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Tomai todos e comei (e bebei). Esta é a nova Granta

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Pela primeira vez, a revista literária traz uma banda desenhada, imaginada por Filipe Melo. As palavras de escritores como David Mitchell, Richard Zimler e Adília Lopes alimentam as restantes páginas.

Pormenor da capa, ilustrada por André Carrilho

“Comer e Beber” é o tema da 9.ª edição da Granta, que chega às livrarias na próxima semana. Não que a revista literária semestral se tenha convertido ao lifestyle e aconselhe agora os melhores restaurantes ou o mais recente bar de cerveja artesanal. A comida como tema literário junta aqui 10 autores, entre os quais David Mitchell e Richard Zimler, escondidos sob uma capa ilustrada por André Carrilho.

Carlos Vaz Marques, que dirige a Granta portuguesa, junta neste número dez autores. Conseguiu , por exemplo, que Adília Lopes contasse como aprendeu a cozer arroz. E “na autobiografia alimentar de José Tolentino Mendonça, condimentada pela parábola do conflito entre o comer e o falar, cabe uma reflexão sobre o silêncio à mesa, enquanto indicador de origem social”, adianta o diretor, no editorial.

Richard Zimler escreve sobre a pior refeição da sua vida. “Foi em dezembro de 1988”, começa, para aguçar o paladar. Em “Bolos entre ruínas”, a jornalista Alexandra Prado Coelho recorda as refeições da infância, com as memórias da avó gorda e da avó magra como acompanhamento. O angolano Sousa Jamba parte da diabetes do presente para recordar a fome do passado da guerra, em que se sonhava com o cozido à portuguesa que os colonizadores portugueses tinham deixado, mesmo depois de terem partido à pressa.

Filipe Melo fez o guião da primeira banda desenhada publicada pela revista.

Pela primeira vez, a Granta traz, em vez do habitual ensaio fotográfico, uma banda desenhada. “Sleepwalk” passa-se nos Estados Unidos, nos anos 1980, e conta com guião do pianista e realizador Filipe Melo e desenho de Juan Cavia.

Textos dos britânicos David Mitchell, Graham Swift e Giles Foden, já publicados na Granta inglesa, também alimentam esta edição, assim como a japonesa Mieko Kawakami.

Se o que comemos e bebemos nos humaniza (só os humanos cozinham), é também comendo e bebendo, ritualmente, que se estabelece uma relação mais estreita com o divino. «Tomai e comei», diz Jesus aos apóstolos na última ceia, «isto é o meu corpo.» Comer pode ser uma forma de redenção. E também, graças a deus, uma elaborada forma de pecar.
Carlos Vaz Marques

O primeiro número da edição portuguesa da revista Granta, editada pela Tinta da China, chegou às bancas em maio de 2013, com a inclusão de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa em destaque. Os cerca de mil assinantes começam esta semana a receber a nova edição da revista, que também chega às livrarias a 26 de maio, ao preço de 19 euros.

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