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Estados Unidos da América

Spelling Bee. O concurso infantil que se tornou um fenómeno nacional

Milhares de jovens norte-americanos concorrem anualmente no Concurso Nacional de Soletração. O que começou por ser um concurso educativo tornou-se um fenómeno desportivo nacional.

Após várias competições a nível estatal, chegaram à final 291 crianças

Alex Wong/Getty Images

Um bando de crianças invade todos os anos o National Harbor em Maryland (Estados Unidos). Estudam os seus apontamentos, revêem matéria nos tablets e smartphones e pronunciam palavras estranhas com os olhos focados no céu ou no chão. São os participantes do Concurso Nacional de Soletração (National Spelling Bee), um dos concursos educativos mais estranhos do mundo. Os pais, armados de garrafas de água e barrinhas energéticas, acompanham-nos discretamente.

National Spelling Bee

O National Spelling Bee é um concurso anual nos Estados Unidos em que várias crianças concorrem ao soletrar palavras – muitas delas desconhecidas até para adultos.

O evento já conta com mais de 90 edições desde que, em 1925, Frank Neuhauser, de 11 anos, ganhou o primeiro torneio ao acertar nas letras exatas da palavra “gladiolus” (gladíolo). Só não se realizou em dois anos – 1943 e 1945 – por conta da Segunda Guerra Mundial.

No ano passado, após uma final tensa com várias tentativas de desempate, a taça foi partilhada entre Jairam Hathwar e Nihar Janga, que acertaram com precisão nas palavras “feldenkrais” (uma terapia destinada a melhorar a capacidade de movimento do corpo) e “gesellschaft” (uma sociedade de indivíduos que atuam pelo seu próprio interesse).

Hoje em dia, a paixão de observar estes linguistas em ponto pequeno e com profunda sabedoria alcançou níveis inesperados. O canal desportivo ESPN, que transmite as grandes competições da NBA e de basebol, transmite a final em horário nobre (com direito a comentário e tudo). O acompanhamento no Twitter ultrapassou este ano os melhores prognósticos, com mais de 4 milhões de tweets na noite da final.

Curiosamente, os vencedores são quase sempre de origem indiana. Desde 2007, quando Evan O’Dorney venceu com a palavra “serrefine” (uma pinça utilizada em cirurgias cardiotoráxicas), que todos os vencedores nasceram na Índia ou são filhos de pais indianos.

Esta paixão gerou um interesse sociológico dentro da comunidade académica. “Os concursos de soletração são para a comunidade indiana o equivalente a celebrar o futebol ou a liga de basebol. São bons e dedicam-lhe muito tempo”, garante Shalini Shankar, a diretora de estudos asiático-americanos da Northwestern University.

À medida que passam as horas, acumulam-se as tensões e cada um lida como pode com a frustração: lágrimas, desmaios, pés irrequietos… Dava para fazer uma galeria com as reações faciais destas crianças. As expetativas dispararam de tal forma que muitos dos antigos participantes e vencedores encontram carreira a ser personal trainers dos novos participantes — tornou-se uma indústria onde se chega a pagar 200 dólares por hora (cerca de 180 euros).

A maioria dos participantes tem à volta de 15 anos. Mas há quem tenha apenas seis. Como Edith Fuller, a mais jovem participante na história do concurso e uma das que somou menos apoiantes devido à sua idade – foi eliminada na prova escrita.

Quase todos os concorrentes recorrem a um gesto peculiar, conhecido como “teclado aéreo”, para contar o número de letras usadas na palavra. Depois, aguardam com expetativa em posição de oração o resultado do dicionário eletrónico e o veredito de Jacques Bailly, o Soletrador Oficial.

Edith Fuller, de seis anos (Alex Wong/Getty Images)

O que começou por ser uma fascinante competição de nove estudantes passou a ser um tesouro nacional norte-americano“, explica a diretora executiva do evento, Paige Kimble, ao El Español, que garante que “o trabalho e o estudo são recompensados e reconhecidos e os conhecimentos adquiridos ficam para a vida”.

Se continuar a este ritmo, o “desporto” terá bares cheios de hooligans a entornar cerveja enquanto gritam os nomes das estrelas: Ansun Sujoe, Vanya Shivashankar e Gokul Venkatachalam. Agora, passam a ter um novo nome: Ananya Vinay, de 12 anos.

Sânscrito

O sânscrito é uma língua ancestral da Índia. Embora seja uma língua morta, o sânscrito faz parte do conjunto das 23 línguas oficiais da Índia, porque tem importante uso litúrgico no hinduísmo, budismo e jainismo.

Wikipédia

A jovem natural da Califórnia venceu este ano com a palavra “marocain” (um tipo de tecido) e ganhou ainda mais destaque quando, por causa de comentários à sua vitória, os apresentadores da CNN foram acusados de racismo. Numa entrevista em direto, a apresentadora pediu a Vinay que soletrasse a palavra “covfefe” (perceba porquê).

A jovem pediu indicações até que perdeu e foi nesse momento que a apresentadora insinuou que a rapariga está “mais habituada a usar sânscrito”. O momento ficou registado e foi alvo de alguns comentários menos simpáticos.

Mesmo não conhecendo a origem ou linguagem da palavra “covfefe”, Vinay explicou que estudou durante várias horas todos os dias para ganhar. “Eu estudo algumas horas por dia durante o ano e tento entender os padrões linguísticos e a origem das palavras para ver se consigo arranjar uma soletração que faça sentido”, explicou a primeira vencedora a ganhar o título a solo.

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