Fogo de Pedrógão Grande

Provedor de Santa Casa assume que passou informação errada de suicídio a Passos

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Passos Coelho visitou áreas afetadas pelo fogo de Pedrógão Grande e falou em casos de suicídio por falta de apoio psicológico. Provedor de Santa Casa assume que deu informação errada ao líder do PSD.

ESTELA SILVA/LUSA

Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, visitou esta segunda-feira algumas das áreas afetadas pelo fogo de Pedrógão Grande, onde referiu, quando estava no quartel de bombeiros de Castanheira de Pêra, ter conhecimento de pessoas que se suicidaram por falta de apoio psicológico após a tragédia que vitimou 64 pessoas. Presidente da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, João Marques, também candidato à câmara de Pedrógão Grande pelo PSD, admite agora que deu informação errada a Passos por ter sido induzido em erro por “pessoas da freguesia”.

“Naquilo que é mais fundamental no Estado, que é garantir a segurança das pessoas, o Estado falhou e estão aqui as evidências. Depois, saber se foi inevitável ou se era evitável, se há culpa a atribuir pelo falhanço e responsabilidade, isso é outra conversa. Dez dias depois, ainda está a falhar”, começou por referir Pedro Passos Coelho. “Tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, pessoas que puseram termo à vida, que em desespero se suicidaram e que não receberam o apoio psicológico que deviam. Devia haver um mecanismo para isso. Tem havido dificuldades. Ninguém me convence que não há responsabilidades. O Estado falhou e continua a falhar”, completou.

Ao que o Observador apurou, Passos Coelho terá abordado a existência de suicídios depois de, durante a manhã, ter ouvido relatos na zona de casos que chegaram a essa situação extrema, após o desespero provocado pelos incêndios e respetivas consequências. O presidente do PSD fez visitas a Avelar, a Vila Facaia e esteve em três instituições de Pedrógão Grande: a Câmara Municipal, a Santa Casa da Misericórdia e os Bombeiros Voluntários.

Ainda na mesma intervenção, uma jornalista insistiu com Passos Coelho para clarificar o que tinha dito anteriormente: “Há pouco falou num caso ou casos de suicídio entre pessoas afetadas pelos incêndios. Pode especificar melhor o que quis dizer?”. Nesse momento, alguém diz alguma coisa (impercetível nos vídeos das televisões e do próprio PSD) e Passos vira-se para o seu lado esquerdo — onde estava a deputada Teresa Morais — e questiona: “Não há confirmação?” E começa a explicar-se:

Há pouco deram-nos essa notícia, como uma notícia particular de pessoa até de família. Portanto, como deve calcular, não tive muitas dúvidas nessa indicação.”

Recuando ligeiramente no que tinha dito, Passos diz que, afinal, tem confirmação de pessoas que estão hospitalizadas na sequência de tentativas de suicídio:

Seja como for, isso eu posso testemunhar, houve muitas pessoas que eu ouvi e que me deram conta de falta de resposta, em termos de apoio psicológico, que ainda hoje se sente no terreno. E, portanto, há pessoas que estão internadas em consequência de tentativa de suicídio e que até hoje não tiveram o apoio que era devido. Haverá muitas outras situações. É preciso fazer esse balanço e essa averiguação”.

O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrogão Grande, João Marques, já assumiu, em declarações aos jornalistas que, involuntariamente, induziu Passos Coelho em erro: “Fui eu que dei ao dr. Passos Coelho uma informação errada. Julguei que a informação era fidedigna, e afinal não era. Felizmente não se confirma nenhum suicídio, ao contrário do que eu disse ao dr. Passos Coelho. Peço-lhe desculpas públicas por isso”, disse em declarações ao Expresso.

Aos microfones da TVI, João Marques reiterou o que tinha dito: “Quando o dr. Passos Coelho se quis inteirar do que estava a ser feito, eu dei-lhe essa notícia tendo-a, de fonte fidedigna, como verdadeira. Mais tarde, já por volta das 14h, 15h, não sei precisar, viemos a saber que essa notícia era felizmente falsa. Portanto, houve aqui um mal entendido do qual eu sou de alguma forma responsável e, por isso, assumo essa responsabilidade”, disse. E acrescentou que, apesar de a notícia do alegado suicídio não se ter “felizmente” confirmado, ouviu vários relatos esta manhã, em Vila Facaia, “de pessoas com comportamentos mais graves, e de pessoas que tiveram acompanhamento médico”.

Correu a informação na freguesia de que tinha havido um suicídio, quem me disse foram fessoas da freguesia e da terra onde essa pessoa estaria e onde aconteceu a desgraça que aconteceu com a sua família. Peço desculpa ao engenheiro em causa por eu próprio ter inadvertidamente dado aso à notícia”, disse.

Questionado sobre se já tinha falado com Passos Coelho para desfazer o “mal entendido”, o provedor da Santa Casa e candidato do PSD a Pedrógão Grande disse que falou apenas com o assessor. “Com ele pessoalmente ainda não falei, mas falei com o assessor e já pedi as minhas desculpas por ter induzido em erro”, sublinhou.

Nos vários contactos feitos pelo Observador, houve uma confirmação: quatro pessoas terão tentado colocar fim à vida sem sucesso, passando a partir daí a estarem devidamente identificadas e monitorizadas.

Entretanto, já há várias vozes — à esquerda — a falar no “suicídio político” de Passos Coelho e a considerar “criminosas” as suas declarações. No PS, as críticas fazem-se ouvir ao mais alto nível. Primeiro foi porta-voz do PS, João Galamba, a falar em “desespero” e “indignidade política”, depois foi a secretária-geral-adjunta, Ana Catarina Mendes, a notar que é “uma vergonha que o candidato do PSD, e também Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, se preste a este lamentável papel”. E a dizer que é “inqualificável” que um ex-primeiro-ministro “difunda um boato com esta gravidade”.

Uma vergonha que o candidato do PSD , também Provedor da Santa Casa da misericórdia de Pedrogão Grande, se preste a este…

Posted by Ana Catarina Mendes on Monday, June 26, 2017

Logo após as declarações, o deputado do PSD, Duarte Marques, dizia que é “verdade” o que Passos Coelho disse, mas admitiu que “não o teria dito em público”.

Autarcas e ARS não conhecem suicídios

As declarações do líder social-democrata, porém, não são para já confirmadas pelos presidentes das câmaras de Castanheira de Pera nem de Pedrógão Grande – que fala em “boatos”. O padre Júlio Santos, Pároco de Pedrógão Grande, Vila Facaia e Graça, que diz ao Observador desconhecer qualquer caso. O presidente da Administração Regional de Saúde do Centro assegura que não há, até hoje,”nenhum caso de suicídio com ligação” direta à zona afetada pelo incêndio.

Valdemar Alves, presidente da câmara de Pedrógão Grande, é violento a negar a existência de suicídios em declarações à RTP. Durante uma reunião do gabinete de crise com a presidente da CCDR Centro nas instalações da câmara, Valdemar Alves disse que “no gabinete de crise não há conhecimento de nenhum suicídio”. E acrescentou que são notícias não confirmadas: “Há sim é boatos, os mais diversos boatos. Peço às pessoas que não aceitem, corram com os boateiros, porque graças a Deus não há nenhuma confirmação de suicídios.”

O padre Júlio dos Santos disse ao Observador – depois das declarações de Passos Coelho – que não tinha conhecimento de qualquer caso de suicídio. “Acho muito estranho que haja algum caso que eu desconheça. Se acontecesse alguma coisa saberia”, afirmou o padre ao Observador, explicando que tem passado estes dias a visitar as aldeias.

Fernando Lopes, presidente da câmara de Castanheira de Pera, diz ao Observador que não tem conhecimento de qualquer caso de suicídios na sequência dos incêndios – “o que não quer dizer que não tenha havido”. O comandante dos bombeiros – em cujo quartel Passos Coelho fez as declarações – também desconhece qualquer suicídio no concelho depois do fogo.

Não há, até hoje, nenhum caso de suicídio com ligação a essa zona. Neste momento, não confirmo nenhum caso de suicídio”, assegurou José Tereso, líder da Administração Regional de Saúde do Centro, à agência Lusa.

Acrescente-se que, na passada terça-feira, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) informou que a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) tinha solicitado a ativação da bolsa “1.000 Psicólogos para situações de crise e catástrofe, no seguimento do incêndio e dos trágicos acontecimentos testemunhados na região de Pedrógão Grande”. Segundo soube o Observador, através dessa bolsa, que funciona como uma espécie de terceira linha de acompanhamento, foram enviados na altura 20 profissionais para a zona afetada.

O Observador contactou ainda os bombeiros para tentar verificar a existência de situações de suicídio na zona. A corporação remeteu para a GNR, dizendo que era a Guarda que estava na posse “desses números”. Por sua vez, a GNR de Pedrógão Grande recusou-se a fazer qualquer comentário sobre o assunto.

António Costa também já falou sobre o tema, mostrando cautela: “Devemos ser todos muito prudentes na produção de afirmações e naquilo que noticiamos. Muitas vezes a pressa é má conselheira. Prefiro só afirmar em função dos dados que tenho. Temos de falar com seriedade porque estamos a falar da maior tragédia humana que o país alguma vez viveu. Isso exige muita prudência e muita responsabilidade”.

As explicações por dar e a renegociação do contrato do SIRESP

Na mesma intervenção, Pedro Passos Coelho abordou também as falhas que existiram durante o fogo de Pedrógão Grande, ao mesmo tempo que admitiu as dificuldades que sentiu na renegociação do contrato do SIRESP.

“Espero que todas as explicações sobre os sistemas de proteção que foram acionados sejam dadas em primeira instância pelo governo. É importante que quem tenha responsabilidades assuma, não me vou colocar no papel de quem ocupa esse lugar, do primeiro-ministro ou da ministra da Administração Interna. Se houver alguma necessidade, por falta de documentação ou de memória, cá estarei para responder, mas não aceito que seja colocado no centro da discussão”, afirmou o líder do PSD, antes de abordar especificamente a questão do SIRESP.

“Houve falhas das comunicações. Uns podem dizer que são falhas de conceção do próprio SIRESP, mas não fui eu que adjudiquei este sistema do SIRESP”, prosseguiu, assumindo as dificuldades da renegociação desse contrato: “As avaliações foram disponibilizadas publicamente e podem ser avaliadas. Quando fizemos a renegociação do contrato, sendo uma parceria público-privada, talvez tenha sido das mais complicada porque são contratos que estão extremamente blindados e não são facilmente alteráveis pelos governos subsequentes”.

“Houve problemas evidentes de comunicações e outros também graves que aconteceram. Muitas das vítimas civis aconteceram por pânico, porque se viram isoladas, ficaram sem comunicações, sem eletricidade, sem água e acharam que a sua sorte podia ser a pior, fugiram para evitar o isolamento e algumas foram encaminhadas para uma situação que se revelou fatal”, concluiu Pedro Passos Coelho.

António Costa pede “esclarecimento cabal”

António Costa pediu esta segunda-feira o “esclarecimento cabal” do que aconteceu em Pedrógão Grande, cujo incêndio que deflagrou no passado dia 17 de junho tirou a vida a 64 pessoas. Aos jornalistas, o primeiro-ministro disse estar à espera que o IPMA responda à “questão fundamental”, que consiste em especificar o evento de natureza meteorológica em causa.

“Aguardamos que a Guarda Nacional Republicana apresente o resultado final do inquérito que já reformulou. Aguardamos, creio que hoje mesmo, que o SIRESP responda à senhora ministra da Administração Interna sobre as questões colocadas sobre o seu funcionamento”, disse António Costa aos jornalistas. O primeiro-ministro garantiu ainda que o Governo está “concentrado” em duas prioridades: por um lado a “reconstrução e a devolução da normalidade àqueles territórios” e, por outro, “o esclarecimento cabal” do que aconteceu. Costa assegurou ainda a “disponibilidade para colaborar com as entidades”.

“Não vou tirar conclusões antecipadas relativamente aos relatórios solicitados. Ninguém pode deixar de estar revoltado por termos perdido 64 pessoas”, continuou. “Todos nós estamos revoltados e temos de ser exigentes.” Costa referiu ainda que o Governo vai colaborar com a iniciativa do líder do PSD, no que respeita a criação de uma comissão técnica independente.

Quando questionado sobre a alegada falta de meios, António Costa afirmou quando “quando temos uma tragédia com a dimensão da que tivemos todos temos falta de meios”, referindo que num evento como o que está em causa “nunca há meios suficientes”. “Todos os meios disponíveis estão a ser alocados para tudo fazermos para responder da melhor maneira.”

Não entro em debate com o líder da oposição. Aquilo que os portugueses esperam é que o Governo se empenhe no esclarecimento de tudo, que contribua para a reconstrução e para a reposição da normalidade da vida daquelas populações. Neste momento não vou contribuir com polémicas. O meu dever é criar as condições para esclarecer tudo e uma total disponibilidade para, tal como o líder da oposição propôs, a Assembleia da República crie uma comissão técnica independente. Sobre polémicas, o líder da oposição fará as que entender, mas comigo não fará porque não tenho um ponto de vista a defender”, completou no Barreiro, onde esteve reunido com os presidentes das Câmaras de Barreiro, Almada e Seixal a propósito da reabilitação económica e ambiental do arco ribeirinho da margem sul do Tejo.

PGR separa inquérito pedido por Costa da investigação do MP

Joana Marques Vidal, Procuradora-Geral da República, pronunciou-se também esta segunda-feira sobre o fogo de Pedrógão Grande, fazendo questão de separar o inquérito pedido pelo primeiro-ministro, António Costa, da investigação que está a ser levada a cabo de Ministério Público no seguimento da tragédia que vitimou 64 pessoas.

“Esse inquérito pedido pelo primeiro-ministro é uma coisa à parte, uma auditoria para apurar o que se passou que não tem nada a ver com o Ministério Público. Neste caso, sempre que há mortes, é aberto um inquérito no Ministério Público, coadjuvado pela Polícia Judiciária mas contando com todas as outras entidades. É uma perspetiva distinta do outro inquérito, que é uma auditoria mais ampla”, esclareceu.

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