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Música

O bom gigante: 8 canções para lembrar Chris Cornell

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Voz sofrida mas com músculo de gladiador, à espera de carinhos porque sem eles não era nada, mas sempre sem pedir licença. Foi um cantor único nas coisas do rock e esta é uma amostra que o explica.

Jason Merritt

Entre 1988, ano do primeiro Ultramega OK, e meados dos anos 90, depois de Superunknown e a explosão comercial do nome da banda, os Soundgarden (uma das mais importantes bandas saídas de Seattle e do rock americano no final do século XX) eram muitas vezes engavetados na secção “metal”, outras vezes no departamento “rock alternativo”, “grunge” e restantes etiquetas do género. A confusão foi permanente, tudo por culpa de Chris Cornell, o principal compositor do grupo e o vocalista que não deixava espaço para que ficássemos esclarecidos. Ia do verso de embalar ao grito de deus-do-rock em menos de nada; seduzia tudo e todos com a voz cheia de gravilha mas também podia ser um herói punk de cabelo comprido. Fazia o que queria e foi por aí que construiu a diferença. No dia em que morreu, aos 52 anos, recordamos oito canções de diferentes fases e géneros, sabendo que não é a amostra perfeita mas que é um bom princípio — para recordar ou descobrir.

“Black Hole Sun”

‘Superunknown’, Soundgarden, 1994

Alguém que tente lembrar Chris Cornell sem ouvir “Black Hole Sun”. Gostem mais de umas ou de outras, não há maneira de escapar a isto. Seria como falar dos Led Zeppelin sem passar por “Stairway to Heaven”. Tudo o que caracterizava a voz do homem: sofrida mas com músculo de gladiador, a pedir festinhas porque os homens sem carinhos não são nada mas, ao mesmo tempo, a garantir que arruma com facilidade quem se meter na sua frente. Entre a balada e o grito metal, não é a canção dos Soundgarden mais ouvida no Spotify por acaso. E noutros tempos foi o santo graal do adolescente que tentava tocar guitarra para sofrer com pinta.

“Spoonman”

‘Superunknown’, Soundgarden, 1994

Há duas opções para lidar com esta canção. A primeira tem a ver com eterna busca que os fãs fazem sobre o significado daquilo que as bandas e os músicos dizem e escrevem. Há quem jure que este tema é dedicado a um amigo dos Soundgarden, daqueles que têm características tão únicas que merecem ser protagonistas de uma canção. Outros defendem que é tudo sobre o de sempre: droga. Enfim, como se isso fosse de facto importante. Interessa mais reter o essencial (que é a segunda opção): “Spoonman”, aquela malha em que Chris Cornell (que a escreveu) mostrou ao mundo de que matéria eram feitas as suas goelas: uma matéria inexplicável, que transformava uma dança meio xamânica vinda das coisas indígenas americanas numa suruba rock’n’roll de garagem em dias de tempestade. E é uma daquelas que chegou às pistas de dança para filhos dos anos 90.

“Jesus Christ Pose”

‘Badmotorfinger’, Soundgarden, 1991

Pelo título, podia ser uma canção dedicada ao próprio (uma pesquisa no Google por imagens de Chris Cornell entre fins de 80 e início de 90 explicam isto facilmente). Não é bem assim. É mais um destilar de raivas e ódios, coisa que os Soundgarden faziam com classe e à qual o vocalista da banda se adaptava com particular jeito. Quem ouvisse este Christopher a falar, quem lhe prestasse atenção às entrevistas, via-o sereno, lúcido, esclarecido, sem preocupações de maior. Depois davam-lhe uma guitarra e um palco e funcionava tudo como kriptonyte mas ao contrário: em vez de lhe tirar fosse o que fosse, dava-lhe tudo a dobrar.

“Hunger Strike”

‘Temple of the Dog’, 1991

Situemo-nos no tempo: 1991, no ano em que o grunge tomou conta do mundo. Eddie Vedder, o vocalista dos Pearl Jam, e Chris Cornell, juntos de cabelos ao vento a cantar o maior sucesso do álbum da “superbanda” Temple of the Dog; juntos a esticar os limites do que é habitualmente conhecido como balada, daquelas que durante a maior parte do tempo só têm dois acordes, feita à medida do sofrimento de todo o adolescente do mundo. Juntos a tramar as ideias de todos os que queriam ser como eles, que queriam estar com eles ou que misturavam as duas vontades no mesmo sonho. Uma canção mais que presa a uma época mas que mantém uma espécie de efeito pavloviano em quem a ouviu então e a volta a ouvir agora.

“Show me How to Live”

‘Audioslave’, 2002

Os Audioslave nunca conseguiram fazer história como fizeram os Soundgarden ou os Rage Against the Machine. Porque limitaram-se a juntar o melhor dos dois mundos sem os ultrapassar. Ainda assim, é daquelas coisas: amigo, rock é a tua cena? Compassos quaternários para partir pedra, tecnicamente irrepreensíveis, da secção rítmica que traz pirotecnia por defeito à voz que assusta os mais selvagens dos animais da selva? Então Audioslave é a tua banda e “Show me How to Live” é a tua canção. Do primeiro álbum do grupo, que surgiu em 2002, para encontrar um lugar certo no coração de todos os saudosistas daquela rádio do liceu controlada pelos mais cabeludos do pavilhão B.

“You Know My Name”

‘Casino Royale OST’, 2006

A carreira de Chris Cornell a solo não deixa grandes lembranças, a não ser algo como “este tipo nunca vai cantar mal, mas estes discos… enfim”. Tentou em tempos ser uma espécie de crooner dos subterrâneos mas nunca conseguiu chegar longe sem os camaradas que lhe davam exatamente o que ele precisava (como já tinha feito tantas vezes): canções. Certo, Cornell escreveu muitos dos sucessos dos Soundgarden sozinho, mas depois de ter os versos e os acordes a tarefa não acaba — e foi isso que lhe faltou nos cinco álbuns em nome próprio que editou (o primeiro em 1999). Ainda assim, foi num filme de James Bond que encontrou mais popularidade para uma canção a solo. “You Know My Name” não é do melhor de Cornell nem é do melhor de 007 mas foi um feliz encontro e é uma associação rara do franchise a um sacana sem lei — além de ter sido uma sorte danada para Cornell, porque o filme, esse sim, vai a caminho de se tornar um clássico.

“Seasons”

‘Singles OST’, 1992

Tinha toda aquela pose de quem vai conquistar o mundo só com duas ou três notas; aquela atitude de rockstar maior que tudo o resto; aquelas lições aprendidas com Robert Plant, adaptadas a terras americanas onde chove mais de 80% ano; ainda assim, quando chegava a hora de fazer canções, Chris Cornell era um homem perdido no meio dos sentimentos mais simples, daqueles que dão bons versos só com uma guitarra acústica. O bom gigante, a besta suave, o sex symbol que nem tinha de se esforçar para o ser. E a quase estrela de cinema. Passou por “Singles”, de Cameron Crowe, mas sem dar muito nas vistas. Se lhe tivessem dado mais tempo de antena era herói para chegar mais longe nas coisas do cinema e da televisão. É provável que o tenham desafiado mas ele, como diria o outro, era mais canções. Mesmo no cinema, como nesta boa amostra da banda sonora do filme de 1992 que fez de Seattle o paraíso dos românticos incuráveis.

“Fell on Black Days”

‘Superunknown’, Soundgarden, 1994

Uma boa dica para estes dias: pegar nos discos dos Soundgarden, pelo menos até Down on the Upside, e ouvir tudo, não há como falhar. Daí que escolher seja ingrato. Mas também seria ingrato não passar por “Fell on Black Days”, o paradigma da canção sobre a insuperável tristeza que faz de nós seres mais fortes e outros exercícios psicológicos da mesma categoria. Chris Cornell transformou-se numa daquelas vozes que dá gosto ouvir cantar sobre angústias, medos e tristezas sem remédio. Porque é daqueles poucos que faz com que isso soe a coisa boa. É fazer a experiência: headphones nos ouvidos num dia mau, fazer o caminho para o trabalho a pé e botar o play neste “Fell on Black Days”. Se tiverem orgulho na vossa miséria é porque está tudo a funcionar como é suposto.

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