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Economia

Défice e banca. Portugal deve tentar mudar as regras europeias

Algumas políticas defendidas pelo ex-diretor do FMI para Portugal podem chocar com limites europeus para défice, dívida e banca, mas Blanchard defende que Portugal deve tentar as mudar as regras.

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

Menos esforço orçamental, mais défice se permitir os investimentos corretos e limpar a banca, e aprender a viver com uma dívida alta para não matar a retoma económica. É uma síntese possível da receita indicada esta sexta-feira em Lisboa por Olivier Blanchard, perante uma plateia de economistas, gestores e alguns — Eduardo Catroga, Campos e Cunha e Braga de Macedo — antigos ministros das Finanças que se reuniu na conferência “Portugal from here to where”?

O antigo economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a olhar com atenção para a economia portuguesa, dez anos depois de ter apontado as fragilidades que vieram a agravar-se com a crise financeira e a crise do euro. Blanchard destaca a retoma que se vive em Portugal, mas defende que é preciso fazer mais para a tornar mais forte e indica o que considera ser o melhor caminho para lá chegar, ainda que reconheça os constrangimentos da política europeia e as restrições do enquadramento regulatório na banca.

E essa foi precisamente uma das perguntas colocadas pela assistência. Se as políticas que melhor servem a retoma da economia portuguesa, chocam com alguns limites europeus para as contas públicas e para a banca, deve ser a União Europeia a definir a política económica nacional?

Para Blanchard, Portugal deve trabalhar para conseguir uma mudança das regras que não funcionam para a sua economia, ainda que alguns aspetos pontuais possa optar por não cumprir. Mas esse é um problema de todos os membros da União Europeia, lembra. E a resposta é promover a discussão a nível político para mudar as regras. “É assim deve ser”.

Vamos ter de viver com dívida alta

O economista francês já tinha avisado: “Portugal vai ter de viver com dívida alta”. Esse é o ponto de partida. E considerando que mais 1% de consolidação orçamental representa menos 1% de crescimento, o que não permite reduzir de forma significativa a dívida, o “tradeoff” é muito pouco satisfatório. Mas como podemos viver com a dívida alta que torna muito difícil absorver choque futuros e é dissuasora para os investidores? Mais uma pergunta do público.

Blanchard concorda que Portugal não pode ignorar a necessidade de fazer alguma consolidação orçamental, para acalmar os mercados e os credores, mas a prioridade não deve “ser uma forte consolidação orçamental porque isso irá matar a economia”. Recusando a adoção de medidas desesperadas, como a reestruturação da dívida, realça que é impossível resolver o problema do endividamento com baixa inflação e esse seria o resultado de maior consolidação orçamental mais dura levará a esse cenário. E a opção por alguma expansão orçamental, ainda que com margem limitada, deve ser argumentada com as autoridades europeias.

E para que serviria essa expansão orçamental?

Investimento com qualidade, e aqui Blanchard é muito genérico nas propostas.

Resolver de uma vez por todas os problemas do crédito malparado na banca portuguesa. Esta deve ser uma alta prioridade na lista de políticas. E sobre a banca, um dos temas que mais perguntas suscitou, ficam alguns números apresentados por Blanchard, mas também por Francisco Franco, professor da Nova da School Business Executive.

  • Cerca de 33% das empresas zombies (que não são viáveis) conseguiram obter um novo empréstimo em 2014.
  • No final do ano passado, o crédito malparado atingia 17,2% do total, o que representa um stock de 42 mil milhões de euros.
  • Apenas 45% deste crédito em risco, está coberto por provisões, o que deixa fora mais de 20 mil milhões de euros de empréstimos problemáticos para resolver.
  • As empresas representam 80% do crédito malparado.

Novos donos, como a Lone Star, vão trazer novo modelo de gerir a banca

Mas que garantia temos que ao limpar esta herança de crédito mau, ela não volta?

Olivier Blanchard defende por isso que esse esforço tem de ser acompanhado por uma mudança no modelo de governo interno e do controlo e gestão de risco na banca portuguesa.

Ainda que uma parte dos problemas dos bancos se deva à crise económica, o facto das mudanças na gestão não terem acontecido no passado é a razão que aponta para o problema não ter sido ainda resolvido. Para o economista francês, a mudança de acionistas nos principais bancos — privados — leva a acreditar que o modelo e a estratégia de gestão também vão ser diferentes. E dá o exemplo do fundo americano que está em vias de comprar o Novo Banco. A Lone Star terá um modelo muito diferente do antigo dono do Novo Banco, uma referência à gestão do Banco Espírito Santo.

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