Arquitetura

Paul Ghirardini: “A ‘Guerra dos Tronos’ tem de ser verdadeira, não é uma rua em Sevilha”

Está em Portugal para uma conferência da Trienal de Arquitetura. É o diretor de arte da série mais popular do momento e diz-nos que "se Tyrion e Varys vão dar uma volta por Mareen é porque vão mesmo".

O castelo Dragonstone é um dos exemplos da arquitetura de "Guerra dos Tronos" que traz Paul Ghirardini a Portugal

Autor
  • André Almeida Santos

Os cenários de “Guerra dos Tronos” dão que falar. A monumentalidade de alguns cenários e, em particular, de algumas cidades, são parte da razão. Há outra bem mais importante e que talvez se entranhe menos pelos olhos e mais pela consciência: parecem mesmo reais. Há um peso histórico nos locais, há uma constante sensação de que muito se passou naqueles corredores, naquelas ruas, naqueles bordéis. A ideia de que facilmente poderão ser destruídos também é recorrente. O mundo construído em “Guerra dos Tronos” é perecível como o mundo real, mais do que em qualquer outra série recente. É um mundo fantástico mas em muito semelhante ao nosso. Apesar de ser ficção, e de tudo se passar mais rapidamente do que no mundo real, os cenários, até o seu desaparecimento, dizem muito sobre o universo que George R.R. Martin imaginou. Porque, lá está, é parecido com a realidade.

Paul Ghirardini é o atual diretor de arte de “Guerra dos Tronos”. Assumiu essas funções na quarta temporada, quando Gemma Jackson foi substituída por Deborah Riley no departamento artístico da série. Integrado na Trienal da Arquitetura, Paul Ghirardini dá esta quarta-feira uma conferência no Centro Cultural de Belém, pelas 19h, sobre arquitetura ficcional, integrada no ciclo Distância Crítica. Estivemos à conversa com ele, para perceber o que faz, como faz e como chegou até “Guerra dos Tronos”.

Paul Ghirardini (foto: Sara Battesti)

Como começou a trabalhar na “Guerra dos Tronos”?
Em 1999, 2000, estava a trabalhar num filme na Malásia, chamado “Ana e o Rei”, e aí conheci a Deborah Riley. Trabalhámos juntos, ficámos amigos. Quando acabámos o trabalho, perdi o contacto com ela, mas continuámos amigos. Cerca de catorze anos depois, soube que “Guerra dos Tronos” iria ter um novo produtor artístico e que essa pessoa seria Deborah Riley. Contactei-a de imediato, na esperança de que ela ainda se lembrasse de mim. Foi um daqueles emails, envias o e-mail e rapidamente recebes uma resposta a dizer “Estou tão feliz que me tenhas escrito, preciso de falar contigo porque vou começar a trabalhar na ‘Guerra dos Tronos’. Estarias interessado?”. Encontrámo-nos em Belfast passado uns dias e começámos a trabalhar juntos.

Já conhecia a série?
Entrei na quarta temporada, já tinha visto alguns episódios das temporadas anteriores. Quando comecei o trabalho, senti a responsabilidade. Conhecer os livros, a série de televisão. Ainda sinto essa responsabilidade, fico sempre muito nervoso.

O que o interessou na série?
Estava interessado porque era um desafio. Estava numa altura na minha carreira em que tinha feito uma série de filmes de época para televisão, adaptações de Charles Dickens, Jane Austen, e queria novos desafios. E acabei por entrar num desafio bem maior do que aquele que estava à espera?

Como foi o processo de entrada, enquanto diretor de arte, numa série que já vai na quarta temporada?
Foi muito difícil. Tudo tinha sido construído segundo a direção da Gemma Jackson, ela criou o universo das primeiras temporadas. Continuar sobre esse universo é muito difícil. Felizmente tínhamos outros mundos para construir, não estávamos presos ao que a Gemma construiu e podíamos levar tudo mais além. Penso que os argumentistas, o David Benioff e o Daniel Brett Weiss, também queriam que fossemos ambiciosos e que explorássemos outras possibilidades. Essa foi a nossa grande motivação. De outra forma, estaríamos só a trabalhar em volta do que a Gemma fez. Foi fabuloso que pudéssemos criar o nosso próprio mundo.

Há algo específico que o tenha deixado orgulhoso?
Nada em particular. Só o facto de chegarmos ao fim de cada temporada e as pessoas gostarem. Quando olho para trás, construímos alguns cenários fantásticos, de que me orgulho. Ao fazer estas entrevistas penso nisso. Normalmente acabo uma temporada e quero apenas libertar-me disso por uns tempos. Mas as entrevistas fazem-me pensar nas coisas que fizemos. Os universos de Meereen, Braavos… na noite passada estava a pensar no mundo do Three-Eyed Raven, o sistema de grutas que construímos para isso. Que ficaram extraordinários e foram sítios fantásticos para trabalhar. Criámos um sistema que estava habitado pelos Children of the Forest e o Three-Eyed Raven. Foi uma experiência próxima da escultura. Esse tipo de coisas orgulham-me muito.

Alguns dos cenários que constrói são destruídos. Gostaria de fazer parte desse momento?
Não me importo, está construído, está construído. Não olho para trás. Se há algo que aprendi a fazer neste trabalho é em não olhar para trás. Temos de andar para a frente. Fico triste quando os cenários são destruídos, mas normalmente são destruídos por uma boa razão: criar espaço para algo novo. Quase que fico entusiasmado pela destruição, porque fico muito excitado com o que vamos fazer a seguir.

Mas também participa no momento da destruição?
Gostaria de dizer que sim, mas não. Isso é para as pessoas que usam martelos maiores. Talvez se tivesse um dragão…

Na internet encontram-se muitas leituras sobre a arquitetura em que “Guerra dos Tronos” se inspira. Algumas delas estão certas?
Penso que sim. Se fizer bem a pesquisa, consegue perceber de onde vem a nossa inspiração. Não a escondemos. Nada é novo, tudo vem de algo. E nós fazemos o mesmo, para este tipo de arquitetura fantástica, temos à-vontade para escolher o que achamos que está certo para um cenário, uma cidade. Há uma longa história de arquitetura, pintura, ideias onde podemos beber. Escolhemos cuidadosamente, não fazemos algo só porque achamos piada. Passamos muito tempo a pensar no que vamos fazer e em como o vamos fazer. E isso cria uma espécie de guia para cada cenário, cidade, sobre o que queremos fazer. E com esses elementos na mão, trabalhamos a partir daí, o guia torna-se numa espécie de material-base.

Qual diria que é a sua maior aspiração?
Nada em particular, conheço muito bem a história do design, da arquitetura. E sou fascinado por esses universos. Estou constantemente à procura de coisas novas. Já fui citado sobre isto, mas uma grande referência para nós, e para mim em particular, é a revista da National Geographic. As fotos, as imagens que eles publicam, são extraordinárias. Há um mundo de ideias ali e sítios fantásticos, que tu pensas que nem existiriam, mas existem. Não tens de ir além do nosso mundo para encontrar locais fantásticos.

Mas também olha para o passado?
Sim, arquitetura alemã da década de 1930, o trabalho de Frank Lloyd Wright, a Itália renascentista.

A sua palestra hoje será sobre arquitetura ficcional. Como irá abordar o assunto?
A melhor forma de falar sobre isto é falar sobre mim e o que faço no meu trabalho. Vou convidar a audiência a ouvir-me falar sobre as ideias iniciais, desde o conceito, desenhos, protótipos, a construção dos cenários e o que depois veem na televisão. Vou tentar explicar as forças que estão por detrás desse processo, como tentamos construir identidades para estas cidades, que é algo importante para nós. Não estamos a construir novas cidades, estamos a construir lugares que existem há milhares de anos. Quando desenhamos Mareen, não é uma cidade nova, é uma cidade que existe há muito tempo. Temos de construir com essa ideia, de como os donos dos escravos construíram Mareen. Eles estavam lá antes de nós. Vou tentar explicar isso. Vou também mostrar onde a parte física termina e onde entram os efeitos especiais. Não temos o dinheiro, espaço nem o tempo para construir alguns destes cenários. Construímos o que podemos e depois os efeitos visuais tratam do resto. Penso que é essa combinação entre nós, os efeitos especiais, fotografia, guarda-roupa, que constroem aquilo que vês no ecrã.

Também participa nas gravações e no processo dos efeitos visuais?
Costumo estar presente nas gravações, porque é a minha responsabilidade. Tenho de garantir que a parte física daquele cenário está pronta para ser filmada. Imaginamos o aspeto da coisa na sua plenitude. Mesmo que tenhamos apenas de construir uma parte, criamos o aspeto visual final.

Qual é o seu maior desafio?
Ter a certeza de que no dia seguinte há algo para filmar. Que há um cenário particular que vai ser filmado e está pronto. É muito caro filmar “Guerra dos Tronos”. E eles não podem esperar para filmar, por isso temos de garantir que está tudo pronto para ser filmado.

E num sentido mais abstrato? Há pouco mencionou que quando constrói uma cidade, tem de imaginar que existe uma história nessa cidade.
Sim, é uma grande responsabilidade. Esses sítios têm de ter vida. Se o Tyrion e Varys vão dar uma volta por Mareen, tens de acreditar que eles estão a passear em Mareen. A “Guerra dos Tronos” é verdadeira, não é uma rua em Sevilha. Queres que penses que estão em Mareen. É muito importante tornar as cidades reais. Quando crias um departamento de arte como o nosso, crias uma equipa de pessoas obsessivas. Queres pessoas obcecadas com os detalhes e que querem tornar os cenários o mais real possível, com diversas camadas. A direção de arte não grita pela sua presença, quer estar ali e os atores fazem o que têm de fazer nos cenários que construímos.

Mas também contam uma história?
Sim, claro. Que é uma parte fascinante do trabalho.

O que o levou a seguir uma carreira na direção de arte em cinema e televisão?
Foi algo que surgiu naturalmente. Andei na escola, mas não gostava assim tanto da ideia, do conceito, de escola. Sabia que queria fazer algo relacionado com arte. Isso levou-me a prosseguir estudos nessa área e, daí, avançar para a direção artística em teatro. Que é algo que fiz e que gosto de fazer. Contudo, sempre gostei de viajar e de ganhar mais dinheiro do que o teatro me traria e o cinema pareceu-me uma boa possibilidade para concretizar essas duas coisas. Comecei a conhecer pessoas que trabalhavam na área em cinema e uma coisa levou à outra. O resto é história, quase 30 anos depois, aqui estou como diretor de arte de “Game of Thrones”.

Começou em teatro?
Sim, tive muita sorte. Conheci o John Napier, que é um diretor artístico fantástico, que tratou da direção de “Cats, “Les Misérables”, “Starlight Express”, musicais importantes, fiz imensos espetáculos com ele. O primeiro espetáculo que fiz com o John foi o “Starlight Express”. Foi um trabalho herculeano, mas fantástico de se fazer. Trabalhei na ópera em diversos países na Europa. Adorei, mas quando entrei no universo do cinema, fiquei muito ocupado e não voltei ao teatro ou ópera.

O que aprendeu no teatro que agora usa no cinema e na televisão?
Gosto de pensar que consigo fazer muito com pouco. Acho que é algo que aprendi no teatro, porque tens de saber usar muito bem os recursos que tens. Tens de tratar do espaço de uma forma diferente, dá-te uma ideia de pensares em texturas, cores, que normalmente não verias no mundo real. O que podes fazer num mundo fantástico. De alguma forma isso liga-se a “Guerra dos Tronos”.

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