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Drogas

Epidemia de opioides nos EUA afeta comunidade portuguesa

A epidemia de opioides e heroína que atravessa os Estados Unidos afeta de forma grave a comunidade portuguesa de Massachusetts, garantem líderes comunitários.

Em 2015, mais de 52 mil norte-americanos morreram de overdose, 33 mil dos quais de opioides, um aumento de 23 por cento em relação ao ano anterior

ESTELA SILVA/LUSA

A epidemia de opioides e heroína que atravessa os Estados Unidos afeta de forma grave a comunidade portuguesa de Massachusetts, garantem líderes comunitários ouvidos pela Lusa. “Esta epidemia afeta muito a nossa comunidade, em cidades como New Bedford, Fall River, Tautnon. Pessoas de todas as idades, desde adolescentes até pessoas com 60 anos, e de todos os estratos sociais”, disse à Lusa Connie Mimoso, diretora de serviços na Fundação Seven Hills que presta apoio a estas populações em Massachusetts.

A diretora do Centro de Apoio ao Imigrante de New Bedford, Helena da Silva Hughes, confirma que “a epidemia de droga está a afetar a comunidade de falantes de português, assim como as outras comunidades”.

Infelizmente, devido a barreiras de língua e falta de informação sobre o assunto em português, muitos pais não se apercebem de que os filhos estão a usar drogas durante muito tempo e quando descobrem eles já estão a usar heroína”, diz Hughes.

As responsáveis descrevem um padrão que se tornou a regra em todo o país: as vítimas começam a usar medicamentos para dores muito poderosos apenas disponíveis por prescrição médica, ficam dependentes, e quando os médicos deixam de os prescrever viram-se para a heroína, mais barata.

“Comprar estes medicamentos no mercado negro pode custar entre 100 a 500 dólares por dia, tenho pacientes que estavam a gastar 500 dólares por dia. Uma dose de heroína para um dia pode ser comprado por 20 ou 30 dólares”, compara Connie Mimoso.

A especialista disse que os portugueses “ainda tentam lidar com o problema de forma muito fechada, no seio da família, e quando procuram ajuda já é em estados muito avançados da doença”.

Em 2015, mais de 52 mil norte-americanos morreram de overdose, 33 mil dos quais de opioides, um aumento de 23 por cento em relação ao ano anterior.

A maioria das mortes acontece em cidades como Baltimore e Chicago, mas a dependência tem mais expressão nos subúrbios de classe media e zonas rurais dos estados da Nova Inglaterra, que inclui Massachusetts, ou nas zonas do Appalachia e Midwest.

“Em New Beford, tivemos mais de 600 overdoses no ano passado, 42 das quais fatais. Em Fall River foram cerca de 900. Não temos dados que discriminem quantos casos aconteceram em famílias portuguesas, mas sabemos que é uma percentagem alta porque os portugueses representam uma grande parte da população nestas cidades”, explicou Connie Mimoso.

A fundação para a qual Connie trabalha, a Seven Hills Foundation, lançou recentemente um protocolo com a polícia local para ser chamada em casos de overdoses e oferecer apoio no seu seguimento.

A organização de Helena da Silva Hughes também está a lançar um grupo de apoio em português para as famílias afetadas que não falam inglês e, no mês passado, o representante estadual Tony Cabral organizou uma conferência para mostrar que existe ajuda disponível para estas pessoas.

“Depois de muitos anos, começa finalmente a ser reconhecido este problema e a ser discutido a nível político. Mas é preciso fazer muito mais. Este tipo de serviços não existe sem dinheiro e é preciso que o estado disponibilize mais verbas para um fenómeno que está a crescer”, explicou Connie Mimoso.

Entre 1991 e 2011, o número de prescrições para analgésicos quase triplicou nos EUA, e existem neste momento processos em tribunal lançados por organizações não-governamentais e procuradores de vários estados a tentar penalizar as empresas farmacêuticas por esta epidemia.

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