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Vinho

Nesta “bodega” nasce o vinho que uniu franceses e espanhóis

Dois nomes de peso do vinho, incluindo o grupo Edmond de Rothschild, juntaram-se para criar um vinho que promete muita fama. Fomos até ao cenário vinhateiro da Rioja ver como se faz uma "bodega".

Ao todo, a nova adega ocupa uma área de 45 mil metros quadrados.

antonio mulero

“É preciso uma vida para construir uma adega”, diz-nos Pablo Álvarez, CEO da adega espanhola Vega Sicília, no final de uma conferência de imprensa que reuniu jornalistas de diferentes países. A levar a afirmação do homem de sorriso tímido e olhos azuis à letra, Pablo já deu à terra e ao vinho mais vidas do que um very old tawny pode ter: ao longo da sua carreira, viu serem construídas quatro adegas — ou “bodegas”, em castelhano –, a última em parceria com a prestigiada família Rothschild que, a título de exemplo, detém o château que produz um dos vinhos mais caros do mundo — sim, o Lafite.

A nova Bodegas Benjamim de Rothschild & Vega Sicília, que só será oficialmente inaugurada em junho, ocupa 45 mil metros quadrados na Rioja Alavesa, uma das três sub-regiões que compõem a Rioja, a “Denominación de Origen Calificada” (correspondente à portuguesa “Denominação de Origem Controlada”) mais antiga de Espanha. O edifício moderno, marcado por linhas direitas, representa a concretização de um sonho que uniu duas famílias ligadas ao sector do vinho (e não só), além de 24 milhões de euros de investimento na adega e outros 10 milhões nas vinhas. Foram precisos 15 anos para aqui chegar.

Foram investidos 10 milhões de euros nas vinhas. (Foto: Antonio Mulero)

A adega rouba a atenção de quem por ela passa. Não só pelo design — já lá vamos — mas também pela envolvência em si. Se ao fundo se avista a encosta sul da Cordilheira Cantábrica, que protege as vinhas do clima incerto do Atlântico, ao redor da infraestrutura há um mar de vinhedos que, de tão curtos que são os troncos, ao primeiro olhar quase parecem rastejar pelo chão. Ao contrário do cenário vinhateiro em Portugal, as vinhas apresentam a estrutura tradicional da região: os lotes são de pequena dimensão e os troncos das cepas, além de curtos, dão origem a três ramos verticais.

O sonho que derivou de um encontro casual entre Benjamim e Ariane de Rothschild, marido e mulher, e Pablo Álvarez, implicou uma procura intensiva pelas uvas certas: ao Observador, Álvarez conta que nos últimos 13 anos foram adquiridos 120 hectares de vinha (com, pelo menos, 35 anos de idade) através de 70 transações muito discretas, uma vez que o objetivo era manter o projeto em segredo. Tanta discrição levou a que as terras fossem compradas com um outro nome para não levantar suspeitas.

Nos últimos 13 anos foram adquiridos 120 hectares de vinha. (Foto: Antonio Mulero)

Da uva nasce o vinho. E da colheita de 2009 vieram o Macán e Macán Clássico, assim batizados em homenagem aos habitantes de San Vicente de la Sonsierra — coloquialmente chamados de “macanes”–, na Rioja Alta, zona onde se encontra parte das vinhas. Ao todo, foram produzidas perto de 7o mil garrafas que esgotaram em poucas semanas. Ambos os vinhos são feitos à base de Tempranillo, a casta rainha na Rioja, que em Portugal é conhecida como Aragonês ou Tinta Roriz.

Até há muito pouco tempo, tanto o Macán como o Macán Clássico — que envelhecem cerca de 18 e 12 meses, respetivamente, em cascos de carvalho francês — eram produzidos em instalações alugadas, com o projeto da adega a surgir apenas em 2015. A trabalhar desde junho do ano passado, a “bodega” — que de bodega não tem nada — está a poucos quilómetros de Samaniego, na província de Álava. Durante a visita guiada explicam-nos que esta casa do vinho, inclinada no sentido descendente do vale, divide-se em três níveis: um primeiro, voltado para a fronteira francesa, diz respeito à família Rothschild, sendo que o último, virado para Espanha, representa os Àlvarez. No meio, já dizia o ditado, está a virtude, com a divisão intermédia a simbolizar a união entre os dois grupos.

A visita à adega, que foi concebida pelo arquiteto espanhol Enrique Johansson, começou entre dezenas de barris e cubas de inox para terminar nas “oficinas”, como quem diz “salas de provas”. Pelo meio, os jornalistas tiveram acesso aos dois laboratórios, situados no piso inferior, onde todo o vinho é sujeito às habituais análises, mas também à sala de barricas e à moderna garrafeira que, com o tempo, certamente ganhará mais nome e vida — à data da visita, o artista Jean-Nicolas Boulmier ainda estava a terminar as pinturas murais na bodega. Não que seja precisa muita arte: o edifício é percorrido por uma área envidraçada de 2.500 metros quadrados que nos permitiu estar praticamente sempre em contacto com a paisagem em redor.

Apesar de todos os equipamentos e condições disponíveis na adega, que foi concebida de maneira a acompanhar o produto em todo o processo, das uvas que chegam em caixas até ao vinho que sai em garrafa, o enólogo de serviço é o primeiro a dizer que o vinho é feito na vinha, atribuindo, assim, máxima importância à qualidade das uvas. Tanto os Rothschild como os Álvarez querem criar um vinho de prestígio. E se Pablo Álvarez afirma que espera que o Macán seja melhor do que o Lafite, elevando a fasquia, Ariana Rothschild prefere afirmar que este é um vinho para passar de geração em geração — e além-fronteiras também.

O Observador viajou a convite do Grupo Edmond de Rothschild.

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