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Crónica. Chris Cornell: tutorial para lidar com a morte de um ídolo

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O que fica da morte súbita de um ídolo de adolescência é a sensação amarga de que um dia poderemos vir a ser mais velhos do que eles

Getty Images

Autor
  • Ana Markl
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Perguntaram-me que leitura é que eu fazia do último tweet de Chris Cornell, talvez em busca de um consolo ou de um possível enredo para a sua morte súbita aos 52 anos. O tweet não dizia nada de especial: “Finalmente de volta à cidade do rock”.

O vocalista dos Soundgarden e dos Audioslave, um dos maiores do rock dos anos 90, tinha acabado de dar um concerto em Detroit. Que ilação tirar então deste tweet, dez horas depois de ter sido publicado? Nenhuma. A não ser aquela ancestral de que hoje estamos em Detroit ou na Brandoa e amanhã já cá não estamos.

Antes de haver tweets já era assim, só não nos era atirado à cara com tanta precisão no registo. Confrontados com a aleatoriedade da morte inesperada e prematura, procuramos pistas no rasto digital para voltarmos a ser funcionais na nossa finitude. Estava triste? Teria vontade de morrer? Terá sido suicídio? Overdose? Porque, se não foi nada disto, nós que não vivemos os excessos dos noventas como uma estrela de rock também nos estamos a habilitar. E ninguém me perguntou se eu queria jogar roleta russa com o Chris Cornell.

Arrumada esta questão – que não cabe em esconso algum mas lá vamos amarfanhando como podemos –, apercebemo-nos de que Cornell não nos vai fazer realmente falta. Nos últimos tempos, o mais provável é que a sua música já não fizesse parte do nosso quotidiano, mas apenas das memórias – com um legado de pelo menos duas obras-primas na história do rock à frente dos Soundgarden — Badmotorfinger e Superunknown — mais o disco dos Temple of the Dog.

Como vamos então explicar aos outros que estamos de luto? Tentemos criar um novo enredo. Das bandas que protagonizaram o chamado movimento grunge de Seattle nos anos 90, vão sobrando poucos ícones: já partiram Chris Cornell dos Soundgarden, Kurt Cobain dos Nirvana, Layne Staley dos Alice in Chains e Scott Weiland dos Stone Temple Pilots (que eram de Chicago mas andavam pelas mesmas paisagens sonoras). Todos morreram cedo demais. E nós estamos de luto porque, enquanto eles fossem vivos, seríamos sempre mais novos que eles. Estamos de luto pela nossa juventude.

E, entretanto, o Keith Richards e o Paul McCartney hão de nos enterrar a todos.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3

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