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Óbito

Crónica. O Chris Cornell morreu e uma parte da minha juventude também

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Vi Chris Cornell ao vivo três vezes no ano passado. Vi um homem em paz consigo mesmo, feliz com a família que construiu e com muita vontade de continuar em cima do palco por muitos e bons anos.

Soundgarden em Milão, em 2012. Ali estava ele, tão perto, finalmente.

© Sara Otto Coelho

“Sara, tens de vir aqui ver uma coisa no computador”. “Diz o que é, que estou atrasada.” “Não, tens de vir ver.”

A minha primeira reação quando olho para o ecrã e leio o título “Chris Cornell, Soundgarden and Audioslave frontman, dies aged 52”, no The Guardian, é procurar na página alguma pista de que aquilo é fake news. Um endereço trocado, um printscreen que alguém editou para conseguir cliques. Alguma porção de esperança que me diga que não, que um dos músicos que mais admiro continua vivo. Que uma parte da minha juventude não morreu.

O choque é ainda maior quando recuo seis meses, até 7 de novembro de 2016. Naquela noite, sentei-me no Madison Square Garden, em Nova Iorque, para ver Temple of the Dog, banda efémera criada pelo Chris Cornell em 1990 como forma de homenagear o amigo Andrew Wood, acabado de morrer de overdose. “Que se lixe a poupança, é uma oportunidade única”, pensei, para justificar a facada na conta. Afinal, iam ser só oito concertos nos Estados Unidos. Naquela altura nunca pensei que fosse assim tão única.

Temple of the Dog, com os membros de Pearl Jam (sem Eddie Vedder) e Chris Cornell ao centro, junto do público. O concerto esgotou, assim como os outros sete da pequena digressão. © Sara Otto Coelho

Nasci em 1987. Quando o vocalista dos Mother Love Bone morreu, em 1990, o mundo ainda não sabia o que era o grunge e eu ainda não sabia o que era a música. Quando se foi Kurt Cobain, a 5 de abril de 1994, eu estava na primeira classe. Se tivesse visto algum adulto na rua a chorar a morte de um músico distante, dificilmente teria compreendido. Oito anos depois, no mesmo dia, morria o Layne Staley. Eu tinha 14 anos e estava a descobrir Seattle. Os Pearl Jam ocupavam quase todas as horas disponíveis da aparelhagem, os Soundgarden já batiam, os Alice in Chains chegariam logo a seguir. Naquela altura, descobrir um movimento inteiro não era tão imediato quanto abrir o YouTube ou o Spotify. Levou o seu tempo. E ainda bem.

Para mim, a morte do Chris Cornell não é só o primeiro grande abanão daquele período idílico da descoberta da música que nos há-de acompanhar pela vida adulta. É um choque porque, ao contrário de Andrew Wood, de Kurt Cobain e de Layne Staley, é a morte prematura de um homem que soube sobreviver às mesmas tentações e que, hoje, não se limitava a sobreviver; vivia. A voz estava diferente, mais rouca, mas afinada. Compunha, tinha acabado de dar um concerto na noite anterior, em Detroit. Tinha ainda uma palavra a dizer.

Quando era adolescente, só queria ter a oportunidade de um dia poder ouvir ao vivo a doçura de “Seasons”, a raiva de “Rusty Cage”, a negritude da “Black Hole Sun”, os agudos da “Jesus Christ Pose”. Quando o Chris Cornell finalmente veio a Portugal, em 2009, recusei-me a ir até ao Optimus Alive ouvir o que me parecia ser uma crise de meia idade: o abominável Scream, tentativa falhada de ser uma coisa que nunca esteve lá. Aquela não ia ser a minha primeira imagem do ídolo.

Nunca mais veio a Portugal. Mas eu já era adulta e não tinha de ficar à espera. Quando os Soundgarden se reuniram, depois de 13 anos adormecidos, fui vê-los a Milão, em 2012. Depois de ter de esperar horas sob o calor de junho, de ser atacada por um exército de mosquitos e de ter de levar com um concerto dos Refused, ali estava ele, o meu ídolo de sempre, a duas filas de pessoas, um fosso e um palco de distância. Ali estava a confirmação do poder daquela voz, finalmente a entrar-me pelos ouvidos sem o filtro de um estúdio, de um gravador e de uns headphones. E, sim, tive a minha “Rusty Cage”, a “Black Hole Sun”, a “Jesus Christ Pose”, e ainda a “Spoonman”, a “Burden in My Hand”, a “The Day I Tried to Live”, a “4th of July”, a velhinha “Loud Love”, de 1989, quando ainda ninguém fazia melodias assim. “Levem-me já, estou pronta para morrer”, disse, a brincar.

Milão, em 2012. © Sara Otto Coelho

Claro que não estava. Faltava-me — entre outras coisas na vida, que agora não interessam nada — ouvir a “Seasons”. A gravação a solo de 1992 que ainda hoje me arrepia, como se fosse a primeira vez que a estivesse a ouvir. Essa chegou em abril do ano passado, quando cometi mais uma loucura: ir ver o Chris Cornell, só ele e a guitarra, à Irlanda. Foi logo na primeira noite, na belíssima sala Ulster Hall, em Belfast.

And I’m lost, behind
The words I’ll never find
And I’m left behind
As seasons roll on by.

Saí da sala com 26 canções e com a certeza de que tinha sido fã toda a vida de um músico de verdade, com o bónus de ter visto em palco também um homem que contava histórias, que falava com o público e que mandava piadas. Das boas. Tão diferente do cantor de poucas palavras que estava nos Soundgarden — conhecidos também por “frown garden”, possivelmente uma das bandas mais carrancudas da época.

O meu 25 de abril de 2016 foi passado no Olympia Theatre, em Dublin. “Oh, sweet euphoria. Mine is the heart you own!”. Aquelas duas noites foram uma viagem no tempo por 32 anos de carreira, desde os Temple of the Dog às gravações a solo, dos Soundgarden aos Audioslave. Durante aquelas duas noites, vi um homem em paz consigo mesmo, feliz com a família que construiu e com muita vontade de continuar em cima do palco por muitos e bons anos. É por isso que custa tanto assimilar um título que diz “Chris Cornell, Soundgarden and Audioslave frontman, dies aged 52”.

Tal como tantos outros, sou uma filha tardia do grunge que ele ajudou a construir e que ainda hoje conquista novos admiradores. Enquanto for assim, Chris Cornell estará sempre vivo.

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