Nostalgia

Anos 90, a década que os millennial trouxeram de volta

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A partir de agora os anos 90 conjugam-se no presente e não no passado. Os millennial e os seus seguidores foram aos arquivos e trouxeram de volta o espírito do fim do século XX.

Autor
  • Joana Emídio Marques
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Eram os anos 90. A última década do segundo milénio. Previsões do apocalipse competiam com o sonho de um progresso infinito. A celebração de uma Europa finalmente unida depois da queda do muro de Berlim engasgou-se com a guerra do Golfo logo a abrir a década. As tecnologias de guerra mais avançadas entravam pelas nossas casas dentro em televisões de alta fidelidade, computadores, telemóveis, internet. O bem estar-económico alargava-se e as cidades cresciam alastrando-se por subúrbios sem fim. Os centros comerciais eram estação terminal de um século marcado por duas guerras mundiais, a Guerra Fria, a ida à Lua. Eram os anos 90 e tudo parecia possível.

Gwen Stefani, um dos ícones de estilo dos anos 90, aqui a celebrar muitos dos símbolos da moda desta década: cabelo colorido, buns, rosto tatuado com pedras coloridas, umbigo à mostra.

O culto das marcas de luxo como a Versace, a Gucci ou a Calvin Klein, o reinado das top models, dos jeans Guess e das Levis 501, das roupas da Benetton com os seus polémicos anúncios publicitários, das roupas da Diesel ou da Gap convivia com sinais de um decadentismo sombrio de movimentos como o Grunge, na música, ou o Dogma 95, no cinema. O fim do milénio fascinava-se com os serial killers de Tarantino em Pulp Fiction e Cães Danados, com o romance American Psycho de Bret Easton Ellis, com a violência de Trainspotting ou Nacked, a melancolia mortal de As Virgens Suicidas. Uma geração inteira aprendia a amar de forma desalinhada, anti-conservadora e sem final feliz com Henry & June, Pretty Woman, Antes do Amanhecer, Bufalo 66, Lolita. José Saramago escrevia a distopia Ensaio sobre a Cegueira e a poesia como um inesquecível perfume de António Franco Alexandre saía no volume Poemas pela Assirio & Alvim de Hermínio Monteiro.

Smells like teen spirit

Os Nirvana davam o mote para a alma de uma década feita de paradoxos: “Come as you are”. E David Lynch marcava para sempre as nossas salas de estar domésticas com a suspeita de que o mal era omnipresente e poderia vir de qualquer lugar em Twin Peaks.

A televisão impunha a moda mainstream em séries como Beverly Hills 90210, Clueless, Buffy, Friends, Sexo e Cidade. Era a apoteose denim nas suas infinitas versões: jardineiras, mum jeans, pré-lavados com lixívia, adornados com bordados, rasgados, cinturas subidas, blusões largos, camisas, minissaias. Foram também os anos dos crop tops coordenados com um piercing no umbigo e o rosto enfeitado com tatuagens, purpurinas e pedras brilhantes que ninguém usou com tanto estilo como Gwen Stefani, a vocalista dos No Doubt. E das camisas amarradas na cintura, dos vestidos de alças fininhas e acetinados a lembrar lingerie conjugados com botas de combate Dr Martens ou Timberland celebrizados pela rainha do estilo girly-whore Courtney Love. Mas o espectro mais perturbador da moda vinha mesmo do heroin chic perversamente adorado nos corpos magérrimos de Kate Moss, Winona Rider, Chloe Sevigny.

Kate Moss em 1992, com um look Anna Sui. A herança pastoril da cabeça adornada de flores competia com os adornos góticos num dos muitos paradoxos de que foi feita a moda desta década.

Um certo minimalismo nas formas respondia ao excesso barroco dos anos 80. Celebrava-se o gótico com o look negro total, as gargantilhas vitorianas, os vestidos largos, as saias compridas. A aparência oscilava entre a perfeição intemporal das meninas do Sexo e a Cidade e o repto de Kate Moss “I’m too cool to care”.

Este verão é só gargantilhas

A cultura pop exaltava nas Spice Girls e Britney Spears e o seu universo de bonecas kitsch com os cabelos em escadeados, enrolados em dois coques ou apanhados no alto da cabeça com scrunchies coloridos.

Se o girl power se afirmava, o man power começava a acusar uma mudança na forma de expressão da masculinidade. Eis que, de repente, os homens podiam (e deviam) mostrar a sua fragilidade: as mortes de dois ícones transgressores como Kurt Cobain ou River Phoenix, o cinema a mostrar as figuras de homens enfraquecidos, mentalmente destruídos em filmes como A Festa de Thomas Vintenberg, Magnólia de Paul Thomas Anderson, Beleza Americana de Sam Mendes, os corpos magros e desajeitados de ícones da moda como Vincent Gallo passavam a mensagem de que os homens também tinham um mundo interior.

Vincent Gallo e Christina Ricci no filme de culto “Bufalo 66” evocam toda a moda de rua dos anos 90.

Talvez por isso o look grunge tenha feito tanta carreira, com as suas camisas de padrões florais quase femininos a competirem com a rugosidade dos bombers e bikers de pele, os cardigans de malha esburacados, as carteiras triangulares com uma afirmativa corrente metálica, as incontornáveis camisas aos quadrados e as t-shirts de inspiração surfista de marcas como a Billabong, O’ Neill e Quiksilver.

A androginia sem culpa e popularizada na publicidade e na moda punha rapazes e raparigas a cheirar a CK One da Calvin Klein, a usarem as mesmas camisas largas de flanela e, no final da década, as mesmas cargo pants ou calças de combate. O mundo podia ser uma “Bitter Sweet Symphony”, como cantavam os Verve, mas hoje, que olhamos os anos 90 de longe, uns com nostalgia, outros com surpresa, tudo o que podemos dizer disse-o melhor António Franco Alexandre, em 1999:

quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.”

Revendo a nossa fotogaleria percebemos como todas estas coisas têm vindo a reaparecer mais ou menos subrepticiamente, para em 2017 afirmarem ao que vêm: os anos 90 foram demasiado importantes para não os voltarmos a celebrar.

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