Covilhã

Graffiter’s com mais de 60 anos dão nova vida a uma parede na Covilhã

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Chama-se Lata65 e foi dinamizado por Lara Seixo Rodrigues. É o primeiro mural pintado por pessoas com mais de 60 anos, que deixaram o problemas de saúde de lado e pintaram uma parede na Covilhã.

ANTÓNIO JOSÉ/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Maria do Céu Fernandes nunca pensou que, aos 93 anos, haveria de empunhar uma lata de ‘spray’ para desenhar numa parede, mas hoje vestiu a pele da ‘graffiter Pirata’ e deixou o seu traço num muro da cidade da Covilhã. Juntaram-se-lhe Filomena Nave, Carlos Monteiro, Natália Cruz e Maria Mineiro, num total de 20 pessoas com idades entre os 60 e os 93 anos que, ao longo de dois dias, aceitaram o desafio de participarem no projeto Lata 65.

São artistas improváveis que deixaram de lado os problemas da idade e avançaram com entusiasmo e alegria para aquele que é o primeiro mural realizado por pessoas com mais de 60 anos, na cidade que inspirou o Lata 65.

Dinamizado por Lara Seixo Rodrigues – que também é organizadora do WOOL-Covilhã Arte Urbana – o Lata 65 foi lançado depois de a mentora ter verificado o interesse com que os mais idosos seguiam o trabalho dos artistas durante as intervenções murais. A primeira edição foi pensada em 15 dias e realizou-se em Lisboa. Decorria o ano de 2012 e, desde então, o projeto já passou por muitas localidades do país e do estrangeiro, tendo abrangido cerca 370 pessoas.

Curiosamente, faltava uma ação na Covilhã. Finalmente possível, ficará na história, não só pelo “sabor especial” de se ter realizado na terra onde tudo começou, mas também por ter sido o maior grupo até hoje. Além disso, claro está, por ter voltado a cumprir o objetivo de aproximar os mais velhos da arte urbana, ao mesmo tempo que contribuiu para os lembrar das suas próprias capacidades.

Filomena Nave, 84 anos, é o exemplo disso mesmo. Numa mão, a bengala para se apoiar; na outra, o spray para pintar. “As minhas pernas já não ajudam e custa-me um bocadinho, mas vale a pena. É divertido e até está a ficar bem bonito”, apontou, em declarações à Lusa, enquanto aproveitava para descansar e observar o resultado do trabalho realizado.

Conhecedora desta forma de arte desde que acompanhou uma telenovela que contava a história de uns jovens ‘graffiters’, Maria do Céu não hesitou quando lhe lançaram o desafio de participar nesta oficina. O único receio era o de não ter força para carregar no botão da lata. Ultrapassada a dificuldade inicial, depois foi vê-la avançar pela parede como se de uma verdadeira ‘graffiter’ se tratasse. E antes mesmo do final, já avaliava os ‘rabiscos’ feitos na parede em frente: “Daquilo não gosto. Só gosto daqueles com desenhos. Isso sim, até as ruas parecem outras”.

Quem também aprecia o trabalho dos “artistas de verdade” é Carlos Monteiro, 74 anos, que já fotografou e partilhou na respetiva página de facebook todas as peças do circuito de arte urbana que o WOOL já permitiu criar na Covilhã. Faltam só as paredes que estão a ser intervencionadas este ano e, naturalmente, o mural onde também figura a data de nascimento de Carlos Monteiro e a assinatura artística que escolheu e que resulta da junção das iniciais do seu nome, ou seja, “CASM”. “Venho cá depois, porque os meus amigos têm de ver aquilo que aqui fizemos”, aponta.

Não é o único que promete voltar para identificar a respetiva mão, assinatura e data de nascimento ou as figuras geométricas, as rosas e até um barco, cujos moldes prepararam na primeira sessão, para poderem depois pintá-los naquela parede que tem agora um brilho diferente. “Quando é que pintamos a próxima?”, pergunta, em jeito de brincadeira, Maria Mineiro, 74 anos, que quando chegar a casa vai telefonar aos filhos e os netos para lhes contar a história do dia em que andou a ‘grafitar’ uma parede na cidade.

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