Presidente Trump

Porque é que Melania cobriu a cabeça no Vaticano e não na Arábia Saudita?

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A polémica estalou depois de Melania Trump ter coberto a cabeça no Vaticano e não o ter feito na Arábia Saudita. Afinal, o que mandam os protocolos das audiências papais e do país islâmico?

AFP/Getty Images

O encontro foi entre Donald Trump e o papa Francisco, mas os olhos do mundo voltaram-se, com surpresa, para a indumentária usada pela primeira-dama, Melania Trump, e pela filha do presidente norte-americano, Ivanka. Vestidas de negro, com os ombros tapados, mangas compridas e véu na cabeça, as duas mulheres, que na semana anterior tinham estado na Arábia Saudita sem cobrir a cabeça, escolheram seguir à risca a antiga tradição do vestuário para as audiências papais — mesmo que o papa Francisco já se tenha mostrado flexível relativamente ao cumprimento do protocolo.

A comitiva da Casa Branca durante o encontro com o papa Francisco esta semana. Ivanka e Melania usaram vestido negro (Fotografia: ALESSANDRA TARANTINO/AFP/Getty Images)

Na imprensa internacional escreve-se que, devido ao facto de o papa Francisco ser um dos mais influentes críticos do presidente dos Estados Unidos, a família Trump preferiu manter o encontro o mais formal possível, evitando criar conflitos desnecessários.

“Uma pessoa que só pensa em construir muros, onde quer que sejam, e não em construir pontes não é um cristão”, sugeriu o papa Francisco em fevereiro, quando questionado sobre o novo presidente norte-americano. Agora, no encontro cara a cara (em que Trump sorriu muito e o Papa quase nada), o presidente dos EUA preferiu colocar alguma água na fervura e respeitar as tradições ao detalhe.

Qual é a polémica?

A polémica instalou-se com a chegada de Donald Trump à Arábia Saudita na semana passada. A acompanhá-lo, Melania e Ivanka chegaram sem cobrir a cabeça, contrariando o costume no país, que se orienta pela lei islâmica. O gesto foi visto como uma provocação pela imprensa saudita, mas a diretora de comunicação do gabinete de primeira-dama, Stephanie Grisham, afirmou à CNN que a Casa Branca não recebeu, por parte do governo da Arábia Saudita, nenhum pedido especial relativamente à indumentária para a visita oficial do casal presidencial ao país.

O que não passou despercebido foi um tweet do mesmo Donald Trump, publicado em janeiro de 2015, que rapidamente foi recuperado pelos internautas. Na mensagem, Trump criticava a atitude de Michelle Obama, que em visita à Arábia Saudita também optou por não cobrir a cabeça. No tweet, Trump escrevia: “Muita gente está a dizer que foi maravilhoso o facto de a senhora Obama ter recusado usar um lenço na cabeça na Arábia Saudita, mas eles ficaram insultados”. E concluía: “Já temos inimigos que cheguem”.

A polémica que tinha estalado na Arábia Saudita viria a adensar-se poucos dias depois, na paragem seguinte da visita diplomática que o presidente dos EUA está a fazer na Europa e Médio Oriente. No Vaticano, Trump e Melania foram recebidos pelo papa Francisco com tudo aquilo que o protocolo manda, o que foi interpretado por muitos como um sinal de preferência entre religiões ou como uma submissão à Igreja Católica.

Novamente em resposta à CNN, a diretora de comunicação do gabinete de Melania Trump justificou o gesto. “Pelo protocolo do Vaticano, as mulheres que têm uma audiência com o Papa devem usar mangas compridas, roupa formal preta e um véu para cobrir a cabeça”, afirmou Stephanie Grisham, sublinhando que na Arábia Saudita não há um protocolo a cumprir, mas apenas um costume cultural.

Arábia Saudita. Protocolo ou lei islâmica?

Na Arábia Saudita as mulheres devem usar roupa que cubra todo o seu corpo e a cabeça, o que para as mulheres locais se traduz na utilização da burqa, do niqab ou do hijab. As mulheres estrangeiras não são obrigadas a usar cobertura na cabeça, apesar de quase todas optarem por fazê-lo, para evitar o assédio nas ruas. Tratando-se de um costume cultural e não de um protocolo diplomático, não são raras as vezes em que mulheres em visita de Estado optam por não cumprir a tradição.

Michelle Obama não cobriu a cabeça quando visitou a Arábia Saudita (Fotografia: SAUL LOEB/AFP/Getty Images)

E o protocolo do Vaticano, o que manda?

As respostas são múltiplas e depende do local onde decorre a audiência e do tipo de reunião de que se trata. O protocolo mais exigente é precisamente o que se aplica às audiências privadas formais com chefes de Estado, como foi este encontro entre Trump e o Papa. A regra básica é, em traços gerais, a garantia de que no local onde está o Papa ele deve ser a única pessoa vestida de branco.

Para os homens, a exigência é simples: devem usar um fato escuro com gravata ou uniforme militar caso se aplique. Para as mulheres, para quem há mais variedade em termos de vestuário, as exigências são mais específicas: é pedido que usem roupa preta, de mangas compridas e sem decote. Caso se trate de um vestido não deve ficar imediatamente abaixo do joelho. Além disso, os sapatos devem ser fechados e não devem ter saltos muito altos. O pormenor da polémica é a cobertura da cabeça: é recomendado (mas não exigido) que as mulheres cubram a cabeça com um véu ou uma mantilha negra.

A tradição tem sido seguida pela esmagadora maioria das mulheres que têm audiências privadas com o Papa. Michelle Obama, por exemplo, esteve com Bento XVI em 2009 e usou uma indumentária do mesmo estilo que Melania Trump, também com uma mantilha na cabeça.

Rainhas católicas, as únicas mulheres que vestem de branco ao lado do Papa

Neste protocolo há apenas uma exceção: o chamado privilège du blanc, ou “privilégio do branco”, que se aplica a um conjunto muito restrito de mulheres — apenas sete — que têm o direito a usar vestido branco junto ao Papa. Mesmo com este privilégio, continuam a aplicar-se todas as características do vestido: ombros e decote devem estar cobertos e a na cabeça deve ser usado também um véu ou uma mantilha, mas de cor branca.

E quem tem acesso a este privilégio? As chamadas rainhas católicas: a rainha Letizia de Espanha e a rainha emérita, Sofía; a rainha Matilde da Bélgica e a rainha emérita, Paula; a grã-duquesa Maria Teresa do Luxemburgo; a princesa Charlene do Mónaco, e ainda a princesa Marina de Nápoles, esposa do descendente da família real italiana.

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