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Física

Pela primeira vez, cientistas teletransportaram objeto para a órbita da Terra

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Uma equipa de investigadores conseguiram teletransportar um fotão, partícula que compõe a luz, para fora da Terra. É o mais longo teletransporte alguma vez feito. Calma: não é (ainda) o Star Trek.

Getty Images/iStockphoto

Alerta spoiler: não, o teletransporte como o imaginamos em filmes como o Star Trek ainda não é possível. Mas algo de muito promissor foi descoberto por investigadores na China: conseguiram, pela primeira vez, teletransportar um objeto para fora do planeta e colocá-lo em órbita. De acordo com o estudo publicado no site da Universidade de Cornell, essa equipa de cientistas conseguiu teletransportar um fótão, a partícula subatómica que compõe a radiação eletromagnética, para o salélite Micius, que está a 500 quilómetros da superfície da Terra. Tudo graças à física quântica.

Vamos por partes.

O teletransporte como os filmes retratam exigiria que as nossas partículas se desintegrassem e depois se reorganizassem algures no espaço. Isso não só é inalcançável tendo em conta os princípios físicos que conhecemos e a tecnologia que temos ao nosso dispor, como também levantaria uma série de questões éticas que ainda não podemos ultrapassar. Imagine um homem chamado Pedro. O Pedro está na sala em Portugal e decide ir até ao Dubai dar um mergulho na praia. Em teoria, o que a máquina de teletransporte faria era desmanchar todas as partículas que compõem o corpo do Pedro e depois montá-las de novo, como a um puzzle com as peças todas separadas, no Dubai.

A questão é que nós sabemos muito pouco sobre o nosso cérebro e sobre como é que ele constrói a nossa consciência. É possível que, ao desmanchar o corpo e reorganizá-lo noutro lugar, o Pedro original morresse e um segundo corpo nascesse no Dubai a pensar que era o Pedro. Mas a consciência do Pedro, aquilo que ele “é”, podia deixar de existir se um dia se confirmar que consciência é algo dependente da nossa organização atómica. Se assim for, então a consciência do Pedro seria destruída quando ele fosse transportado. E embora as suas partículas fossem as mesmas, a consciência podia já não ser. Muito bem, mas e se o corpo do Pedro, em vez de ser destruído e depois reconstruído, fosse apenas duplicado? Então teríamos outro problema: isso significaria que haveria dois Pedros no universo praticamente clones. Mesmo que a consciência de ambos fosse a mesma, qual seria o verdadeiro e original?

Em física quântica, o estado quântico de uma partícula é uma ferramenta matemática que permite descrever tudo o que pode ser fisicamente medido nessa partícula: posição, momento linear, energia, entre outras características.

Mas há uma forma de teletransporte que a ciência já alcançou: é o teletransporte quântico, algo que apenas conhecemos desde os anos 90. Nesse caso, o que a ciência já sabe fazer é transferir a condição quântica de uma partícula — isto é, o estado exato de um átomo ou fotão — para outra partícula que está longe (às vezes, mesmo muito longe). A partícula em si não sai do lugar, mas o seu estado é transferido para outra partícula, graças a um princípio chamado Teorema da Não-Clonagem: é impossível criar uma cópia idêntica de um estado quântico sem destruir o estado quântico original. Seria preciso destrui-lo para tirar dele toda a informação necessária para criar a cópia do estado quântico.

Algo que é feito há 20 anos. Em 1997, fez-se um teletransporte quântico entre duas partículas separadas 800 metros uma da outra, mas ambas localizadas no interior do mesmo laboratório. Em 2012, outra equipa de cientista conseguir teletransportar uma partícula a uma distância de 143 quilómetros da outra nas Ilhas Canárias, alcançando o primeiro teletransporte quântico fora do laboratório. Mas algo novo aconteceu nos investigadores na China: não só foi o primeiro teletransporte quântico feito para fora do planeta, como foi realizado com a maior distância alguma vez alcançada entre as duas partículas.

Tudo foi possível porque o fotão envolvido na experiência foi enviado para um satélite que funciona como um receptor de fotões ultrassensível chamado Micius ou Satélite para Experiência de Ciência Quântica e que, embora faça parte de um projeto internacional para análises quânticas, inclui o programa espacial chinês. O que esse satélite faz é detetar os estados quânticos de fotões enviados a partir do solo. No fundo, Micius faz uma espécie de “download” das informações quânticas transmitidas e depois transfere-as para um segundo fotão com que está relacionado. Basicamente, o segundo fotão assume a identidade do primeiro. E acontece um teletransporte.

Mas não, o próximo passo não será teletransportar nenhum objeto muito grande, seja ele tão complexo como o corpo humano ou tão simples como uma migalha de pão. É que, ressalva a equipa de cientistas no estudo, embora não haja um limite de distância de teletransporte ou de tamanho da partícula, é preciso ter em conta que a ligação que se estabelece entre as duas partículas envolvidas nessa operação é muito frágil.

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