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Papa em Fátima

Desta fábrica saem 14 mil velas por dia para Fátima (e outros produtos muito pouco católicos)

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Especializada em velas religiosas, a Giesta é uma de quatro fábricas que produzem para o Santuário. Também faz caveiras, pénis, vaginas e velas para afastar o mau-olhado - para outros clientes, claro.

Durante a reportagem do Observador foram feitas 1.400 velas, contabilizou Simão Sebastião, gerente da Giesta

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

É quase tão estranho como ver um padre católico a fazer uma limpeza da aura ou a beber uma mezinha para afastar o mau-olhado. Na fábrica Giesta, na Giesteira, terra vizinha de Fátima e a escassos quilómetros do campo de futebol onde esta sexta-feira o helicóptero com o papa Francisco vai aterrar, fazem-se parte das velas brancas que servirão para alumiar procissões e alimentar promessas do centenário das aparições — e uma quantidade incrível de outros produtos, feitos de cera e dotados de pavio, mas a que não fará grande sentido chamar “velas”.

Há caveiras, cobras, caixões, tesouras, santos com nomes estranhos (Iansã, Xangô, Ogã), figuras de homens e mulheres, juntos ou em separado (mas sempre nus), e partes do corpo humano. Em vez de pernas, braços ou olhos de cera, como depositam habitualmente no tocheiro do santuário crentes com provações ou maleitas ultrapassadas nos membros equivalentes, há vaginas, línguas ou pénis.

Em cera branca, vermelha ou preta, cada uma servirá o seu propósito e terá o seu preceito, diz Simão Sebastião, gerente da empresa. “Umas são para fazer amarrações, outras, como as tesouras, suponho que sejam para cortar raízes ou qualquer coisa do género. A maior parte destas velas são para religiões que nasceram da influência dos povos africanos no Brasil, como a Umbanda, vão para os terreiros e para os iemanjás. Posso garantir que este não é dos produtos que se vendem menos! Acho que é para a impotência, agora se é para dar ou para tirar não sei”, graceja, com a réplica de um pénis em cera branca na mão.

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

A funcionar desde 1979, mas ali, na encosta atrás da igreja do lugar da Giesteira, apenas desde 14 de abril de 1984 (pode ler-se inscrito no cimento que entretanto secou sob a porta de entrada), a Giesta, garante o gerente, é especializada em velas religiosas. E não é por fazer produtos tão pouco católicos que isso deixa de ser verdade: “Inicialmente só fazíamos as velas tradicionais e para iluminação, o próprio mercado é que começou a pedir-nos isto. Mas a luz da vela serve todas as religiões. Fazemos velas para todas as crenças: católicos, ortodoxos, esoterismos, mórmons, bruxarias… Isto não deixa de ser religioso, tem sempre uma oração e um pedido”.

Basta sair da zona do armazém e passar para a da fábrica para perceber que, pelo menos nestes dias pré-Papa em Fátima, a produção está quase toda por conta das clássicas velas brancas e finas, que peregrinos de todo o mundo irão acender nos próximos dias no Santuário — e que deverão aumentar em cerca de 20%, “no mínimo”, a produção da Giesta, habitualmente de 120 toneladas por ano.

“Há duas semanas que estamos a trabalhar neste ritmo, estamos a fazer mil e poucos quilos por dia”, explica o gerente, enquanto faz contas na calculadora (mas não revela quanto encaixa com o negócio): “São 14 mil velas por dia, todos os dias, para o santuário. Connosco só quatro empresas vendem para lá. Para as lojas, não para a zona do self-service”.

Formado em Gestão de Empresas, mas desde os 18 anos apaixonado pelo negócio fundado pelo pai e por um tio (que entretanto abandonou a Giesta para se especializar “em promessas” e abrir outra fábrica, na ponta oposta da aldeia, onde faz braços, pernas e afins), Simão é hoje, aos 36 anos, o gerente da empresa familiar. Ao todo, trabalham ali nove pessoas: “Sou eu, o meu pai, a minha mãe, o meu irmão, quatro primos e um tio”.

Encomendas não lhes faltam, até porque não abastecem apenas as lojas esotéricas de norte a sul do país ou as do Santuário de Fátima, visitado por 6 milhões de pessoas todos os anos.

“Vendemos para outras igrejas e altares. E exportamos para Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, para os Estados Unidos e para o Canadá, para França, Espanha, Suíça, Inglaterra e Irlanda. Estamos agora a preparar também grandes encomendas para uma romaria que vai haver este mês em Espanha, perto de Sevilha, em honra da Nossa Senhora do Rocío, que é a maior da Europa, o ano passado juntaram lá 1,2 milhões de pessoas.”

O segredo? “Usamos um processo tradicional e há países que ainda dão valor a isso, só estamos em Inglaterra e Irlanda por causa disso”, justifica. Já as velas que seguirão na próxima semana para a pequena vila andaluza de El Rocío, perto de Almonde, Huelva, para serem usadas na romaria da “Paloma Blanca”, em devoção à imagem da virgem que um pastor encontrou, no meio do mato, no século XV, foram encomendadas por outros motivos. “Nessa peregrinação usam-se velas de 50 centímetros muito finas, com as temperaturas de 40ºC que lá têm, as velas industriais não aguentam e derretem.”

Na fábrica, um dos primos vai rodando uma roldana presa a uma armação circular de onde pendem dezenas de pavios, que vai mergulhando numa tina de cera de origem mineral aquecida por vapor produzido em caldeiras alimentadas a madeira — e logo a seguir noutra, com cera mais fria. Repete o processo inúmeras vezes até que as velas, de cerca de um metro de altura ficam prontas a arrefecer em estendais para depois serem cortadas à medida e, só então, dotadas de bico, feito à máquina.

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

Cada lote, cerca de 200 quilos de velas, leva uma hora e meia a ficar pronto. “Demora e dá mais trabalho do que o método industrial, que também usamos para algumas velas, mas são muito mais sólidas e também duram mais, ora experimente partir uma e outra”, desafia Simão. Testa o Observador: um a zero, ganha a vela feita com a “técnica de mergulho”.

Mais impressionante só mesmo, de volta ao armazém, a variedade de velas prontas a embalar e despachar para as lojas esotéricas de todo o país. São feitas ali e depois, “em outsourcing”, preparadas por “empresas ou pessoas antigas que percebem do assunto e conhecem as fórmulas e sabem para que serve cada planta, erva ou pétala”.

Basta acender o pavio e deixar os odores da parafina parcialmente reciclada (a Giesta recolhe a cera derretida em várias igrejas da região para a reutilizar em velas de cor — “Nunca voltam a ser brancas, incorporamos cerca de 30% nas novas”, explica o gerente) encherem o ar.

Há essências e velas (e “velões”) para todos os gostos e necessidades. Para atrair bons negócios, sorte, dinheiro, saúde ou amor, para “quebrar inveja”, “abrir bons caminhos”, “afastar mau olhado”, fazer “limpeza espiritual” ou “descarregar os maus fluidos”. E até para “dar sumiço a todo o feitiço”. O perfume não deverá ser muito diferente do da vela “vai de reto [assim mesmo, sem érre] Satanás”.

Texto de Tânia Pereirinha, fotografia de Henrique Casinhas.
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