Logo Observador
Dança

Movimentos contagiosos na Companhia Nacional de Bailado

William Forsythe, Ohad Naharin, Vasco Wellenkamp e Olga Roriz, quatro coreógrafos virtuosos para acordar nos olhos e no corpo o prazer ímpar da dança. Até dia 20 no Teatro Camões, em Lisboa.

Minus 16, de Ohad Naharin, estreada em Lisboa, em 1992, pelo Ballet Gulbenkian e agora novamente dançada pena CNB

Bruno Simão

Autor
  • Joana Emídio Marques

Aquilo que não compreendemos causa-nos tantas vezes repulsa, desagrado, desistência. Muitos estranham na dança contemporânea essa ausência de uma narrativa linear, uma ausência de história, o despojamento dos cenários, a impossibilidade do naturalismo, da história infantil, do cinema. Ela é outra coisa. Ela não se lê como um romance. A dança é precisamente esse momento em que os corpos se libertam das regras da forma e da função e se tornam um palimpsesto de gestos, de memórias, símbolos, ressonâncias. Por isso, quando no palco os bailarinos dançam, inevitavelmente nós dançamos neles. Porque cada espetáculo de dança contemporânea é um desafio à nossa compreensão do novo, a CNB- Companhia Nacional de Bailado repõe, entre hoje e 19 de Maio, quatro coreografias contagiantes: Treze Gestos de um Corpo de Olga Roriz, Será que é uma Estrela? de Vasco Wellenkamp, com Maria João ao vivo, Herman Sherman de William Forsythe e Minus 16, uma das peças mais efervescentes de Ohad Naharin.

Minus 16, uma peça frenética e cheia de humor de Ohah Naharin

As quatro coreografias de linguagem contemporânea mostram uma CNB cada vez mais versátil, quer no repertório clássico quer no moderno. Dançar as peças fisicamente exigentíssimas de Forsythe ou Wellenkamp, frenéticas como as de Naharin, teatrais como as de Roriz, tudo isso exige uma nova utilidade dos corpos a que os bailarinos da CNB executam com evidente perícia.

Quantas possibilidades de abertura e fechamento tem um corpo no espaço? Quantas postas se fecham e se abrem nos gestos quotidianos que descrevemos ao longo dos dias. Quantos gestos deixamos esquecidos dentro dos braços e das pernas e da cabeça nas posições rígidas onde gastamos a vida? Olga Roriz propõe Treze Gestos para um Corpo, uma peça que criou para o extinto Ballet Gulbenkian em 1992, com um elenco masculino e outro feminino, dois ritmos e dois tempos, da lentidão à vertigem, da máscara teatral ao abandono total dos corpo ao movimento.

Foi no silêncio da tua ausência que coreografei para ti estas três canções de amor”, escreve Vasco Wellenkamp, sobre este requiem que assinou para a bailarina e companheira Graça Barroso (1950-2013). A peça contém três canções (Tom Jobim e Chico Buarque) cantadas ao vivo por Maria João e acompanhadas ao piano por João Farinha. Cinco bailarinos põem a descoberto vínculos, ligações, segredos, momentos ignotos que só os amantes sabem nesse tremendo lugar da existência humana que é a morte de alguém amado.

Será que é uma Estrela? de Vasco Wellenkamp. Um requiem para Graça Barroso

Herman Sherman, de William Forsythe, foi escrita e estreada em 1992 para o Ballet de Frankfurt. Este dueto dançado por Tatiana Grenkova e Miguel Ramalho evidencia a forma como Forsythe conseguiu fazer coincidir a linguagem do clássico e do contemporâneo para criar uma algo singular dentro da dança atual. A execução desta peça é ela o próprio espetáculo. A potencialidades do corpo humano, o amontoado de possibilidades de relaxamento e tensão, força e leveza, contenção e amplitude, elevação e queda. Tudo está aqui sintetizado nesta peça onde o mistério não acaba, como acontece em de qualquer obra de arte.

Herman Sherman de William Forsythe, um dos mais importantes coreógrafos da atualidade, num dueto exímio.

Minus 16 é já uma das obras mais emblemáticas do israelita Ohad Naharin. Criada em 1999, tem tido várias versões em diferentes companhias do mundo. Uma delas foi o Ballet Gulbenkian que estreou a peça em 2002 e com ela se despediu em 2005, quando o projeto foi extinto.

Minus 16, fala de um mundo às avessas, onde os lugares e os tempos saem da ordem habitual:o espetáculo começa durante o intervalo quando quase ninguém está na sala e um bailarino vestido chaplinescamente dança no palco com a sala iluminada e parece tão deslocado e inopinado que ninguém liga ou então ouvem se risos nervosos de quem quer compreender o que está a acontecer e não consegue. A peça que se recusa a seguir uma série de regras, onde, como diria Beckett, “o fim está no princípio e no entanto recomeçamos”. Recomeça-se sempre, sempre, mesmo depois do pano cair. Mesmo depois do fim. O que é o fim? O que é o palco e a plateia quando uma coisa pode ser outra coisa? Deslocar o corpo das suas zonas de conforto e dos hábitos, eis o mote de Minus 16 que junta Chopin a “Sway” de Dean Martin e se torna uma doença contagiosa que nos faz involuntariamente obedecer ao ritmo e aceitar o repto.

Este programa está no palco do Teatro Camões esta quinta e sexta, 11 e 12 de maio, e dias 18 e 19 às 21 horas. Domingos, dia 13 e dia 20 às 16 horas. E segue depois em digressão nacional

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt