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Quer ser uma pessoa de bem? Aprenda com o Vilhena

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Sempre atento à moral e aos bons costumes, José Vilhena publicou em 1959 um pequeno "Manual de Etiqueta" com conselhos úteis para quem quer saber comportar-se em público. Reunimos alguns.

"Ser educado é uma coisa bonita", escreveu José Vilhena

No princípio do mundo vivia-se, como todos sabem, na Idade da Pedra Lascada. Depois apareceram os compêndios de Etiqueta e o homem entrou na época da Pedra Polida.”

— José Vilhena

Primeiro foi a História Universal da Pulhice Humana, depois a história de Avelina, uma criada para todo o serviço. Agora, foi a vez de chegar às livrarias uma nova edição fac-similada de Manual de Etiqueta, um dos muitos livros que José Vilhena publicou clandestinamente durante o Estado Novo e que lhe causaram tantas dores de cabeça.

Descrito como “o mais profundo, investigado e detalhado Manual de Etiqueta jamais feito em Portugal” pela E-Primatur — que tem vindo a reeditar as obras do cartoonista português –, o pequeno livro foi o que mais impressões teve desde a sua publicação original, em 1959. Com pouco mais do que 140 páginas, este oferece uma série de conselhos úteis para quem quer saber como se comportar em público (e até em privado). Com muito humor e “uma visão única e despida de preconceitos e mordomias, como sempre foi apanágio de um autor que marcou gerações“, refere a editora.

Dividido em duas partes, o manual percorre os vários momentos marcantes da vida de qualquer pessoa, desde o nascimento ao namoro, passando pelo casamento, adultério e até pela morte. A última parte do livro é dedicada à “civilidade específica”, isto é, às boas maneiras referentes “a cada indivíduo, segundo a sua profissão, conta no banco e posição social”. Há um capítulo sobre a etiqueta dos polícias, outro dedicado aos guardas-nocturnos e até um para os fadistas. As dactilógrafas, criadas de servir e os alentejanos ricos também têm lugar de destaque. Nem os condutores da Carris escaparam. Porque “ser educado é uma coisa bonita” e a educação cabe em qualquer lado (ou qualquer momento).

O “Manual de Etiqueta” do Vilhena saiu em maio e já está à venda nas livraria. Custa 14,90 euros

Numa altura em que a má educação era “crescente”, Vilhena viu-se obrigado a mergulhar no mundo dos compêndios e tratados de etiqueta e redigir um manual detalhado. Para isso, viu-se obrigado a ler todos os livros de etiqueta do mundo. O que mais o impressionou, foi um compêndio em espanhol medieval “onde, com a mestria digna de um cozinheiro do Hotel Aviz, se ensina a grelhar um ateu em fogo brando”, confessou no prefácio do seu Manual de Etiqueta.

Afirmando que “infelizmente 99% das pessoas ainda considera que cuspir na cara do semelhante, urinar na rua, passar cheques sem cobertura, dar pontapés em polícias e palmadas na parte posterior das criadas de servir, são maneiras de pessoas ‘bem’”, no prefácio, o autor defendeu a necessidade de se acabar com “esses instintos”. “Eis porque julgo vantajoso o aparecimento deste Manual de Etiqueta e Civilidade”, concluiu.

Porque “todos quantos tiverem a felicidade de o possuir serão apontados como tipos educados”, reunimos seis conselhos que podem ser encontrados no Manual de Etiqueta do Vilhena, um dos grandes humoristas portugueses do século XX.

Como falar ao telefone

Para José Vilhena, há uma regra de ouro no que diz respeito às chamadas telefónicas: “Se uma pessoa nos telefona e a conversa começa a azedar, conservemos sempre a calma e as boas regras da linguagem não usando esse português demasiado vernáculo que está tanto em moda”. E deixa um conselho: “Para encerrarmos o telefonema, bastará dizer, na altura de desligar, duas palavras em tom firme e decidido. ‘Vá você’”.

Como usar perfume

Para o cartoonista, não existem dúvidas: “É dever de todo o cidadão e cidadã perfumar-se, principalmente quando toma banho apenas de dois em dois meses”. No que diz respeito às mulheres, o perfume deve ser “um rasto deixado no seu caminho”. “Deve ser tão forte que arraste atrás de si, mesmo os tipos constipados e os de pituitárias grosseiras.” E o que são pituitárias? São nada mais, nada menos, do que as membranas mucosas que revestem as cavidades nasais, de acordo com o dicionário.

O perfume das mulheres deve ser como “um rasto”, explica Vilhena

Como fazer uma visita

Mais do que uma prova de cortesia, fazer visitas “tem por fim bisbilhotar na casa dos outros”. Estas podem ser feitas a qualquer hora no caso de se tratarem de pessoas amigas. “Eu aproveito sempre a hora do jantar já que assim posso, duma só vez, chatear a pessoa que me alberga e ainda por cima papar-lhe uma refeição à borla”, confessa Vilhena. “Gosto mais de visitar pessoas com uns certos meios de fortuna, pois após o jantar fica-se sempre por ali a dar dois dedos de conversa, bebem-se uns whiskies, vê-se televisão, faz-se namoro à dona da casa ou às filhas, etc.”

Existem vários tipos de visitas: as de pêsames, as de médico, as íntimas e as de conveniência. No que diz respeito às primeiras, estas devem ser feitas assim que se tenha conhecimento da morte de uma pessoa. Deve vestir-se um fato preto, gravata preta e “afivelar uma máscara à altura do acontecimento”. Relativamente às visitas de médico (feitas, claro está, por um médico), estas são geralmente de curta duração. “Quase sempre o doente não resiste a mais que duas ou três visitas do médico”, garante José Vilhena.

Nas visitas íntimas, “não é obrigatório observar as regras de etiqueta, mas convém ter presentes as regras da discrição”. Já nas de conveniência, “pode entrar-se de chapéu na cabeça, de cara mal encarada que o resultado é sempre o mesmo”. Estas servem geralmente para pedir dinheiro emprestado, seja a um amigo ou a um banco. “Se temos crédito somos recebidos de braços abertos; se não o temos põem-nos no olho da rua.”

O tempo de duração de uma visita depende das circunstâncias e do interesse do visitante na pessoa visitada e vice versa. Há os que saem assim que entram e há aqueles que se demoram longas horas. Para as visitas, os homens devem vestir um fato azul ou preto e roupa branca “irrepreensível”. “O trajo da senhora que recebe é variável consoante o grau de intimidade com a visita. Pela minha parte não desgosto de ser recebido em trajo de baby-doll de cetim branco”, admite o autor. “Aqui fica o aviso.”

Como praticar o adultério

No caso de adultério, as senhoras devem sempre escolher o melhor amigo do marido por duas questões práticas: “Primeiro, ele tem entrada em sua casa. Segundo porque na boa sociedade é tradicional proceder assim”, refere o autor. Os melhores dias para praticar o adultério são segundas e sextas-feiras, geralmente à hora do chá. O perfume a usar nestas ocasiões é o Chanel n.º 5.

No que diz respeito ao adultério, Vilhena garante que “o marido é sempre o último a sair”

Como assassinar o respetivo marido

Só em casos extremos é que a mulher deve assassinar o próprio marido. Vilhena dá alguns exemplos: quando ele é dos que leem o jornal à mesa, quando ressona muito ou quando deita a cinza do cigarro para o tapete da sala. Nestes casos, o homicídio deve ser preparado com antecedência (de preferência dois meses antes). Durante esse período, a mulher deverá mostrar-se “amável e atenciosa para com o futuro defunto”.

O mariticídio (termo técnico para o assassinato do marido pela própria esposa) deve ser cometido durante o pequeno-almoço. Ensinaram-nos os filmes que o processo clássico consiste em misturar arsénico com o café ou com o sumo de laranja. “Algumas senhoras de espírito mais moderno têm empregado o cianeto, também com excelentes resultados.” De acordo com Vilhena, este vai bem com um copo de brandy com soda. “Só entre casais com reduzidos meios de fortuna é permitido que a mulher ‘apague’ o seu esposo com cabeças de fósforos dissolvidas no vinho”, esclarece ainda o autor.

O copo deve ser oferecido sobre uma salva de prata, coberta com um guardanapo de linho com as iniciais do marido bordadas a ponto cruz. A mulher deve assistir aos últimos momentos do marido “envergando uma toilette de veludo preto, sapatos de camurça, também pretos, uma joia que ele lhe tenha oferecido”.

Como cometer suicídio

O suicídio é “o último dos nossos deveres sociais” e, por essa razão, deve ser praticado com a maior “circunspecção”. “Todo aquele que observou durante a vida as regras da boa educação, manterá a etiqueta neste momento solene”, adverte Vilhena.

O suicídio deve ser anunciado previamente através de cartas escritas — num estilo sóbrio e simples — a amigos e familiares. Se o número de destinatários é muito elevado, pode-se optar pelo envio de pequenos cartões impressos “em papel de linho com uma leve cercadura dourada”. A fórmula que deve ser seguida é a seguinte:

FULANO DE TAL

Participa o seu suicídio e convida V. Ex.ª a acompanhar-lhe os restos mortais para o Alto de S. João, dia 22 pelas 11 horas.

É de bom tom dar uma resposta ao “fulano de tal” para que, na hora da morte, saiba com o que contar no seu funeral. Esta deve ser dada nos seguintes moldes:

CICRANO DE TAL

Agradece a V. Ex.ª o amável convite e aceita com muito prazer.

Manda a boa educação que se use “trajo de grande toilette” e, por essa razão, os homens devem vestir “fraque, calça de fantasia e colete impecavelmente branco”. Já as senhoras, devem usar “vestido branco de toilette” e os militares a farda de gala. Deve ser praticado, não em público, mas sim no recanto do lar, de preferência ao cair da noite.

Atirar-se para debaixo de um comboio ou saltar de uma ponte são formas grosseiras de tirar a própria vida. Vilhena aconselha o uso de comprimidos para dormir no caso das senhoras (devem tomar “um ou dois tubos”) e um tiro na têmpora direita no caso dos senhores. “Os académicos, intelectuais e professores da universidade usarão a cicuta”, uma planta venenosa.

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