zidane quis trancar o jogo e olhar para os próximos compromissos. Aos 78 minutos, substituiu Ronaldo. “Porquê eu?”, atirou. O jogo estava 2-1 para o Real Madrid, com duas assistências do português. Terminou assim e a equipa merengue sacou três pontos num dos terrenos mais complicados da Liga. No final, queria-se sangue. O treinador riu-se. “Não há nenhum problema, claro”.

Cristiano Ronaldo está a jogar menos do que nas outras temporadas. Menos minutos, entenda-se – a qualidade é a mesma, até mais refinada. Se perguntássemos ao português o que escolheria se tivesse essa possibilidade, diria de caretas que quer jogar todos os minutos de todos os jogos. É o coração de guerreiro e competidor nato a falar. E, como aconteceu em Bilbau, em raras vezes sobrepõe-se à razão. Mas a maturidade que ganhou com o tempo permite-lhe entender a gestão que Zidane vai fazendo da sua condição. A gestão que aumentou as possibilidades de fazer oito golos nos últimos três encontros da Champions, na eliminatória com o Bayern e na primeira mão com o Atl. Madrid.

O cabedal de Ronaldo não é indiferente a ninguém, o que lhe valeu também alguns trabalhos fora do mundo do futebol

Números redondos, e num trabalho feito recentemente pelo jornal Marca, o madeirense disputou cerca de 75%-80% dos minutos esta temporada. Menos do que tem sido habitual. Mas, em paralelo, há dois reflexos curiosos da opção: por um lado, o conjunto blanco consegue hoje ganhar mais vezes sem Ronaldo em campo; por outro, depende cada vez mais dos seus golos e assistências (uma vertente que tem surgido mais este ano) nas partidas de maior grau de dificuldade. Por isso mesmo, foi curioso analisar uma estatística a seguir ao dérbi de Madrid – “Cristiano é o jogador com mais influência da Champions: tem dez golos, menos um do que Messi, mas teve uma participação direta em 15, mais dois do que Messi”. Hoje marca e dá a marcar.

Até aos 32 anos, Cristiano Ronaldo achava que não havia limites; agora, reconhecendo os limites, trabalha na mesma para superá-los. E consegue. Além das unidades de equipa no campo, continua a treinar três a quatro vezes por semana no ginásio, continua a fazer os seus 200 a 300 abdominais por dia, continua a ter o seu descanso a seguir ao almoço, continua a valorizar o hábito de fazer alongamentos de manhã e à tarde. Mas tudo o que faz é de forma inteligente, pensada e apaixonada. Como os melhores do mundo.

A parte mais mental da máquina

Agarremos nesta última frase para completar o último dos quatro vértices que explicam como se faz o melhor jogador do mundo: a parte mental. E a maturidade que ganhou como pessoa. “Não deixou de ser curioso a forma como pediu, no final de mais um jogo em que faz os três golos da vitória do Real Madrid, para que batam palmas e não assobiem. Porque é isso que faz toda a diferença – ao Cristiano basta estar feliz para fazer golos”, diz Aurélio Pereira, recordando o gesto que teve para as bancadas após mais um hat-trick na Champions.

Ronaldo sempre se mostrou um pai presente. Como se viu no filme ‘Ronaldo’, só não gostava que Cristianinho fosse… guarda-redes

“Qualquer pessoa chega a uma certa altura em que quer é estabilidade pessoal e familiar. Ele hoje tem uma família que adora, como sempre, e o filho, que é a sua maior paixão da vida. Faz tudo para ser um pai presente, dá tudo por ele e pela família. Se é isso que nos faz a nós todos felizes e realizados, o Ronaldo não é diferente nesse aspeto”.

A certa altura da conversa, recuperamos dois minutos da entrevista que fizemos a Avram Grant, antigo treinador do Chelsea, na semana passada (e que será publicada em breve). De acordo com o israelita, que quando estava nos blues como diretor de futebol tentou contratar Ronaldo, até por conhecê-lo desde os 16/17 anos – fica um lamiré da conversa, para que continue atento ao Observador –, só havia um pequeno ponto onde o português poderia melhorar: a força mental para enfrentar os jogos grandes. Algo que se desvaneceu com o tempo.

“Não me parece que, nos jogos grandes em que não aparecia tanto ou não marcava, isso se devesse a ter mais ou menos força mental. Aliás, sempre foi muito forte nessa área. É preciso perceber que, quando era mais novo, fosse através de marcações individuais, fosse por zonas de pressão de toda uma equipa à volta dele, tinha menos espaço para poder brilhar. Como se tem visto na Champions, agora nem assim. Havia, isso sim, uma pequena lacuna pela Seleção. Por uma questão patriótica, queria fazer mais jogando por Portugal. Isso mexia um pouco com ele. Depois daquele jogo na Suécia, em que marcou três golos, isso começou a passar. E com a vitória no Campeonato da Europa, deixou de existir. Em Portugal, como no Real Madrid, está inserido num grupo onde sente que todos respeitam o futebolista e gostam da pessoa. Isso é vital”, frisa Aurélio Pereira, sem esquecer o papel que os treinadores têm nos atletas e no espírito de grupo.

“Há treinadores que querem ser mais vedetas do que os próprios jogadores e há outros que preferem valorizar sobretudo os jogadores. Seja com o Fernando Santos, seja com o Zidane, o Ronaldo está bem entregue. Às vezes temos tendência, com o advento das estratégias táticas e da tecnologia, a esquecer que o futebol é feito por pessoas. Pessoas que têm emoções, emoções que não se controlam através do exterior. É um pouco como os jogadores espanhóis funcionavam com Del Bosque: em muitas ocasiões, em vez de haver palestras longas, iam mas era jogar à bola, que era o que mais gostavam. Assim foram campeões da Europa e do Mundo. E foi também assim que, depois daquela derrota complicada que tiveram com o Barcelona nos descontos, deram a volta com a maior das naturalidades, continuaram a ganhar no Campeonato e fizeram aquela exibição na Champions”, conclui.

Zidane, também ele um ex-Bola de Ouro, conseguiu agarrar bem o balneário e tem uma relação estreita com Ronaldo

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