Seleção Nacional

Taça das Confederações. Hoje, todos merecíamos outro tipo de desconto

Os olhos estavam em Kazan, mas a cabeça e o coração ainda continuam por Pedrógão Grande. Portugal teve o pássaro na mão na estreia na Taça das Confederações, mas consentiu o 2-2 do México aos 90+1'.

AFP/Getty Images

Esta era uma boa tarde para Rodrigo almoçar, fazer uma sesta, estar com o tio no sofá a ver a estreia de Portugal na Taça das Confederações frente ao México enquanto fugia ao período de maior calor, agarrar no capacete para ir andar de bicicleta antes de jantar e seguir para a cama antes de mais um dia de escola. Rodrigo tinha apenas quatro anos. Rodrigo foi a primeira vítima conhecida do trágico incêndio que retirou a vida a mais de 60 pessoas em Pedrógão Grande.

De Kazan a esta vila do distrito de Leiria distam mais de 5.300 quilómetros mas não houve um minuto em que não estivessem ligadas. O futebol continua e vai continuar a ser aquele mundo mágico que consegue, por exemplo, fazer com dois adeptos tivessem viajado da Sibéria até à capital tártara apenas para ver Ronaldo ao vivo. Mas, hoje, estamos de luto. Todos. E as feições de pesar dos jogadores nacionais durante o minuto de silêncio que antecedeu o encontro mostravam isso mesmo.

Ficha de jogo

Portugal-México, 2-2

1.ª jornada do grupo A da Taça das Confederações

Kazan Arena, em Kazan (Rússia)

Árbitro: Néstor Pitana (Argentina)

Portugal: Rui Patrício; Cédric, Pepe, José Fonte, Raphäel Guerreiro; William Carvalho, João Moutinho (Adrien, 58′), André Gomes; Quaresma (André Silva, 82′), Nani (Gelson Martins, 58′) e Cristiano Ronaldo

Treinador: Fernando Santos

México: Ochoa; Salcedo (Néstor Araújo, 67′), Héctor Moreno, Diego Reyes, Layún; Jonathan Dos Santos, Herrera, Andrés Guardado; Vela (Giovanni dos Santos, 57′), Raúl Jiménez (Peralta, 79′) e Javier Hérnandez

Treinador: Juan Carlos Osório

Golos: Quaresma (34′), Javier Hernández (42′), Cédric (86′) e Moreno (90+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Adrien (68′), Andrés Guardado (73′) e André Gomes (90+2′)

O encontro começou mal para a Seleção. Desgarrado, sem qualquer dinâmica, com zero de intensidade. Ao mesmo ritmo de quem passa horas a fio a assistir pela TV ao verdadeiro inferno que dezenas e dezenas de famílias no distrito de Leiria tiveram de passar e depois, na sequência de murros no estômago de dez em dez minutos, tem de focar atenções num jogo de futebol. O México andava a pressionar mais alto, tinha outra mobilidade na frente, mas também nunca foi capaz de criar perigo. E assim passaram os primeiros 15 minutos.

Quaresma, que iniciou a partida na frente com Nani e Cristiano Ronaldo num 4x3x3 que se transformava em 4x4x2 mediante os objetivos táticos que a equipa tinha consoante o momento do jogo, fez o primeiro remate, de pé esquerdo, ao lado, antes do primeiro grande momento do encontro. E do vídeo-árbitro (21’).

Na sequência de um livre de Ronaldo contra a barreira, Portugal insistiu, o mesmo Ronaldo acertou na trave e, no meio da confusão, a bola acabou mesmo por entrar entre Pepe, Nani e André Gomes. Festejou-se mas por pouco tempo. Ou até ao momento em que o argentino Néstor Pitana recebeu a informação que Pepe, no primeiro balão de insistência de Moutinho, estava adiantado.

O lance agitou a Seleção. Acordou-a. Devolveu-lhe a fé. Relembrou-a quem é a atual campeã da Europa. E a bola começou a andar mais pelos lados da área mexicana. Quando, ao minuto 34, Cristiano Ronaldo galgou metros e metros em velocidade, travou, viu que não tinha espaço para rematar e assistiu o seu companheiro de sempre Ricardo Quaresma, o golo tinha de surgir. E surgiu. Com aquele toque malandro do ala do Besiktas, a fintar Ochoa antes do 1-0.

Portugal tinha tudo e estava com tudo. Salcedo, que se enganou na baliza, e Quaresma, que ficou a centímetros do golo, podiam ter aumentado. Mas foi mesmo o México a marcar, na sequência de um erro de Raphäel Guerreiro (não conseguiu aliviar a bola na área) que permitiu Vela assistir Javier Hernández para o empate aos 42′.

Para falar da segunda parte, recuperamos este último parágrafo e basta apenas trocar os nomes. Desta vez, o estímulo não foi propriamente um golo anulado mas sim a entrada de André Silva, que deu outro peso na área.

O agora avançado do AC Milan obrigou Ochoa a grande defesa aos 85′, mas Cédric, que tinha feito quilómetros e quilómetros pela direita, fez um derradeiro sprint para apanhar uma bola a pingar na área após jogada de Gelson Martins e, com ressalto ainda no portista Herrera, marcou o 2-1 a quatro minutos do final. O mesmo Gelson, pouco depois, atirou a rasar o poste. Mas, no primeiro minuto de descontos, um erro de marcação de José Fonte possibilitou novo empate aos mexicanos, por Moreno.

Portugal estreou-se com um empate na Taça das Confederações, algo que é até a regra e não a exceção em fases finais desde que Fernando Santos assumiu o comando da Seleção. Mas, hoje, depois de um fim-de-semana de horror que se está a viver, todos merecíamos outro tipo de desconto.

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