Crime

Morreu o “assassino da charneca”, o criminoso mais odiado do Reino Unido

Entre 1963 e 1965, Ian Brady e a namorada violaram e assassinaram cinco crianças e jovens na zona de Manchester. Preso desde 1966, morreu esta segunda, aos 79. Um dos corpos nunca foi encontrado.

Ian Brady tinha 28 anos quando foi detido, julgado e encarcerado para o resto da vida num hospital psiquiátrico de alta segurança

Evening Standard/Getty Images

“Servi-me de um copo de vinho quando soube — estávamos à espera deste dia há muito tempo. Para a nossa família é um ponto final”.

Foi assim que Terry West, irmão de Lesley Ann Downey, assassinada aos 10 anos em 1964, comentou ao Daily Mail a notícia da morte de Ian Brady, até às 18h00 desta segunda-feira descrito como o maior e mais odiado assassino em série vivo do Reino Unido.

Entre 1963 e 1966, com a cumplicidade da então namorada, Myra Hindley, quatro anos mais nova, Brady sequestrou, torturou, violou e assassinou cinco crianças e adolescentes, com idades entre os 10 e os 17 anos. Para a História criminal do Reino Unido ficou conhecido como o “moors murderer”, o “assassino da charneca”, por ter cometido os crimes (e enterrado os corpos) em Saddleworth Moor, uma zona deserta e árida, de vegetação rasteira, rochas e areia, a 400 metros de altitude, na região da grande Manchester. Por meses, escapou à pena de morte, entretanto abolida no Reino Unido, e foi condenado a prisão perpétua.

A irmã de Terry West, Lesley Ann, foi a quarta vítima. E a mais nova: tinha apenas 10 anos quando, no Boxing Day (dia a seguir ao Natal) de 1964, um sábado, foi atraída por Myra Hindley, na altura com 22, de uma feiraonde passeava para a casa onde a assassina morava com a avó. Apesar de a causa da morte nunca ter sido apurada (o corpo da menina foi desenterrado nu, à exceção das meias e dos sapatos que mantinha calçados), sabe-se que foi cruel e dolorosa: em tribunal foi admitida uma gravação áudio, feita pelos assassinos, onde se ouve Lesley Ann implorar e gritar pela mãe e depois morrer — ao longo de 16 minutos e 21 segundos. O juiz, os elementos do júri, os membros da assistência e até os agentes da polícia: todos se desfizeram em lágrimas, recorda o jornal Evening Standard.

Ian Brady detido pela polícia e a caminho do tribunal (Fotografia William H Alden/Getty Images)

Nascido nos arredores de Glasgow, na Escócia, em 1938, Ian Brady foi entregue a uma família adotiva pela mãe que, solteira e empregada num salão de chá sem capacidades para o sustentar, pôs um cartaz a oferecer o bebé numa loja quando ele tinha apenas três meses. Os Sloans eram pobres e já tinham cinco filhos, mas ficaram com ele. De acordo com relatos feitos durante o julgamento, em 1966, Ian nunca se terá integrado verdadeiramente na família. E apesar de ter crescido como miúdo sossegado e introvertido aos olhos dos professores, foi descrito pelos antigos colegas como uma criança perturbada, que não só não tinha amigos como, durante um jogo de polícias e ladrões, com apenas 9 anos, amarrou e pegou fogo a um colega, e noutra ocasião tentou enterrar um gato vivo.

Inteligência não lhe faltava e prova disso foi, durante a adolescência, ter recebido uma bolsa de estudos para um colégio privado para miúdos com capacidades acima da média. Mas Ian Brady nunca se integrou. Em vez de conviver com os colegas, preferia isolar-se e ler: Mein Kampf, de Adolf Hitler, Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e obras variadas de Friedrich Nietzsche e do Marquês de Sade, segundo publicaram à data do julgamento os jornais britânicos e voltaram agora, aquando da sua morte, a referir, eram os favoritos.

Em vez de estudar, preferia arranjar pequenos trabalhos braçais para ganhar algum dinheiro. Chegou a ser detido aos 14 anos e acusado de furto, e depois aos 16, quando já tinha abandonado de vez a escola e trabalhava como paquete num talho, voltou a ser preso. A alternativa a uma pena efetiva foi enviá-lo para viver com a mãe biológica, que o tinha visitado regularmente nos primeiros anos de vida, sem nunca se identificar, e que, entretanto casada, se tinha mudado para Manchester.

Foi lá que conheceu, numa fábrica de produtos químicos onde ambos trabalhavam, Myra Hindley, em janeiro de 1962 — ele tinha acabado de fazer 24 anos, ela faria 20 em julho. Um ano e meio depois cometeriam o primeiro crime de sangue juntos.

Myra Hindley, à esquerda, em 1965. (Fotografia Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

A 12 de julho de 1963, atraíram Pauline Reade, adolescente de 16 anos que ia a caminho de uma festa, numa discoteca, até à tal charneca a norte de Manchester, para onde costumavam ir beber vinho alemão e dizer mal do resto do mundo. Só confessariam o crime mais de duas décadas depois, em 1987 (21 anos depois de serem detidos). O corpo de Pauline foi encontrado numa sepultura escavada na areia, com o pescoço cortado, ainda com o vestido cor de rosa e dourado e com o casaco leve azul que tinha escolhido para levar à festa.

Quatro meses mais tarde, justamente no dia em que o homónimo John F. Kennedy perdeu a vida, do outro lado do Atlântico, John Kilbride, de apenas 12 anos, foi a segunda vítima do casal. Antes de morto, foi violado. E fotografado por Brady, com o seu pequeno cão ao colo, junto à cova em Saddleworth Moor onde viria a ser encontrado dois anos depois.

Keith Bennett, também de 12 anos, foi o terceiro a morrer, em junho do ano seguinte, e é para a sua família que vão grande parte das atenções da imprensa britânica, agora que Ian Brady morreu e levou com ele a mais que provável última hipótese de o caso ser encerrado.

Apesar de Brady e Hindley terem confessado o rapto e homicídio do rapaz, o corpo nunca foi encontrado. A mãe de Keith, Winnie Johnson, morreu em agosto de 2012 sem dar ao filho o funeral cristão por que lutou ao longo de décadas. “Apesar de não estarmos ativamente a conduzir buscas em Saddleworth Moor, a polícia da grande Manchester nunca fechará este caso. E a morte de Ian Brady não muda isso”, disse o comissário Martin Bottomley aos jornais.

A última vítima foi também a mais velha, Edward Evans, um rapaz de 17 anos que Ian Brady escolheu num bar gay friendly junto à estação de comboios de Manchester e a que apresentou Myra Hindley, à espera no carro, como sua irmã. Uma vez na casa onde moravam, Brady e Hindley beberam uma garrafa de vinho com Evans. Depois, por algum motivo que nunca ficou claro em tribunal, decidiram ir buscar o cunhado dela para os ajudar.

Foi David Smith, marido da irmã mais nova de Myra, quem chamou a polícia no dia 7 de outubro de 1966 e entregou o casal. Na noite anterior tinha-os ajudado a desfazerem-se do corpo de Edward Evans, depois de Ian o ter atacado à machadada, asfixiado com uma almofada e morto finalmente com um cabo elétrico.

Quando a polícia chegou encontrou indícios disso e de muito mais e foi a partir daí que se desenvolveu toda a investigação dos “moors murders”: havia na casa provas que ligavam o par aos desaparecimentos que investigavam há já dois anos.

Esta segunda-feira, 15 de maio, depois de 51 anos de reclusão, a maior parte deles no Ashworth Hospital, um estabelecimento de alta segurança para criminosos com insanidade mental (e 15 anos depois da morte de Myra Hindley, também na prisão), Ian Brady deixou finalmente de respirar, vítima de cancro e enfisema pulmonar. Nunca mostrou qualquer tipo de remorso.

No tribunal, em 1966, descreveu os crimes como “exercícios existenciais, filosofia pessoal e interpretação“. Também disse que os homicídios tinham sido “pequenos delitos comparados com as ações de políticos e soldados”.

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