Fogo de Pedrógão Grande

Fogo de Pedrógão Grande. O que se sabe e como a tragédia começou

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A contabilidade das vítimas continua a subir. Os números oficiais dão conta de 64 mortos e 204 feridos. O incêndio mantém-se ativo e em Góis existe uma situação "preocupante".

Além de vítimas mortais e feridos, o incêndio de Pedrógão Grande destruiu habitações e dizimou animais

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os incêndios que deflagraram em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, e em Góis, no distrito de Coimbra, provocaram 64 mortos, todos civis exceto um bombeiro, e 204 feridos, dos quais sete graves, de acordo com o balanço oficial das vítimas mais recente. As autoridades anunciaram, nesta quarta-feira, que o incêndio no concelho de Pedrógão Grande está dominado, não indo para além “do perímetro estabelecido” de 107 quilómetros, mas a situação em Góis continua a suscitar um elevado esforço no combate às chamas.

A ministra da Justiça revelou hoje que o Instituto Nacional de Medicina Legal já concluiu todas as autópsias aos cadáveres recolhidos durante a tragédia de Pedrógão Grande, embora alguns desses corpos estejam ainda por identificar. Em declarações à agência Lusa, Francisca Van Dunem congratulou-se com o facto de o INML ter realizado todas as autópsias “num tempo recorde” de 48 horas, mais precisamente entre a madrugada de segunda-feira e as 04h00 desta quarta-feira.

[Siga aqui, em atualização permanente, a evolução dos incêndios e do combate às chamas]

Incêndios. 204 feridos em Pedrógão Grande e Góis

O incêndio que lavra em Góis mobilizava, às 18h00, 1.153 operacionais, de acordo com a Lusa, apoiados por 403 veículos e 14 meios aéreos, numa altura em que estavam mais de 3.100 bombeiros, 1.055 viaturas e 29 meios aéreos a combater as chamas em todo o país. De acordo com informação disponível no ‘site’ da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), existiam 38 incêndios em Portugal. Sete estavam em curso, dois em resolução, e 29 em conclusão.

Pedro Nunes, adjunto do Comando Nacional de Bombeiros, revelou que, em Góis, onde foi ativado o Plano Municipal de Emergência, permaneciam duas frentes ativas e tinham-se verificado reativações devido à subida da temperatura e ao aumento do vento. Mas a expectativa era a de “dominar o incêndio o mais rápido possível”, sendo que, disse, pelas 18h00 desta quarta-feira os níveis de humidade deviam aumentar e isso ajudaria a acalmar os fogos.

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Durante a madrugada, mais três aldeias do concelho de Góis, no distrito de Leiria, foram evacuadas pela GNR. Em Saião, Salgado e Mimosa, garantiu esta manhã fonte da GNR à Lusa, já não resta ninguém. Ao todo foram 30 as aldeias evacuadas nas últimas 24 horas naquela zona, a que se somam outras seis no concelho vizinho de Arganil. Projeções provisórias apontam para que 30 mil hectares tenham sido afetados no incêndio de Pedrógão Grande. “Não quer dizer que seja área ardida, dentro deste perímetro há muitas áreas que foram afetadas mas não vão contar como área ardida”, clarificou o comandante Vítor Vaz Pinto.

Em 2016, o incêndio que começou em Arouca, no distrito de Aveiro, e evoluiu para o concelho de S. Pedro do Sul, em Viseu, consumiu 21.910 hectares e foi aquele que registou a maior área ardida no ano passado, segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Góis. Desta vez, o inferno não chegou

Lentamente, as instituições da zona tentam regressar à normalidade. As atividades letivas foram retomadas esta quarta-feira na Sertã e, parcialmente, em Figueiró dos Vinhos. Já em Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Pampilhosa da Serra, as atividades letivas continuam suspensas, tal como em Góis, informou o Ministério da Educação.

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Sobre a origem do incêndio, o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, defendeu, em declarações no Fórum TSF, uma tese diferente daquela que tem sido veiculada. Marta Soares acredita que houve “mão criminosa”. O responsável afirmou: “Têm de me provar outra coisa, eu acho que houve mão criminosa neste incêndio. O fogo já lavrava há duas horas quando aconteceu a trovoada. Não tenho provas, mas a experiência no terreno, a minha e a dos meus homens, aponta para crime”, disse.

Na sequência destas declarações, a Polícia Judiciária decidiu chamar o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses para que forneça todos os elementos de que dispõe sobre as suspeitas de origem criminosa do incêndio de Pedrógão Grande.

A aldeia fantasma que tem medo de ser esquecida

A convicção do presidente da Liga de Bombeiros vai de encontro àquela que é a perspetiva defendida desde o segundo dia de incêndio em Pedrógão Grande. Na manhã de domingo, a Polícia Judiciária afastou qualquer cenário de mão criminosa: terá sido a trovoada seca que causou as chamas. “A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente, encontrámos a árvore que foi atingida por um raio”, informou o diretor nacional da PJ.

O Ministério Público de Figueiró dos Vinhos decidiu, na segunda-feira, abrir um inquérito criminal destinado a investigar todas as causas da tragédia do fogo em Pedrógão Grande, confirmou o Observador junto de fontes do MP e da Polícia Judiciária (PJ). Trata-se de um procedimento formal e obrigatório sempre que ocorre um óbito.

Infografia. Os números de um desastre sem precedentes

Oitenta bombeiros espanhóis chegaram nesta terça-feira a Portugal para ajudar no combate ao incêndio de Góis. Um grupo de 60 bombeiros florestais da Galiza, Espanha, foi impedido pelas autoridades portuguesas de entrar no país, contou o jornal espanhol El Correo Gallego. A ministra da Administração Interna justificou a situação com a necessidade de”garantir condições de segurança”.

Constança Urbano de Sousa afirmou que “os bombeiros têm de ser devidamente coordenados pelas autoridades nacionais de proteção civil de ambos os países, tem de ser tudo centralizado e não podemos estar aqui com voluntarismos sob pena de essas pessoas poderem colocar em risco não só a sua vida como as demais”. O grupo foi formado ao longo da noite de domingo pelo departamento de bombeiros florestais do Ministério do Meio Rural em colaboração com governo regional da Galiza e ter-se-á voluntariado para combater os incêndios na zona de Pedrógão Grande. Os bombeiros galegos estavam munidos de dois camiões cisterna de 30 mil litros.

Relatório. Depois de erros, SIRESP tinha prometido ao Governo que não ia voltar a falhar

A A13, Autoestrada do Pinhal Interior, foi encerrada ao trânsito pelas 14h25 desta terça-feira, no concelho de Penela, em Coimbra, devido à ocorrência de incêndios na zona. Além desta via, as estradas nacionais em Figueiró dos Vinhos e em Castanheira de Pêra, ambas no distrito de Leiria, permaneciam cortadas desde segunda-feira, além da interdição de estradas em Pampilhosa da Serra e em Góis, no distrito de Coimbra.

Sobre a tragédia vivida no sábado na estrada nacional 236, onde faleceram 40 pessoas encurraladas pelo fogo, algumas no interior das viaturas em que tentavam fugir, o Comando Geral da GNR considerou que a via foi atingida de forma “inesperada e assustadoramente repentina, surpreendendo todos”, vítimas e Guarda, de acordo com a Lusa. Esta é uma das posições defendidas pelos responsáveis da GNR em resposta ao pedido de esclarecimento urgente feito pelo primeiro-ministro, António Costa, que na terça-feira questionou qual a razão para não ter sido encerrada a rodovia em causa, durante a fase de expansão do incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande.

No domingo, chegaram a Portugal dois aviões Canadair provenientes de Espanha para ajudar no combate ao incêndio. Também França ofereceu o apoio de três aviões e Itália enviou dois aviões anfíbios Bombardier 415. O apoio internacional surgiu ao abrigo do Mecanismo de Proteção Civil europeu. O Governo pediu a Marrocos para disponibilizar “os meios aéreos possíveis”, revelou, nesta terça-feira, a ministra da Administração Interna e o reino enviou um Canadair.

O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, explicou na manhã de domingo que, entre os mortos, “uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo“. Foram encontrados 47 mortos dentro de viaturas ou nas margens da estrada nacional 236 (que faz a ligação ao IC8).

N236. Costa e secretário de Estado com versões diferentes

Como começou o incêndio

O fogo teve ignição cerca das 14h00 de sábado, 17 de junho, na povoação de Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, no norte do distrito de Leiria. As autoridades, desde os bombeiros aos responsáveis da Proteção Civil, coincidiram na explicação de que foram condições meteorológicas “atípicas” e que se verificaram em simultâneo, com ventos fortes e frequentes mudanças de direção, trovoadas secas, humidade escassa e temperaturas elevadas, que terão feito com que o incêndio se propagasse rapidamente.

As chamas alastraram para localidades de outros dois concelhos: Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Pelo final do dia, havia aldeias cercadas pelo fogo e isoladas, com a situação agravada por falhas no fornecimento de energia elétrica e nas comunicações. A própria Rede Nacional de Emergência e Segurança usada pelos bombeiros, INEM e polícias, conhecida como SIRESP, sofreu problemas e esteve inoperacional até ao início da noite de sábado.

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A partir das 19h00 de sábado, o descontrolo das chamas levou a GNR a proceder ao encerramento do IC8, entre o nó da zona industrial de Pedrógão Grande e o nó do Outão, uma via rodoviária situada a sul de Escalos Fundeiros, onde o incêndio se declarou.

O Governo declarou o estado de contingência e equipas da Polícia Judiciária deslocaram-se para o terreno com a missão de investigar as circunstâncias em que o fogo começou. Apesar dos meios presentes no terreno, nenhum responsável das entidades de segurança e proteção adiantou qualquer previsão sobre quando o incêndio poderia ser considerado extinto.

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A União Europeia, solidária com Portugal, acionou o Mecanismo de Proteção Civil para ajudar Portugal. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse, na segunda-feira, que o Governo iria recorrer ao Fundo Europeu de Solidariedade. O vice-presidente da Comissão Europeia Jyrki Katainen esclareceu que a União Europeia poderá comparticipar, até 95%, as despesas de reconstrução. O Governo decretou um período de luto nacional de três dias, que terminou nesta terça-feira, 20 de junho.

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