Autárquicas 2017

Oito câmaras bicudas que o PS arrisca perder

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Com a polémica no Porto com Rui Moreira, as autárquicas aparecem como um problema para o PS na véspera da convenção autárquica. O distrito de Braga, porém, é que o apresenta mais riscos de derrota.

Em Braga, o PS tem seis casos bicudos por resolver. Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens

A ida às urnas em outubro tinha tudo para ser um passeio para o Partido Socialista que se reúne este sábado numa Convenção Autárquica em Lisboa. Nas últimas eleições locais, o PS conseguiu o maior resultado da história. Controla 150 câmaras. Gere quatro das dez autarquias mais populosas do país. Lidera Associação Nacional de Municípios (ANMP) e a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE). E isto, com um PSD com dificuldades em apresentar nomes fortes em algumas das câmaras mais importantes do país. Só um verdadeiro cataclismo poderia ser lido politicamente como uma efetiva derrota eleitoral. No entanto, a possível cisão de Rui Moreira veio alterar o cenário no Porto. Mas há outros problemas que estão sobretudo concentrados no distrito de Braga, onde o PS pode perder seis câmaras por cisões internas. E ainda há a incógnita de Sintra.

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Não se sabe o que os socialistas vão fazer na segunda cidade mais importante do país: se Manuel Pizarro se mantém nas listas e o PS perde a face perante Rui Moreira; ou se concorre contra um candidato cujo executivo integrava. Rui Moreira já fez saber que rejeitará qualquer representante socialista nas suas listas, admitindo contar com Manuel Pizarro, líder do PS/Porto e vereador socialista, para um futuro executivo, mas nunca em nome dos Partido Socialista.

Em qualquer um dos casos, os socialistas teriam de encontrar um candidato para tentar vencer a câmara do Porto. Os críticos de Manuel Pizarro, como o eurodeputado Manuel dos Santos, já vieram desafiar o líder da federação do PS/Porto a avançar contra Rui Moreira — de quem foi muito próximo nos últimos quatro anos. “Só vejo um possibilidade: o responsável por esta trapalhada ser candidato. Terá um resultado miserável, mas a responsabilidade é dele”, diz ao Observador Manuel dos Santos. “Isto só revela a fragilidade do acordo contranatura que existia na gestão da câmara, ao serviço dos interesses pessoais nomeadamente de Manuel Pizarro”, acusa este militante histórico do PS no Porto.

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Braga: um distrito problemático e os seis casos bicudos do PS

Os socialistas têm não um, não dois, mas seis dossiês difícies no distrito de Braga, em câmaras que dominam: Barcelos, Fafe, Cabeceiras de Basto, Amares, Terras de Bouro e Vizela. Nas duas primeiras, a direção nacional foi mesmo obrigada a avocar os processos e a impor dois candidatos aos aparelhos locais.

Primeiro, Barcelos. Para perceber o caso é preciso recuar até 2009. Nesse ano, o socialista Miguel Costa Gomes venceu as autárquicas contra o “dinossauro” Fernando Reis, do PSD. Em 2013, renovou o mandato. Quatro anos depois, a estrutura local entrou em rota de colisão e tirou-lhe o tapete, avançado com o nome do deputado Domingos Pereira para candidato.

A escolha de Domingos Pereira para candidato do PS à Câmara Municipal de Barcelos colidiu com uma regra fundamental que a direção nacional definiu para esta corrida autárquica: em condições normais, o partido deve apoiar os autarcas que se queiram recandidatar. A Comissão Política Nacional do PS decidiu intervir e impor o nome do presidente da câmara Miguel Costa Gomes como candidato. Domingos Pereira não gostou e avançará como independente o que vai dividir os votos dos socialistas em Barcelos, num concelho que sociologicamente é do PSD.

O mesmo se passa em Fafe. O aparelho local queria avançar com a candidatura de Antero Barbosa depois de se ter incompatibilizado com o atual autarca Raul Cunha. A direção nacional socialista decidiu intervir, e a concelhia recorreu à justiça. Mas o Tribunal Constitucional decidiu a favor do Largo do Rato.

No entanto, Antero Barbosa vai mesmo entrar na corrida eleitoral como independente e com uma nuance bizarra: o partido apoia um candidato formalmente independente, numa eleição em que entra um autarca que foi eleito pela lista do PS e que agora não tem o apoio dos socialistas locais.

Amares é outro exemplo. Em 2013, Manuel Moreira conseguiu recuperar a câmara para o PS. Dois anos depois, o autarca acabaria por exonerar o seu número dois e líder da concelhia socialista, Jorge Tinoco, alegando perda de confiança política. O aparelho socialista não gostou e respondeu na mesma moeda. Em minoria na Câmara, Moreira decidiu juntar-se aos vereadores sociais-democratas para continuar a cumprir o mandato. Agora, nestas eleições, o presidenta da câmara Manuel Moreira vai para a campanha com o apoio de PSD e CDS e os socialistas avançam com Pedro Costa, ex-jornalista e assessor na reitoria da Universidade do Minho. Resta saber se será um nome suficientemente forte para derrotar Manuel Moreira.

Em Terras do Bouro, a situação é igualmente complexa: o atual presidente da Câmara, Joaquim Cracel, já anunciou que não se vai recandidatar ao terceiro mandato, admitindo que falhou na missão de combater a desertificação. No entanto, e segundo vai dando conta a imprensa local, Cracel estará disposto a apoiar o candidato do PSD, Manuel Tibo, presidente da Junta de Moimenta, o que deixaria os socialistas numa situação delicada.

Tudo menos pacífico foi o processo de escolha do candidato socialista em Vizela. Victor Hugo Salgado, ex-vice-presidente da autarquia, convocou eleições na concelhia do PS de Vizela para escolher o candidato e acabou por perder para o atual presidente, Dinis Costa. Na sequência da votação concelhia, Dinis Costa afastou o challenger. A demissão do número dois provocou a cisão interna no partido e levou à demissão de vários dirigentes do PS/Vizela. Victor Hugo Salgado, por sua vez, já anunciou que vai avançar contra Dinis Costa e contará com o apoio de uma parte do aparelho local socialista.

Em Cabeceiras de Basto a situação parece agora mais controlada, depois de quatro anos difíceis. Em 2013, China Pereira sucedeu a Joaquim Barreto, um histórico socialista — líder da federação distrital do PS de Braga — que teve de deixar o cargo por causa da limitação de mandatos. Dois anos depois, China Pereira acabaria por se demitir, dizendo-se “humilhado” com as críticas que o aparelho socialista local lhe dirigia. Francisco Alves, então vice-presidente, assumiu a liderança da autarquia, com a Isabel Coutinho a assumir a vice-presidência. Esta vereadora estaria no cargo um ano, demitindo-se em 2016, depois de entrar em rota de colisão com a liderança de Francisco Alves. Depois deste processo conturbado, os socialistas recandidatam Alves para a liderança de Cabeceiras de Basto, com Joaquim Barreto a liderar a lista para a Assembleia Municipal — cargo que ocupa desde as eleições de 2013.

Apesar de concentrar algumas das câmaras mais problemáticas, o distrito de Braga não é o único a inspirar cuidados. Ainda em setembro, o PS elencou uma lista, divulgada pelo Público, com as dez câmaras municipais que considera mais problemáticas e que vão exigir uma atenção redobrada. Além de Barcelos e Vizela, a lista incluía ainda Coimbra, Góis, Golegã, Matosinhos, Marinha Grande, Nelas, Torres Novas e Vila do Bispo.

E ainda há o caso de Sintra. O atual presidente da Câmara, Basílio Horta, eleito nas listas do PS, vai ter de enfrentar o ex-dirigente do PSD Marco Almeida, com quem já mediu forças em 2013, num duelo renhido. No entanto, desta vez, Marco Almeida conta com apoio de PSD e do CDS. Há quatro anos foi como independente e ficou apenas a 1.738 votos de Basílio Horta. No segundo concelho mais populoso do país também estará tudo em aberto.

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