Sociedade

Fidget Spinner: todos nós brincámos à parva

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Brincar pode (e deve) ser uma actividade pedagógica, mas também se aprende muito a perder tempo com parvoíces inconsequentes. O fidget spinner é só o mais recente exemplo. Recordemos outros.

Para que serve o fidget spinner? Pois. Mas há outros brinquedos com finalidades misteriosas

Autor
  • Ana Markl

A ideia de que no nosso tempo só precisávamos de um pau e um púcaro para sermos felizes talvez não seja bem verdade – mas quase. A verdade é que essa nostalgia não é exclusiva ao “nosso tempo”, seja ele qual for. Mesmo na era alienante dos smartphones e dos tablets, quando já ninguém espera, lá aparece um fenómeno lúdico que não é muito mais do que uma versão sofisticada de um pau e um púcaro. Hoje é o fidget spinner, amanhã não sabemos. E há 20 ou 30 anos, ainda se lembram?

Quem nunca cravou um brinquedo aos pais e ouviu “para que é que tu queres isso?” que atire a primeira pedra. Pensando bem: é possível que este texto esteja a ser lido por pais que até já responderam isso aos filhos quando eles choramingaram por um fidget spinner. Para quem ainda não percebeu, o fidget spinner é uma coisa com três coisas que rodam sobre si próprias – o que é que esperam realmente que os vossos filhos respondam?

Criado originalmente com o intuito de ajudar crianças com défice de atenção, este zingarelho que todo o garoto almeja nos dias que correm (e que todo o adulto deve experimentar) não requer propriamente talento nem desenvolve habilidades. Brincar pode (e deve) ser uma actividade pedagógica, mas também se aprende muito a perder tempo com parvoíces inconsequentes. Estão para aí armados em adultos, mas seguem-se as provas.

Apanha-bolas

É verdade que este brinquedo popular nos anos 80 pressupunha um objectivo: equilibrar uma pequena bola, presa por um fio, no cimo de um pequeno cone. Era bastante difícil apesar de arcaico.

Gô-Gô

Na mesma década, havia também o Gô-Gô, que era mais ou menos a mesma coisa, mas em vez de equilibrar a bola num cone, tínhamos de a fazer passar por uma argola: mais fácil de acertar, difícil era desemaranhar o fio. Olhando para estes brinquedos à distância, parecem uma caricatura patusca do tédio e da solidão.

Pega-Monstros

Aparentemente é mais difícil pegar monstros do que apanhar bolas, mas se o brinquedo anterior implicava um mínimo de perícia, já este servia só para ser esborrachado contra um vidro provocando o gozo de o vermos descolar-se devagarinho. Os pega-monstros eram feitos de uma borracha viscosa que agarrava muito bem o pó e o cotão, sobretudo quando manuseados por deditos gordurosos acabados de mergulhar no pacote de batatas fritas que os oferecia como brinde na década de 90.

Blandi Blub

Mas se querem nojeira mesmo a sério, têm de voltar àquele tempo em que tudo o que mais desejavam na vida era enfiar as vossas pequenas mãos num balde de ranho autorizado chamado Blandi Blub. Que saudades do tempo em que a indústria dos brinquedos ia ao encontro das necessidades mais prementes das crianças, como enfiar o dedo no nariz ou meter nojo à avó. O Blandi Blub era isso mesmo: uma nhanha verde com uma cor radioativa, demasiado mole para ter a dignidade de uma plasticina. E era um brinquedo do tempo em que muitas casas eram alcatifadas. Se calhar por isso é que deixaram de ser.

Ondamania

A Ondamania era uma espiral de plástico que, reza a lenda, descia escadas sozinha se a empurrássemos com jeitinho. Não era proeza impressionante, mas bastava-nos passá-la de uma mão para a outra, numa espécie de malabarismo pouco virtuoso, apenas pelo potencial relaxante do seu movimento. Até ao dia que emaranhava para não mais se endireitar ou era esticado até se partir – só para vermos até onde é que aquilo ia, já que as actividades relaxantes, ao fim de um certo tempo e sobretudo na infância, têm tendência para se tornarem primeiro entediantes e depois extremamente irritantes. Talvez a Ondamania seja nesta lista nostálgica o brinquedo mais parecido na sua função (ou falta dela) com o fidget spinner.

É verdade que existem truques que se podem fazer com o fidget spinner – e que podem ser vistos em tutoriais de YouTube – mas são meramente opcionais. Diz-me a minha experiência de utilizadora adulta que o prazer imediato de o pôr a rodar é semelhante ao de roer uma unha, para quem aprecia a prática. É uma descontração desprovida de sentido ou mesmo um alívio sem gratificação concreta. Vai tudo dar a um mal que afecta todas as idades: a ansiedade. Um mal que hoje é acalentado quase exclusivamente pelo impulso descontrolado de pegarmos no smartphone, pelo que o fidget spinner é altamente recomendável para crianças viciadas em Minecraft ou adultos que pratiquem o phubbing compulsivo.

Quanto à pergunta “para que é que tu queres isso?”, nunca nenhum filho responderá satisfatoriamente. Mas a ausência de resposta será sempre compreendida e acarinhada por pais que hoje recordem com saudade o tempo que perderam a brincar com um púcaro e um pau, uma bola e um cone ou um balde de nhanha verde.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3

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