Crítica de Livros

Guedes de Carvalho e a literatura ligeira

"Guedes de Carvalho não é Chagas Freitas nem Joanne Harris; tem expressões estilísticas que denunciam uma vontade de escalar até à 'alta literatura'", escreve Carlos Maria Bobone.

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “O Pianista de Hotel”
Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Editora: D. Quixote
Páginas: 480

Não nos interessa andar a fazer terrorismo literário. Claro que, fora uns pozinhos estilísticos, O Pianista de Hotel toca numa escala diferente daquela que busca a crítica literária. Quem vê os livros da Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos, Daniele Steele ou Konsalik plasmados por um crítico já sabe o que esperar: bródios de sangue, as páginas atassalhadas em praça pública e a multidão letrada em júbilo pela chacina do conspurcador da tradição romanesca. O crítico, por mais pacífico que seja, ciente da sua função de gladiador lá afia a caneta para ferir, aperta a bolsa das estrelas e, indiferente às acusações de inveja ou de pretensiosismo de uns quantos, lá dilacera o espantalho, previamente preparado com círculos em volta das fraquezas e avisos da multidão sobre os ridículos.

Todos sabem que o livro não se propôs para a liça e foi escrito a pensar na gente pacata que prefere um serão calmo à trabalhosa companhia de um Ulisses; mas se por azar é apanhado na mão cega e enojada do crítico que a mergulhou no fosso comercial, lá será esfolado por não cumprir o protocolo de um mundo a que não quis pertencer.

Guedes de Carvalho não é Chagas Freitas nem Joanne Harris; tem até expressões estilísticas que denunciam uma vontade de escalar até à “alta literatura” e que justificariam que se polissem os elementos mais vulgares que lhe vedam a entrada em tão apetecível escol.

A toada do livro é um tanto circunspecta, monótona mesmo, há uma inofensiva mas estranha mania que leva o autor a tratar todas as personagens por dois nomes (Maria Luísa, Maria Amélia, Rui Begonha, Pedro Gouveia, Saúl Samuel…) e uma desnecessária e irreal técnica de distensão do livro, que passa por tratar todos os pormenores comezinhos como excessivamente pensados. A narração da busca por um vídeo de Youtube que ensine a tocar melódica dura duas páginas, em que se explica ao ancião oitocentista que estiver a ler o livro que aparecem muitas hipóteses quando se procura alguma coisa na internet, em que o plano de filtrar uma busca é apresentado como superna argúcia tecnológica, e em que, com um rigor tomístico, se distinguem vídeos para profissionais de vídeos para amadores. Um escândalo hospitalar motiva uma dissertação ácida, escrita com autoridade de conhecedor, contra a falta de escrúpulos dos jornalistas. À hierarquia que cada um impõe à sua vida, que implica não pensar muito em certas decisões, Guedes de Carvalho não sujeita as suas personagens: detalhes como tomar café merecem a ponderação de um casamento, escolher um prato num restaurante é um dilema mais batido do que a questão do ovo e da galinha. Isto será uma das principais razões para tornar o livro monótono. Outra, porém, será com certeza o gosto que Guedes de Carvalho tem por aquilatar o texto com observações banais. “os supermercados são peritos em pescar pessoas que foram lá a pensar não comprar nada” ou “neste mundo, não nos enganemos, há o que se vale e a impressão que se deixa, nem sempre são a mesma coisa”, doutas prelecções que instruem qualquer leitor que ainda não tenha chocado contra as conclusões filosóficas da humanidade inteira.

Se o leitor não estiver interessado em alargar os limites do pensamento contemporâneo, se desejar apenas uma amena companhia, o livro não desilude: no estilo o mais significativo é a repetição – “E isto é diferente, isto é diferente”. Um parágrafo depois “Como dizer-lhe que isto é diferente, isto é diferente” – e um ou outro pormenor que alambica uma narrativa destilada, fácil, que não obriga o leitor a grandes esforços.

É óbvia a contradição entre as pretensões da crítica e as pretensões do livro: como pode a crítica, interessada nas peculiaridades de um estilo, nos temas ainda por tratar, nas questões filosóficas mais especiosas, como pode a crítica tratar um livro que pretende descansar, dar a ver o conhecido, permitir um entretém, um escape ao trabalho e não uma redobrada carga de lavor?

Fora a já referida pantomima violenta, pode tratar o livro de um ponto de vista sociológico. Não no sentido mais pedante do termo, tratando como uma tribo primitiva os leitores de livros mais ligeiros. Mas a crítica literária sempre teve dois tipos de ferramentas: as que analisam a obra a partir das intenções de um autor, que desmontam os seus mecanismos estéticos, descobrem as estruturas gramaticais usadas para provocar certos efeitos e mostram aquilo que é próprio do autor (todas as técnicas contemporâneas de close-reading, os formalismos, etc.) ou aquelas que de alguma maneira se põe atrás do autor, as técnicas psicanalíticas, sociológicas ou estruturalistas, que acabam por revelar aquilo que numa obra é superior à intenção clara de quem a escreve.

A literatura mais ligeira, precisamente por encontrar eco no senso comum, é a mais fértil para este tipo de crítica. A literatura de vanguarda vai contra aquilo que é pensamento tácito ou, pelo menos tenta controlá-lo. Isto é: pode perceber certo tema ou raciocínio como típico da sua época e mesmo assim aceitá-lo ou decidir tratá-lo: é o que acontece com Madame Bovary, por exemplo, em que se topografa o movimento psicológico de um procedimento já comum mas ainda velado. Na literatura mais ligeira, porém, o barco parece controlado por forças externas. Os romances baratos de princípios do século XX dão-nos ideia do que pensava uma sociedade anti-clerical sobre os Jesuítas, os romances de oitocentos estão enodados numa filosofia de época que, de alguma forma, torna refém os próprios autores.

Ora, as ideias comuns têm a particularidade de sedimentarem de tal forma que se torna difícil expungi-las. Qualquer romance moderno mantém a ideia do Padre tonsurado, lúbrico ou mesquinho, como se as crianças modernas ainda se movessem debaixo de uma vigilância clerical e as nucas presbiterais já não estivessem resguardadas por fartas cabeleiras. O romance ligeiro é aquele que mais facilmente incorpora as características da época, mas também aquele que mais dificilmente abandona as que já não lhe pertencem.

O romance de Guedes de Carvalho tem, assim, o interesse de permitir ver algumas das características imorredouras do género romanesco, mas também o gozo de perceber que características – muitas delas ainda apresentadas como vanguarda literária – são já suficientemente aceites para passarem sem sobressalto pela literatura ligeira.

Entre as características perenes, a mais óbvia é a construção do livro a partir de uma resolução. Isto é, na literatura ligeira, aquilo que mais interessa num livro é o seu fim. O livro está montado, não para que se desfrute de cada página, mas para que cada página seja despachada para chegarmos ao fim, para sabermos o mistério. Não se trata, como num policial, de um mistério que o leitor conhece e pode resolver, pelo que tem de estar atento a cada pormenor; no livro de Guedes de Carvalho, por exemplo, há uma rapariga que vê – num universo absolutamente natural – a mãe morta em sua casa e há um cruzamento sempre iminente entre a mesma rapariga e um outro Homem, coisa que se pressente importante. O livro está montado para que se queira saber o fim, para que se resolva o mistério. Funciona como os livros de aventuras, como os filmes de acção, mas não como os romances de costumes ou de construção, feitos para que cada página valha por si.

Outro aspecto sempre presente são as personagens estereotipadas. Não se procura, na literatura ligeira, dar a ideia de uma personalidade invulgar, mas sim de uma personalidade reconhecível. Isto tanto acontece com as personagens que vivem de uma característica (toda a acção que diz respeito a uma mulher se desenvolve em torno da sua beleza, por exemplo), como com as personagens que têm um perfil social identificável por todos nós. O homossexual de temperamento artístico, a mulher sobreproduzida que aceita mal o envelhecimento, o rude e bêbedo trabalhador de aldeia, o avô sábio na sua simplicidade, terno e bondoso, o médico misantropo nas palmas da glória, com o ar de galã desgraçado à Lobo Antunes… Claro que aqui já se vêem algumas personagens que são próprias apenas do nosso tempo – desde o homossexual até aos jovens solitários, de empregos incertos e precários – mas mais importante é a transformação que levou as personagens-tipo de figuras anedóticas a figuras já aceites mas ainda em processo de justificação. As personagens-tipo já não são motivo de gozo: são um esqueleto que esconde uma alma sensível ou revoltada, obrigada pela vida a sofrer, de tal maneira que o leitor reconheça a nobreza ou a justificação do seu carácter.

Mais curiosa, porém, é a transformação naquilo a que Barthes chamava a sobrecarga de sentido, necessária em qualquer espectáculo da sociedade burguesa. Antes, esta sobrecarga dava-se pelo heroísmo: feitos valerosos, perigos bíblicos enfrentados por intrépidos humanos, linguagem que exaltasse e empolasse a dimensão épica das aventuras… Hoje em dia, porém, a sobrecarga de sentido dá-se no sofrimento. Neste livro, como em tantos outros, não faltam tentativas de violações, descriminação sexual, abandono paterno, morte precoce, mortandade infantil, loucura depressiva, morte de pais, morte de filhos e tudo quanto possa chocar um coração empedernido. Uma violação já não faz uma história, a orfandade aborrece o leitor. A rapariga tem de ser violada pelo namorado que a mãe arranjou antes de ser abandonada e mesmo antes de morrer. O heroísmo necessário no interesse da sobrecarga de sentido já não está em resolver problemas, mas em conseguir aguentá-los. Embora isto dê uma imagem triste do Homem, quase como se tivesse desistido de ter poder sobre a sua própria vida, desperta um perverso mecanismo de volúpia sofredora muito apreciado na literatura contemporânea.

O mais curioso, porém, é que o livro de Guedes de Carvalho mostra de que forma a literatura ligeira absorveu um estilo introspectivo, ora sentimental ora meditabundo, que não era próprio do seu campo. Abandonou o estilo épico, pousou mesmo o tipo de fuga para a frente apenas interessado na sucessão aventurosa, para criar um estilo cheio de comiseração pelas suas próprias personagens; o estilo do vulgo já é mais sofredor do que aventureiro, sentimental do que frenético.

O livro de Guedes de Carvalho, com os defeitos e as insuficiências que pouco interessarão aos seus leitores, vale mais pelo que mostra dos outros do que por si: agora que Guedes de Carvalho já o provou, já se pode classificar tanta da literatura actual como ligeira?

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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