Crítica de Livros

Património mil folhas

Vasco Rosa escreve sobre duas revistas que abordam histórias de monumentos, restauro de edifícios nobres e fazem uma importante e distinta abordagem sobre o património cultural.

A igreja dos Clérigos é um dos temas da Revista Património

ESTELA SILVA/LUSA

Autor
  • Vasco Rosa

Títulos: “Revista Património, n.º 4” e “Monumentos, n.º 34”
Editoras: Imprensa Nacional e Direcção-Geral do Património Cultural
Páginas: 184 e 176
Preços: 5 e 25 euros

Podem ser declaradas sobreviventes — e nesse sentido serão duplamente patrimoniais — estas duas revistas de história da arte, arquitectura e urbanismo que agregam periodicamente estudos variados que a muitos deveriam interessar, mas que na verdade pouco irão além do círculo de académicos e museólogos que afinal também as alimentam. E é pena. Muito dificilmente veremos numa esplanada ao sol, entre turistas folheando guias urbanos em busca de curiosidades visitáveis, um nativo concentrado na leitura de textos que esclarecem história de monumentos, restauro de edifícios nobres e toda uma sugestiva panóplia de temas dedicados ao genericamente designado património cultural, e que de facto nos trazem trabalhos dignos de muito boa nota, contributos de gente discretamente envolvida neles, de quem tão pouco se fala…

“Monumentos”, por exemplo, já produziu uma trintena de números monográficos de referência absoluta sobre cidades portuguesas, conjugando antigo, moderno e contemporâneo numa transversalidade cativante e lúcida, mas que, actualmente só disponíveis em cd-rom, ficaram cativos de uma portabilidade obsoleta, quando tudo isso já haveria de estar — estrategicamente — em suportes digitais actualizados, acessíveis a partir de um portal institucional que nitidamente também importa modernizar. Já para não falar de publicações bilingues (os abstracts não servem para tanto) que coloquem e valorizem o trabalho português nesses domínios num contexto europeu ou mundial de debate conceptual e técnico.

Houve de resto, a certa altura, um fulgor historiográfico com “Oceanos” e “Oriente”, mas estas publicações — que foram autênticos laboratórios de saber activo, estimulando ou acolhendo investigações em curso — esvaíram-se por completo, sem deixar lastro ou herdeiros de qualquer espécie e fazendo crer que descobrimentos, história colonial e orientalismos foram apenas a fruta de época de comemorações abastadas, e não constituem partes essenciais de uma contínua, sistemática atenção ao passado, e em muitos casos ao presente. “Oceanos” publicou 49 números em 1989-2002, e “Oriente” 22 entre 2001 e 2013, e o impulso que deram à renovação do conhecimento histórico não merece ser esquecido ou subestimado.

“Monumentos” interrompeu durante três anos a sua edição em papel, recentemente retomada, com a impressão de um número digital sobre Guimarães, poucos meses antes deste n.º 34, agora dedicado ao património de origem portuguesa na Europa, que recebeu apoio financeiro da Gulbenkian talvez porque ao mesmo tema esta fundação dedicou há tempos cinco volumes de grande porte, sob direcção geral do historiador José Mattoso. (Anuncia agora o conselheiro editoral da revista, arquitecto Alexandre Alves Costa, que o número de 2017 será dedicada ao convento de Mafra, pelo seu tricentenário). “Revista Património”, que prometeu ser semestral em Novembro de 2013, vai apenas no seu quarto número, mas envolve pela primeira vez — e muito bem — a Imprensa Nacional como editora de um periódico especificamente dedicado a estes assuntos.

Não basta elogiar a diversidade temática e o contributo habitual de colaboradores de prestígio: estas duas revistas, porque dependem deles, também representam imenso para a manutenção, protecção, vivificação — e elogio — de arquivos históricos, públicos e privados, que são ou deveriam ser alicerces e contrafortes de uma gerência patrimonial que fosse reconhecida por todos como um pacto político acima de quaisquer governos de tendência ideológica, num pequeno país que é também o mais antigo da Europa. E, sendo produtos da criação dos ateliers de Luís Moreira e de Jorge Silva, comprovam também a alta qualidade do design gráfico praticado em Portugal e os benefícios de uma cultura de trabalho especializado quando assumida por todos, num vínculo a tempo longo.

“Monumentos” com património de origem portuguesa na Europa abre simbolicamente — diria até: ironicamente — com Olivença, praça militar fronteiriça «engolida» pela Extremadura espanhola em 1811, onde «a encomenda e a intervenção artística foram, grosso modo, da responsabilidade de mestres e oficinas portugueses» (p. 15), como esclarece Vítor Serrão, que desenvolve curiosa interpretação acerca dos desígnios manuelinos para a construção da «espectacular» (sic) Ponte de Ajuda e acaba reclamando o restauro de «certa azulejaria» da igreja da Madalena (p. 24).

Como não podia deixar de ser, a sinagoga portuguesa de Amesterdão (1671-75) é objecto de atenção: P. Vlaardingerbroek, da Universidade de Utreque, diz-nos como foi sendo ampliada e alterada, mas também restaurada (a última vez em 1991-93) aquela que é tida como uma das sinagogas mais monumentais em todo o mundo, e a maior sinagoga sefardita à data da sua construção e «exemplo para outras» (p. 43). João Campos escreve sobre um palácio residencial barroco em Malta, enquanto arquitecto responsável pelo recente restauro patrocinado pela Fundação Gulbenkian, beneficiado pela instalação de algumas oliveiras portuguesas de idade idêntica à da própria edificação maltesa, e num gesto a registar concedidas por uma senhora Mendes Pinto com antepassados na ilha mediterrânica.

Teresa Vale, Vera Marix e João Mascarenhas Mateus escrevem sobre edifícios portugueses em Roma, enquanto José Manuel Fernandes e Alexandre Alves Costa debatem, respectivamente, o trabalho de Raul Lino no edifício da legação portuguesa em Berlim (1941-43) e um conhecido bloco de apartamentos de Siza Vieira na mesma cidade alemã, datado de 1980. Fernandes baseia-se «quase somente» (sic) na documentação do espólio Lino conservado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian, para descrever e ilustrar a intervenção do arquitecto-decorador que intensos bombardeamentos dos Aliados destroçariam dois anos depois, e incluía produção contemporânea, numa «coerência de atitude, de método e de conceito, que Raul Lino sempre defenderia ao longo da vida» (p. 96). Pelo seu lado, Alves Costa recorda visita à «mágica estranheza» do Bonjour Tristesse em 1989 — «uma das suas mais belas obras», e motivo da capa da própria revista — na companhia de Siza, Távora e outros amigos, para defender «a profunda inteligência da cidade» pelo arquitecto portuense, «identificado com a tradição de desenho e a tradição construtiva de Berlim» (p. 145).

Mas a grande surpresa é-nos dada por Rafael Moreira, com «O neomanuelino palacete Morozov em Moscovo». Directamente inspirada no Palácio da Pena, construído na serra de Sintra em 1843, com respigos andaluzes nas conchas que ornamentam os torreões circulares junto ao pórtico de entrada, a mansão fora mandada construir em 1897 por Arseny Abramovich Morozov — um dos herdeiros dum imenso empório industrial têxtil, ele próprio irmão de dois mecenas e audaciosos coleccionadores de pintura russa e francesa de vanguarda — após viagem com o arquitecto, que o historiador português acredita ter tido como objectivo prefixado conhecer a construção sintrense, compacto de referências místicas, um forte interesse de ambos. O edifício era tão insólito na capital russa, que Tolstoi se referiu à sua construção num romance de 1899. Atravessou o século passado com os mais variados inquilinos e foi restaurado em 2004-5, para ser logo depois sede de uma cimeira do G8…

Outro artigo de interesse é o de João Paulo Martins, que compara os pavilhões portugueses nas exposições ibero-americanas de Sevilha em 1929 e 1992, o desadequado «conservadorismo historicista» dos irmãos Rebelo de Andrade e a «indiscutível singularidade» pós-modernista de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, que todavia, apesar da visibilidade ali consentida, não teve «especial revelância para o crescente reconhecimento internacional dos valores da arquitectura contemporânea portuguesa» (p. 135). Teresa Nunes da Ponte também contrasta a primeira sede da delegação parisiense da Fundação Gulbenkian, o mítico hôtel particulier de Calouste Sarkis na avenida Iéna, a «sua campanha de obras, adaptando-a ao seu gosto pessoal, criando ambientes propícios à instalação da sua colecção de arte» (p. 100), em que René Lalique foi «consultado para inúmeras decorações» (p. 105), com a «linguagem contemporânea de desenho depurado e sereno» (p. 107) da adaptação funcional do novo edifício-sede, de que foi autora em 2011.

Na útil, invulgar e atenta compilação de novas publicações, faltou contudo referir o tão aguardado e póstumo Melancolia e Arquitectura em Aldo Rossi, de Diogo Seixas Lopes, saído pouco antes e considerado justamente um dos livros de 2016.
A conservação do Forte de Nossa Senhora da Graça em Elvas e o restauro e recuperação da igreja e torre dos Clérigos no Porto são os dois grandes temas da “Revista Património”. Premiadas internacionalmente, estas intervenções de salvaguarda patrimonial são aqui narradas pelos seus próprios agentes, com amplo recurso a fotografias actuais, plantas e documentos históricos, a que no segundo caso acresce o relato do seu projecto de musealização, de «design lacónico» (p. 109). A Sé patriarcal de Lisboa também está presente em três textos, que evidenciam a história das suas escavações arqueológicas, a originalidade do espólio recolhido e a tão esperada musealização do claustro, com o pátio-jardim finalmente reposto, a responderem à «falência do monumento que precisa de ser resgatada» e permitirem «um renovado uso do monumento e um relançado interesse público e académico pelo seu destino» (p. 139).

O que distingue substancialmente estas duas revistas — evitando a sua indevida sobreposição — é certamente o espaço que RP dedica à discussão teórica e a debates mais contemporâneos, como sejam, aqui: o carácter «rizomático» e inclusivo dos museus de arte do futuro; património e resiliência urbana; mediação e colecções online (a partir do caso do holandês Rijksmuseum); ou como pode, ou não pode, a arte contemporânea ajudar a requalificar o património cultural, tomando como exemplo uma experiência de «diálogo» no museu Malhoa, das Caldas da Rainha. E nesse sentido, é de saudar a colaboração de gente de fora do «meio», como Álvaro Domingues e António Guerreiro (números anteriores), e até de outros países, que neste n.º 4 consiste no ensaio «Museu, cidade e território», de Hugues de Varine, que durante uma década foi director do Conselho Internacional de Museus, e já teve Miguel Zugaza Miranda, director do Museo del Prado, e Enrique Saiz Martín, director geral do património cultural de Espanha, a discutirem modelos de gestão.

Em suma, duas revistas que vale a pena conhecer e seguir. Um pequeno esforço, portugueses!

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