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Teatro

O Bando estreia “Inferno” no D. Maria II e questiona a existência nos dias de hoje

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Com produção de O Bando, "Inferno", primeira estação de "A Divina Comédia", de Dante, vai estrear no Teatro Nacional D. Maria II, na próxima quinta-feira.

Com dramaturgia e encenação de João Brites, tem cenografia de Rui Francisco

Filipa Bernardo/LUSA

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  • Agência Lusa
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A existência e a humanidade possíveis, no presente, é uma das questões levantadas pela peça “Inferno”, primeira estação de “A Divina Comédia”, de Dante, que O Bando estreia na próxima quinta-feira, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Com esta peça, O Bando tenta “criar uma memória no espetador e fazer com que essa memória construa um imaginário que o ajude a sobreviver no tempo que corre”, disse o diretor da companhia, João Brites, à imprensa, no final do ensaio realizado esta segunda-feira.

“Acreditamos que esta fantasia de Dante e este imaginário de Dante nos permite perceber que os mesmos tipos de problemas se mantêm”, sublinhou João Brites, pois o Inferno “está no meio de nós”. “Deixai toda a esperança, vós que entrais” é o mote para a peça que põe em cena a primeira parte de “A divina comédia”, um poema épico de Dante, escrito no início do século XIV, e no qual os mortos ascendem ao inferno percorrendo cada ciclo consoante os pecados que cometeram.

Uma escada transparente e de estrutura periclitante, em espiral, em que estão representados os nove círculos, três vales, quatro fossos e dez esferas do inferno de Dante, quase enche o palco do Nacional, enquanto em seu torno circulam os amigos que vão levar os mortos ao inferno, num ritual que João Brites classifica de “quase iniciático”.

A história de Dante, que no início sofre um colapso deixando de saber onde está, serve, pois, de mote para que os seus amigos — as suas sombras — o acompanhem de forma a que reconstitua a sua identidade.

Uma espécie de ritual iniciático em que ele revisita uma série de episódios sobre a vida humana, sobre a existência, para que possa recuperar a sua identidade”, sublinha João Brites.

Este “texto fundamental e fundador da Europa dos exílios, e com uma capacidade de falar de uma forma sub-reptícia sobre o que acontece nas políticas e nas atrocidades”, permite ainda “perceber que o mesmo tipo de problemas se mantém”, segundo João Brites.

Este projeto, que já germinava na cabeça do encenador há cinco anos, acaba agora por se concretizar depois de, há dois anos, o diretor do D. Maria II, Tiago Rodrigues, ter desafiado o diretor de O Bando para uma coprodução, mobilizando também atores do Nacional.

João Brites, porém, não pensa quedar-se pelo “Inferno”, já que pretende levar à cena as outras duas partes de “A Divina Comédia”: “Purgatório e Paraíso”. Por isso, este é um projeto para realizar em seis anos, ao ritmo de uma parte daquele poema épico a cada dois anos, sendo que “Purgatório” será feito em Coimbra e “Paraíso”, no Porto, revelou João Brites esta segunda-feira.

Mais conhecido pelo que inspirou na pintura do que pelo texto em si, “A divina comédia”, neste caso “Inferno”, centra-se em personagens que, segundo o diretor de O Bando, “estão dilaceradas entre duas tendências, entre duas pulsões”.

Uma pulsão de vitimização e uma pulsão de autoridade e entre as duas está a ética, está a consciência de cada um. Porque, se obedecêssemos só a essas pulsões, seríamos talvez répteis ou bichos um bocadinho mais evoluídos, mas não éramos capazes de viver em sociedade”, afirma.

Daí que, nessa viagem iniciática, as personagens se deparem com três divindades — a divindade das mãos negras, a das mãos brancas e a das mãos douradas — que na última parte da peça darão origem a uma única divindade, como se fosse uma trindade. “E é aí que nas religiões monoteístas acabamos por ter a guerra e os massacres na história que estamos a contar”, observa.

João Brites sublinha a permanente atualidade do poema de Dante, pois mais do que nunca “vemos que o período do Holocausto não foi ultrapassado completamente e os movimentos de extrema direita estão aí a reaparecer”. Por isso, o Inferno “está no meio de nós”. Está “fora mas também está dentro”.

“Inferno” é interpretado por Ana Brandão, Bruno Bernardo, Carolina Dominguez, Catarina Claro, Cirila Bossuet, Diego Borges, Fátima Santos, Guilherme Noronha, João Grosso, João Neca, José Neves, Juliana Pinho, Lara Matos, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Paula Mora, Raul Atalaia, Rita Brito, Sara Belo, Sara de Castro e Tomás Varela.

Com dramaturgia e encenação de João Brites, tem cenografia de Rui Francisco, música de Jorge Salgueiro, figurinos e adereços de Clara Bento, desenho de luz de João Cachulo e investigação histórica de Susana Mateus.

A peça vai estar em cena até 4 de junho, com espetáculos às quartas-feiras, às 19h00, de quinta-feira a sábado, às 21h00, e aos domingos, às 16h00.”Inferno”, a peça, tem produção de O Bando, do Teatro Nacional D. Maria II e da Câmara Municipal de Coimbra — Convento S. Francisco.

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