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O encanto da história gravado em azulejo

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A recém-inaugurada exposição "O Encanto na Hora da Descoberta" é a oportunidade perfeita para uma viagem através da história e para conhecer o espaço único que é o Museu do Azulejo.

Autor
  • Maria Forjaz

 

Vivemos rodeados de azulejos na arquitetura urbana, nas fachadas dos edifícios, no interior das igrejas, no metro, na Joana Vasconcelos, nos artistas de rua, mas na realidade parece que nunca as vemos.

O Museu Nacional do Azulejo é o museu que faz a diferença entre Portugal e o resto do mundo, pela singularidade da sua coleção, o Azulejo, manifestação artística identitária da cultura portuguesa, e pelo edifício extraordinário — um monumento nacional — onde está instalado, o antigo Convento da Madre de Deus, fundado em 1509 pela Rainha D Leonor, mulher de D João II e irmã de D Manuel I.

Fundadora das Misericórdias, D Leonor, rainha crente e culta, dotou o Convento com um rico espólio artístico onde se inclui peças da melhor pintura flamenga e portuguesa, cerâmicas italianas da oficina Della Robbia, ourivesaria e alfaias litúrgicas, entre outras.

“Devolver ao Olhar” e os primórdios da exposição

A exposição, recém-inaugurada, “O Encanto na Hora da Descoberta. A Azulejaria de Coimbra do século XVIII”” é uma consequência natural do projecto “Devolver ao Olhar”, um projecto de inventário que se transformou num projecto científico de grande importância.

O “Devolver ao Olhar”, criado em 2009, parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), tem como objetivo a inventariação e investigação de um acervo significativo e a reorganização das reservas do Museu Nacional do Azulejo, contribuindo para o enriquecimento da coleção e renovação das exposições, trazendo à luz novas abordagens de investigação. Deste projeto saíram cerca de 30 teses entre doutoramentos, mestrados e licenciaturas.

Ao contínuo interesse dos alunos pelo estudo e investigação do espólio do Museu, Maria Antónia Pinto de Matos, directora do Museu, responde que “é ponto assente que o Museu tenha de ter um inventário completo do seu acervo, porque sem ele não se pode falar de conservação, segurança e de gestão de coleções”.

A equipa do Museu percebeu que as peças (re)descobertas do “ Devolver ao Olhar” tiveram um percurso dentro e fora da instituição. Coimbra foi um desses exemplos.

Parte desse espólio que se encontrava em caixotes começou a ser reunido nos finais do século XIX, numa altura em que surge a ideia de transformar o espaço do convento da Madre de Deus, num espaço para apresentação do azulejo.

Ao mesmo tempo assistiu-se a uma série de demolições de edifícios como conventos, igrejas e palácios tanto em Lisboa como em Coimbra. Parte desses azulejos vieram a integrar a coleção do Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra, o qual em 1911, viria a transformar-se no Museu Machado de Castro.

Simultaneamente há dois locais que começam a pensar num espaço expositivo. Não no sentido estético, mas no sentido de levar as pessoas a interessarem-se pelo azulejo.

Os projetos são abandonados e os azulejos são retirados durante uma campanha de obras e começam a acumular-se no pátio do Museu Machado de Castro.

Por influência de João Couto, Santos Simões, conhecido investigador da Azulejaria Portuguesa, decide fazer o Museu do Azulejo, um núcleo do Museu Nacional Arte de Antiga, e começam-se a trazer de volta os caixotes de azulejos, mas quando chegam já estão todos desorganizados. Santos Simões morre no início dos anos 70 e o projeto fica suspenso. Mais tarde, Rafael Salinas Calado, nomeado diretor do Museu do Azulejo, vai a Coimbra buscar mais caixotes. Mas também não consegue concretizar o projeto. São caixotes e caixotes de azulejos partidos e dispersos.

“Devolver ao Olhar “ tem o objetivo de inventariar o espólio contido em mais de 3000 caixotes, tendo cada caixote cerca de 30 a 40 azulejos, com centenas de fragmentos. Isto permite-nos ter uma noção clara de que deve ter sido um trabalho tão moroso e difícil como estimulante e desafiante.

No âmbito deste projeto tem-se desenvolvido parcerias com Institutos, Universidades e Laboratórios, incluindo o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e o Laboratório Hércules da Universidade de Évora, o que muito tem contribuído para o incremento do conhecimento nesta área, no que se refere ao estudo das pastas, dos pigmentos e dos vidrados do azulejo.

Com uma equipa muito reduzida, o Museu Nacional do Azulejo recebe muitos estagiários portugueses e estrangeiros e dispõe de um excepcional grupo de voluntários, que muito potenciam o trabalho da equipa. Criam-se grupos com áreas de atuação autónomas de maneira a evitarem-se tempos mortos. Os mais talentosos são convidados a participar nos catálogos de maneira a enriquecer os seus currículos.

Alguns voluntários começam então a montar um dos painéis presente na exposição, a “ Degolação de S João Batista”, e uma das estagiárias, Madalena Matos, encarregue dos painéis com a temática do “Apocalipse” acaba por ficar responsável pelo projeto de Coimbra, tornando-se mais tarde Comissária executiva da exposição, juntamente com Alexandre Nobre Pais, doutorado em Artes Decorativas pela Universidade Católica e responsável pelo inventário do Museu Nacional do Azulejo.

Paralelamente, Diana Gonçalves dos Santos defende a sua tese de doutoramento em azulejaria de Coimbra, sendo convidada para Comissária da exposição.

A exposição

No início do levantamento das peças, ao analisar a documentação nos arquivos de secretaria, verificou-se a existência de inúmeras falhas e percebeu-se que o espólio tinha vindo dos depósitos do Museu Machado de Castro. Depois de uma visita a Coimbra verificou-se que alguns painéis tinham as mesmas séries e foi feita uma composição que do ponto de vista museológico poderá levantar muitas questões. Como por exemplo, a questão do inventário, o qual poderá ter criado uma espécie de “Tratado de Tordesilhas” com a divisão de peças entre Lisboa e Coimbra. Encontrou-se porém uma solução pacífica para o Museu Nacional do Azulejo com a eventual possibilidade de um protocolo de colaboração para o depósito dos azulejos.

Por outro lado, esta parceria leva-nos a ponderar como o património português anda disperso e desconhecido e que deverá haver sempre um esforço das instituições se relacionarem entre si.

A exposição, “O Encanto na Hora da Descoberta. A Azulejaria de Coimbra do século XVIII” é o resultado de seis anos de investigação e inventariação de centenas de milhar de azulejos do “fundo antigo” do Museu Nacional do Azulejo, que pretende valorizar a produção setecentista das olarias de Coimbra.

A conceção desta exposição seria impensável em muitos outros países, mas neste caso dada a natureza da proveniência do espólio houve a necessidade de se fazer o restauro paralelamente à descoberta de novos elementos e da campanha fotográfica para o catálogo da exposição.

A inventariação permitiu identificar mais de setenta painéis dos quais se apresentaram quarenta, que representam quase todos os artistas e oficinas de Coimbra.

Designações como oleiro, mestre de tenda de olaria, pintor de louça, pintor de azulejo, azulejador, ladrilhador, são atribuídas aos autores, Agostinho de Paiva, Salvador de Sousa Carvalho, Costa Brioso e António Vital Riffarto, protagonistas desta exposição. Foram gerações de artistas de um ofício que passava de pais para filhos.

Normalmente os especialistas consideram que a azulejaria de Coimbra é mais ingénua, até mesmo mal feita, sem a qualidade e o brilho da azulejaria de Lisboa, mais acinzentada, com um azul menos brilhante e as cores menos vivas.

Mas Coimbra tem um sentido de monumentalidade que raramente encontramos em Lisboa. Por exemplo, na primeira sala da exposição com os primeiros exemplares, apercebe-se a tal ingenuidade do trabalho de Coimbra e a pujança das suas molduras e uma força completamente diferente da escola de Lisboa.

O painel da Amazona ou a Duquesa Maria Joana Baptista de Sabóia [de Manuel da Silva, pintor na oficina de Agostinho Paiva (?), década de 1720] retrata uma princesa de Sabóia com um pagem negro que a conduz. Do ponto de vista das anatomias tem uma série de problemas mas também de soluções interessantes. O pajem é negro e está de sandálias calçadas. No entanto, em vez de pintarem as sandálias de branco rasparam o escuro da pele para fazerem o efeito das sandálias e utilizou-se uma esponja para transmitir o efeito das árvores.

Na segunda metade do século XVIII, com a série de painéis do Apocalipse revela-se a assimetria das molduras. As molduras não são iguais de painel para painel, uma inovação da escola de Coimbra. São painéis extraordinários do ponto de vista da pintura. Não se sabe quem é o pintor, mas apresenta soluções de inventividade fantásticas. Nota-se que o autor não era uma pessoa extremamente cuidadosa, que não lavava as mãos, porque os painéis apresentam imensas impressões digitais. O autor, porém, apresenta resoluções interessantes como aquela que representa os mártires a serem chamados para a ressurreição, onde se vê uma série de figurinhas que não estão propriamente pintadas. O autor faz borrões de tinta e sobre estes uma raspagem para criar identidade nas figurinhas as quais estão todas juntas. Com este trabalho percebemos que a escola de Coimbra tem um potencial da pintura da azulejaria que foi completamente ignorado até agora.

O público poderá estranhar que o final da história do Apocalipse não é a que consta nos painéis expositivos. Optou-se por contar a história não do ponto de vista narrativo mas pela maneira como eles estavam espelhados na arquitetura.

A exposição apresenta ainda peças incompletas e muito degradadas. A equipa decidiu que pela qualidade de alguns painéis e pela possibilidade de surgirem novos elementos estes serão progressivamente integrados durante a exposição. Por outro lado, quis revelar que a degradação do azulejo não é só feita pelo tempo, mas pela mão do homem, como é o caso de utilização de fisgas e pedras em azulejaria urbana, em fachadas e bancos de jardim. Segundo Alexandre Nobre Pais : “Temos de assumir vários níveis de restauro porque temos várias mensagens a passar”.

Com poucos recursos, o Museu Nacional do Azulejo conseguiu montar uma exposição de grande qualidade, trazendo à luz do dia, séculos da nossa história.Decidiu-se que a exposição seria inaugurada a 6 de maio, para comemorar o dia que a Assembleia da República deliberou como o Dia Nacional do Azulejo. E mostrando o seu sucesso, a exposição chama a atenção para aspetos como a preservação e a necessidade de defender o azulejo.

Segundo dados recentes, o Museu Nacional do Azulejo, em 2016, foi o terceiro Museu mais visitado com 160.557 visitantes (da Direção-Geral do Património Cultural) dos quais 85% são estrangeiros.

O que é difícil de entender porque a Igreja da Madre de Deus é das mais bonitas de Lisboa, com uma coleção extraordinária. Além disso é um museu acessível para todos, sem barreiras arquitetónicas, com audioguias e videoguias e com um restaurante simpático e um jardim maravilhosos. E ainda oferece a possibilidade do público visitar o museu gratuitamente um domingo por mês.

No final da visita à exposição fica-se com a sensação que o museu cumpriu com uma das suas principais funções e que foi recuperar a memória do azulejo português.

Segundo Maria Antónia Pinto de Matos: “ Portugal usa o azulejo ininterruptamente desde há 500 anos. Foi preciso 500 anos para haver um Dia Nacional do Azulejo, foi necessário esperar 100 anos para se fazer uma exposição sobre a azulejaria de Coimbra, e não gostaria de esperar 20 anos para ter o azulejo candidato a Património da Humanidade.”

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