Música

Liberdade é do coração no novo álbum de Éme

Três anos depois de “Último Siso”, Éme edita “Domingo à Tarde”, álbum que trata de amor e política e traz a influência da música popular portuguesa.

O concerto de lançamento do novo disco aconteceu no final de maio, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa v-miopia.blogspot.pt

© Vera Marmelo

Autor
  • Nuno Costa Santos

Há novo disco na aldeia. É o novíssimo álbum de Éme, nome artístico de João Marcelo, ele que já trazia três discos na maleta, o EP Passa-se alguma coisa estranha (2011), e os álbuns Gância (2012) e Último Siso (2014), e muitas cumplicidades musicais com os seus comparsas de editora, Cafetra, que, para lembrar a expressão de um artista famoso, têm andado a crescer em público de há uns anos para cá (ainda nos está na memória o perfume sónico dos Passos em Volta).

O que mudou em Éme e na sua relação com a música e o mundo entre Último Siso e Domingo à Tarde? Algumas alterações na biografia, das circunstâncias da vida às marcas na pele, refletiram-se no resto. E são contadas de um modo aberto e divertido, valorizando os pormenores. “Se eu mudo, muda a minha relação com a música e vice-versa. Terminei a Faculdade, saí de casa da minha mãe, ‘juntei-me’, tanta coisa mudou. Agora tenho imensos pelos e, pela primeira vez, algumas rugas (pé de galinha).” No campeonato da composição, sente que o tempo que demorou de um álbum para o outro o fez esquecer-se de como tudo se fazia. “Por outro lado, é quase como se fosse tudo igual. É uma sensação estranha, arrumar a vida em álbuns.”

A capa do novo álbum de Éme (edição: Cafetra)

Logo na primeira audição topa-se que, apesar das mudanças, mantém-se uma filosófica coolness nas letras e na forma de as cantar. E que se aprofunda agora uma infidelidade musical de quem ora escolhe a canção popular e tradicional portuguesa ora opta por passeatas ao estilo veraneante – como em “Puxa a Patinha”. Agradam-no essas facadinhas: “Adoro dar uma coisa e logo a seguir o seu contraditório. Não gosto de moralismos nem nacionalismos e a ideia de coerência dá-me arrepios, parece saída de um anúncio do banco.”

Destaca o que lhe interessa na música popular portuguesa: “Tem sempre mais a ver com a desafinação, os tempos naturais, os palavrões, os erros da métrica, a maradice no geral do que com a ideia de ser uma coisa que temos que respeitar porque é ‘nosso’.” Enformado pela pop anglo-saxónica ou brasileira, comove-se com o que tem escutado. “Ouvir algumas coisas do arquivo do Tiago Pereira, nomeadamente a Adélia Garcia, mexe completamente connosco.” Parte para as descobertas na comunidade que habita: “É mais fácil aprender com quem se conhece, falando, vivendo, estando, ouvindo. Nesse sentido as referências para mim são as Pega Monstro, o Lourenço Crespo (nos teclados de Domingo à Tarde), Moxila (flauta, clarinete, cavaquinho) e o B Fachada (produtor do álbum). Também o Luís Severo e a Sallim. Através desta malta e mais alguma fui descobrindo o Zeca Afonso e o José Almada, que são aqueles de quem mais gosto na música dos anos 70. O José Almada – autor de Homenagem, de 1970, e de Não, Não, Não Me Estendas a Mão, de 1975 – é lindo, estou a ouvir agora.”

A liberdade está sempre a passar por aqui, sob a forma de um espírito andarilheiro que ora se revela em canções de amor – como a primeira, “Sem Roupa”, na qual, muito naturalmente, se declara que “bom é ter-te à minha beira”, mas também em “Joana”, em que se celebra um romântico despudor — ou em temas de bardo que vive, observa e partilha com os ouvintes as suas anotações de viagem, na urbe ou pelo campo. Embalado por uma percussão de folclore, um cavaquinho nervoso e um órgão ziguezagueante, “Comboio”, com o seu refrão “seca no sul dá pa molha Minho/ pára o comboio, não quero ir para lá sozinho”, parece ter dedo autobiográfico. “É uma digressão mas não necessariamente uma digressão de concertos, até porque a maioria das digressões não se faz comboio. É uma viagem de comboio de uns sítios para outros.” E isso basta. Uma experiência que aconselharia a qualquer um. O estado de espírito da canção parte de um cansaço que se transforma no ato de espreitar neuroticamente para o lado. A ideia era a de rir com narrador e a de a tudo oferecer alguma leveza. “No fundo, o verdadeiro chato dessa música sou ‘eu’, ou seja, é o narrador. Ele é que implica com tudo em todo o caminho.”

Algumas anotações do canhenho. Parece revelar-se de vez em quando uma respiração anárquica, contra a ideia de lei, consagrada de modo inequívoco em letras que podiam ser cartazes de um PREC existencial: “Lei é do cu e liberdade é do coração”. A ideia de anarquismo interessa a Marcelo – “poder ser o que se é e o seu contrário” — mas considera ainda cedo para matutar sobre grandes conceitos e demandas. “Neste momento o lado prático e específico da vida deu-me os elementos de que precisava para fazer uma análise que eu próprio considero interessante e única.” Conclui, confortável: “E, no fim, é isso que me importa.”

Podia pensar-se num certo desencanto com a política, revelado em letras como em “já nem vale a pena o voto em Portugal” ou num encontro, contado em “Tédio”, com um homem sem mãe e poucos dentes. Mas desencanto é palavra demasiado grave para Éme. O que houve foi uma aproximação que o fez descobrir fragilidades. “Pela primeira vez percebi que a política não é só uma coisa ideológica. Podia ser mais gentil para as pessoas e não é, existe sobre si mesma.” A melancolia, essa, não é para ser vivida sozinha: “Alberga a neurinha/ traz a tua eu trago a minha/ neura assim sozinha/ tem que ter um par” (“Roma-Sé”). Uma espécie de traz outra neura também. Éme, mais uma vez, não quer ir mais além do que vê no seu território e no dos seus: “Eu não sei muito sobre a minha geração e também não sei sobre as outras. Eu e os meus amigos (basicamente a malta da Cafetra) partilhamos tudo. Sinto que, de facto, partilhamos o mundo através da música. O que há é sempre a ideia de que vivemos numa bolha e essa bolha não me permite falar de uma geração.”

Épico de negros tons, “Buraquinho” está entre o melhor deste álbum. Começa com uma melancólica confissão: “Ontem deu-me e já só queria ser/ Um buraquinho no chão para não ter mais que vos ver”. Esta marcha fúnebre, com um final de salpicos eletrónicos, e onde se nota, na complexa tapeçaria sonora, o virtuosismo da produção de Fachada, traz, como acontece com outras canções de Domingo à Tarde, uma leve desfaçatez na letra: “Chega a noite, o que achariam os meus pais/Talvez que anda a fumar uns charutitos a mais/ Ou a beber uns copitos a mais/ Ou a comer uns hidratos a mais/ Ou que os meus dias são todos iguais/ ou ‘tão contentes só por serem os meus pais’”. O estado de espírito, entre o dramático e o enfadado e com um certo sentimento de não-pertença, encontra aqui o seu desfecho: “Solução: cantar do coração”.

Até ao final deste domingo, ainda há, além das composições já faladas, o puro gozo de “Chá com Mel”, com o seu burlesco instrumental à Avô Cantigas. A já referida “Roma-Sé”, que celebra um passeio lisboeta que podia ser feito com Sérgio Godinho. A festiva “Zequinha”, com crónica bem sacada e um tempero auto-depreciativo: “De volta a Lisboa,/ uma casa bonita/ até era na boa/ se eu fosse turista/ Mas Tuga artista/ é uma vida à toa./ Estar bem na entrevista/ mas a cara destoa”. E uma versão da alentejana moda “Muito Chorei Eu Num Domingo à Tarde”, epílogo adequado e, mais do que do que uma glosa, uma celebração pura e simples da arte de cantar belas palavras.

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