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Crítica de Livros

Orlando Ribeiro, o verdadeiro clássico moderno

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Vasco Rosa escreve sobre um novo livro que salta as fronteiras das disciplinas científicas para "ampliar a paisagem humana, física e cultural deste geógrafo humanista".

Autor
  • Vasco Rosa

Título: Mestres, Colegas, Discípulos
Autor: Orlando Ribeiro
Organizadora: Suzanne Gaveau
Editora: Fundação Calouste Gulbenkian
Páginas: 1029, em dois volumes
Preço: 40,50 euros

Com uma vitalidade prodigiosa e um zelo exemplar Suzanne Daveau, 92, continua a publicar — como pode — a extensa obra do seu marido o geógrafo Orlando Ribeiro (1911-97), na tentativa de manter viva e presente a extraordinária herança do seu legado científico, humanista e também literário: um raro estilo clássico, polido e refinado como poucos no meio académico, reconhecível desde o seu muito marcante e contagiante Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945).

Escrevi “como pode” para sublinhar o facto, que considero escandaloso (se verdadeiros escândalos houvesse na presente situação editorial…), de Orlando Ribeiro, muito provavelmente o maior geógrafo português, não ter hoje, falecidos os seus editores e amigos João Sá da Costa e Rogério Moura, quem lance a sua obra completa numa colecção condigna: por incrível que pareça, o seu livro de referência, acima referido — uma espécie de abc da portugalidade —, esteve tanto tempo fora dos escaparates que foi preciso o esforço de uma muito pequena livraria “independente”, a Letra Livre, para que reaparecesse em 2011 e em circulação exígua; outro trabalho do maior interesse, A Ilha do Fogo e as suas erupções — na verdade, um belíssimo e merecido tratado sobre a toda a terra e gente de Cabo Verde —, resgatado pela Comissão dos Descobrimentos em 1998, ressurgiu há dois anos, mas por boa-vontade da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, de cuja irrelevância e generosidade não duvidamos. Também estes dois volumes agora lançados pela Fundação Gulbenkian — que já na década de 1960 editara trabalhos deste seu bolseiro e conselheiro — esperaram três anos por impressão, como nos indica a data do prefácio da organizadora, “Fevereiro de 2014” (p. 10).

Terá a Geografia, ciência tão nobre e útil, perdido valor? Parece que sim.

À crise cultural que estes desmandos apontam reage Mestres, Colegas, Discípulos com o desfile das atenções críticas de Orlando Ribeiro a toda uma galeria de personalidades que marcaram o seu tempo e a sua formação e fortuna intelectual. Daveau decidiu bem ao desfazer a distinção autoral entre opúsculos geográficos e não-geográficos, permitindo-nos ler doravante o espectro dos escritos do seu marido como um contínuo que galga as falsas fronteiras das disciplinas científicas para ampliar a paisagem humana, física e cultural em que o geógrafo humanista fixou os pés e cingiu os olhos. Ribeiro escreveu sobre Camões, Goethe, Humboldt e Rosalía de Castro antes de tratar longamente da vida e obra de José Leite de Vasconcellos (1851-1941), o nosso etnógrafo e andarilho de maior fôlego que foi um modelo vivo para o jovem Orlando, criado muito perto do jardim botânico de Lisboa onde de 1876 a 1892 trabalhou o botânico Jules Daveau, sobre o qual também escreveu (v. pp. 80-85) e foi afinal tio-avô de Suzanne, que ele viria a conhecer numa reunião internacional de geógrafos em 1960 e com quem se casou cinco anos depois.

Era, como eu, geógrafa exploradora, encantada com o mundo tropical e formada numa disciplina científica muito afim da minha (os seus mestres foram discípulos dos meus)” (p. 83).

Tal coincidência e a vida comum permitiram a Suzanne Daveau protagonizar um excelente editing póstumo dos escritos de Orlando Ribeiro, beneficiando-os amiúde de introduções esclarecedoras, anotações muito atentas, reenvios bibliográficos e apêndices informativos quando o carácter ou antiguidade de certos trabalhos parecia condená-los a uma natural perda de utilidade. Outras vezes foi buscar ao espólio científico do marido textos inéditos, correspondência ou fotografias para ilustrar e complementar o que de novo dá aos prelos. Dir-se-ia que, por uma aptidão alcançada no seu longo ofício de geógrafa, transpôs para o trabalho editorial as ferramentas metodológicas de carrear e organizar informações de todo o tipo e de expô-las com a clareza típica dos mapas, valorizando-o ainda mais com a suave e segura arte de dar a conhecer e explicar que lhe vem de toda uma vida dedicada ao ensino universitário.

As 280 páginas de escritos sobre Leite de Vasconcellos, o primeiro dos quais um longo necrológio ao microfone da Rádio Nacional (outros tempos, sem dúvida), esclarece Daveau, não são a biografia do etnógrafo que Ribeiro se prometeu escrever, mas podem muito bem ser lidas como tal pois representam no seu conjunto um admirável repositório de aproximações à vida e obra dele. A palavra mestre parece pequenina de mais para exprimir todo o espanto, fascínio e admiração que o “discípulo, amigo e admirador sem reservas” (p. 216) consagrou à “tenacidade heróica” (p. 153) do autor de Etnografia Portuguesa — cujos tomos recenseou e depois prefaciou, ao longo de décadas, em páginas aqui reunidas pela primeira vez — e cuja lição, expressa no seu ex-líbris (“No estudo consiste o prazer”), parece ter-se tornado o próprio retrato do discípulo (“viveu muito, mas queria viver mais, só para mais poder trabalhar”, p. 109; “seja qual for o sentido em que se marche, topar-se-á sempre com os materiais que ele acumulou”, p. 153). Também por isso, Orlando reclamou repetidamente que a obra do “mais operoso investigador de antiguidades, linguagem e vida popular de todos os tempos” (ibid.) — ele próprio, admite, “figura etnográfica, entre a História e a Lenda” (p. 219) — fosse “apreciada fora do círculo dos estudiosos” (p. 151), enfim por “todos aqueles a quem não é indiferente uma boa formação de portuguesismo” (p. 148), e lamentando-se várias vezes que ele não tivesse deixado, “de modo sistemático, um modelo acabado de monografia local que pudesse orientar os que entre nós cultivavam o género, as mais das vezes sem preparação nem talento” (p. 271; tb. p. 237).

Em Julho de 1982 haveria de sublinhar “a saudade de um dos homens que mais amei e de um dos Espíritos que […] mais profunda e douradora influência teve na minha própria formação” (p. 361), e em Janeiro de 1985 admitiu ter explicado Vasconcellos a sua mulher como alguém muito raro que tinha conseguido concentrar em si, e a alto nível, especialidades muito diferentes.

Se Leite de Vasconcellos domina como «mestre por excelência», também é verdade que desde a década de 1930, em Paris, Coimbra e Lisboa, Orlando Ribeiro estabeleceu afinidades com outras figuras destacadas das Humanidades, um tanto ao acaso das suas próprias e alheias circunstâncias pessoais e profissionais, ultrapassando muitas vezes o círculo específico dos meios geográficos. Foi o caso do médico Juvenal Esteves e do historiador de arte Mário Chicó, com quem visitou «os museus e as grandes catedrais góticas do Norte de França» (p. 716), quando ambos estudavam na Sorbonne, cuja obra escrita considerou como “um exemplo de exactidão e de objectividade” e “o seu ensino científico o avesso do palavreado obscuro e oco e da erudição miúda e sem perspectiva” “numa escola fortemente dominada por tendências literárias” (pp. 716, 717). Foi ainda o caso do germanista Paulo Quintela, aqui recordado numa “Gratulação” de 1975 que vai dum poema de Rilke à vida universitária e às facilidades aí concedidas a “tantos medíocres e acomodatícios” (p. 810). E sucedeu também com Jorge Dias, que conheceu em 1937, cujo Vilarinho da Furna, uma Aldeia Comunitária — uma obra de charneira — viria a prefaciar em 1948 e em 1981, e cujo memento escreveria para o Expresso em Fevereiro de 1973; e ainda com Manuel Viegas Guerreiro, colaborador ultramarino deste antropólogo cultural, que havia sido colega de estudos de Orlando em Letras e como ele coadjuvante de Leite de Vasconcellos, a quem dedicará uma extensa apreciação ao seu livro-tese Bochimanes de Angola (1970).

Dois anos depois, em Maio de 1972, aproveitou o doutoramento de Jorge Gaspar para saudar nele a chegada de um “estímulo aos mais antigos e aos mais modernos» dado pelo confronto de diferentes instrumentos de pesquisa, e admitindo que «um professor que encerra a ciência na perfeição clássica dos seus métodos pode ainda escrever obras notáveis, mas não serve mais para ensinar e dirigir” (p. 785). Eram de certa forma já os frutos — diria, agridoces — da própria campanha desenvolvida por Ribeiro no sentido de uma decisiva internacionalização do ensino, da formação e da investigação geográficas, tornando o Centro de Estudos Geográficos da Faculdade de Letras de Lisboa “um lugar de trabalho mas também de encontro e aprazimento” (p. 889; “sempre entendi uma escola como um lugar de convívio intelectual e humano, e não apenas um sítio onde se dão e recebem lições”, p. 899), e a revista Finisterra uma publicação científica atenta, também a outros países e continentes. O privilégio dado a essa convivialidade instigante está muito bem demonstrada no inédito “Os participantes da excursão à Madeira em 1949” (pp. 920-37), iniciativa complementar ao congresso internacional de geografia realizado em Lisboa e tão importante foi para a afirmação dessa disciplina no nosso país.

A proverbial dureza do geógrafo — Ruy Cinatti chamou-lhe numa dedicatória “amigo rezinga” — expressa-se na dilacerante recensão a um livro de Torquato Soares sobre as origens de Portugal, tanto quanto a sua doçura e gratidão recaem num elogio de 1980 ao desenhador José Mourão, colaborador desde 1943 do mesmo Centro (pp. 847-54), ou em páginas sobre o caboverdiano Baltazar Lopes, o sãotomense Francisco José Tenreiro, Paiva Boléo em Ucanha ou o passeio por Lisboa com o colega sueco Torsten Hägerstrand, a propósito do qual constatou que “os povos fazem muito pequena ideia uns dos outros” (p. 741).

Aliás, Mestres, Colegas, Discípulos — que pode ser lido a par de Memórias dum Geógrafo, 2003, apresentado por João Carlos Garcia, outro aluno seu — fecha com chave de ouro, divulgando a conferência de Gerald M. Moser na Pennsylvania State University, (Portuguese Geographer and Humanist: Orlando Ribeiro, 1987), que simboliza o apreço deste judeu alemão que conheceu o português em Paris, no longínquo 1937, e ofereceu “o primeiro exemplar” de Les romantiques portugais et l’Allemagne “ao pai espiritual desta tese e meu bom amigo”, que depois sempre visitou em dezena e meia de viagens a Portugal.

Suzanne Daveau dedica “aos jovens Portugueses do século XXI com muita amizade esta densa compilação de testemunhos saudosos e incitativos, que reflectem o que foi a vida intelectual no seu país”, a que se pode acrescentar uma recomendação orlandesca: “A tradição não merece menos respeito que a inovação; [ela] merece ‘grave e honesto estudo’, além de carinhosa compreensão” (p. 214).

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