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Cinema

“A Odisseia”: uma biografia à superfície do comandante Cousteau

A fita quer mostrar as duas facetas de Jacques Cousteau, a lendária e a íntima, e as zonas sombrias desta, mas está presa às simplificações e clichés do género. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

O comandante Jacques-Yves Cousteau foi um dos ídolos da minha geração, que cresceu a ver os seus documentários de exploração aquática e sobre a vida marinha na televisão e também no cinema (“O Mundo do Silêncio”, co-realizado com Louis Malle, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1956 e Óscar de Melhor Documentário em 1957). Usando o característico barrete vermelho, capitaneando o navio-laboratório Calypso pelos mares (e alguns rios) de todo o mundo com os filhos e a fiel tripulação, explorando as profundezas oceânicas, revelando a variedade e a riqueza da vida marinha e transmitindo uma mensagem ecológica adiantada para o seu tempo e sem carga político-ideológica, Cousteau era um modelo a admirar e seguir, um misto de cientista, explorador, aventureiro e defensor da natureza.

[Veja o “trailer” de “A Odisseia”]

Um novo filme francês, “A Odisseia”, de Jérôme Salle, com Lambert Wilson no papel principal e rodado usando uma réplica do Calypso, propõe-se contar a vida e os feitos do comandante Cousteau, sem abdicar de apresentar os aspetos menos agradáveis da sua personalidade e de pôr parcialmente em causa a sua imagem de devotado e desinteressado pesquisador e paladino dos oceanos. (Aliás, a fita não revela nada que já não tenha sido contado no livro biográfico “Mon Père, le Commandant”, publicado em 2004 por Jean-Michel Cousteau, o filho mais velho do comandante, e uma das poucas pessoas que se lhe opôs e questionou várias das suas decisões e atitudes, chegando mesmo a romper com o pai).

[Veja a entrevista com o realizador Jérôme Salle]

Temos, por um lado, o Cousteau visionário e entusiasta dos oceanos, pioneiro do mergulho com garrafas de oxigénio, da exploração subaquática, do documentarismo sobre a natureza, dos estudos de oceanografia e do conservacionismo marinho, herói francês por excelência e personalidade de fama mundial; e pelo outro, o Cousteau egocêntrico, cioso do seu sucesso e da sua imagem pública, sempre á procura de dinheiro para financiar as expedições e a tapear os documentários para conseguir apoios, que engana a mulher, Simone (Audrey Tautou), à qual deve o dinheiro com que se lançou na aventura da sua vida, muito ligado ao filho mais novo, Philippe (morto em Portugal em 1979, quando o seu hidroavião se despenhou no Tejo, perto de Lisboa) e que acaba por se zangar com o filho mais velho.

[Veja a entrevista com Lambert Wilson]

É complicado resumir em duas horas uma vida tão atarefada, rica e complexa como a do comandante Cousteau, e Jérôme Salle tem que recorrer às inevitáveis simplificações, omissões e compressões, o que, somado a algumas liberdades dramáticas, acaba por tornar o filme muito esquemático e demonstrativo. Por outro lado, o realizador não consegue articular satisfatoriamente as duas facetas da narrativa, que são as do seu biografado, e este retrato cinematográfico do homem do ‘Calypso’ deixa-nos uma forte sensação de superficialidade, de ligeireza e de submissão aos mais barbudos lugares-comuns dos filmes biográficos. Sobretudo quando se dá a forçadíssima “redenção” final de Cousteau, que depois do desgosto da morte de Philippe, faz um exame de consciência, reconcilia-se com Jean-Michel e torna-se num arauto da ecologia e da defesa dos oceanos.

De “A Odisseia”, ficam a correção sóbria da interpretação de Lambert Wilson, que atravessa várias décadas da vida do biografado, e sobretudo as belíssimas imagens subaquáticas. Mas para isso, também podíamos termos ido rever um dos muitos documentários clássicos do comandante Jacques Cousteau.

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