Livros

Três maneiras de escrever um diário

Ana Dias Ferreira escolhe a memória como tema principal para as leituras de verão. Com mais ou menos humor, mais ou menos verdade, sempre com sinceridade.

Maria Ribeiro

DR

Diário de um Zé-Ninguém
George e Weedon Grossmith
(Tinta da China)

Um homem de meia-idade resolve começar um diário para relatar o seu dia. Escreve sobre o que traz o correio, a camisa nova, o aumento no trabalho, o alpendre que precisa de ser arranjado. O que tem o seu diário de especial? Nada. Por isso se chama Diário de um Zé-Ninguém, por isso se afirmou como “o livro mais engraçado do mundo”, nas palavras de outro escritor que sabe manejar uma gargalhada (Evelyn Waugh), e por isso é o mais recente volume da coleção de literatura de humor coordenada por Ricardo Araújo Pereira. Uma sátira à classe média suburbana escrita na segunda metade do século XIX pela dupla de irmãos e humoristas George e Weedon Grossmith.

Debaixo da Pele
David Machado
(Dom Quixote)

David Machado é um contador de histórias, e desta vez brinda-nos não com uma mas com três, contadas por personagens diferentes, em diferentes épocas, com diferentes vozes. Todas acabam por se cruzar de alguma forma, numa elasticidade estilística e narrativa da qual só é capaz um escritor com músculo, e todas confluem para o mesmo tema: a violência doméstica e o trauma que fica no corpo (e não só no passado). Debaixo da Pele é uma espécie de reverso do romance anterior, sobre a felicidade e o futuro, mas continua à procura de entender aquilo que o autor encara como um super-poder que temos: a memória.

Trinta e Oito e Meio
Maria Ribeiro
(Tinta da China)

São crónicas sobre os trintas, a passagem do tempo, a maternidade mas também as camisas Comme des Garçons. Uma espécie de confissões pessoalíssimas de uma mulher que diz só saber viver intensamente, que gosta de Madonna e de “Girls”, de João Gilberto e de Roth, que perdeu o pai, que compra na Zara, que se divorciou e redescobriu o amor. Maria Ribeiro é atriz e ainda tem alguma dificuldade em dizer que é escritora sem achar que isso soa pretensioso. Neste seu livro publicado em setembro do ano passado acaba por ser, acima de tudo, malabarista: ao mesmo tempo melancólica e alegre, profunda e leve, comovente e irónica. O título remete para uma espécie de febre e é isso mesmo que Trinta e Oito Meio consegue ser.

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