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Crise no GES

Ricciardi admite pressões da PT e de Salgado no negócio da Oi

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Primo de Ricardo Salgado conta aos investigadores da Operação Marquês como o antigo dono do BES o empurrou para um "negócio ruinoso". E retrata a "grande intimidade" entre o banqueiro e José Sócrates.

© Hugo Amaral/Observador

A revista Sábado divulga esta quinta-feira perto de 10 horas de depoimentos no âmbito da Operação Marquês. Entre as pessoas ouvidas pelo Ministério Público está José Maria Ricciardi, Pedro Pereira Neto, Francisco Machado da Cruz (ex-contabilista do Grupo Espírito Santo) ou José Sócrates. O ex-presidente do BESI e primo de Ricardo Salgado relata episódios que envolvem o antigo homem forte do Grupo Espírito Santo, além de Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e José Sócrates “num jogo de alegadas ameaças e pressões da parte do então poderoso banqueiro que liderava o BES“, lê-se no artigo.

Numa das conversas, em 2007, Ricciardi garantiu ao procurador Rosário Teixeira que tudo apontava para que o negócio entre a PT e a brasileira Oi fosse mau, mas que alguém lhe tinha dito “ou fazes tu, o banco, ou vem alguém de fora”, e que foi assim que o BESI “acabou por estar na execução dessa operação”. O procurador pergunta-lhe depois quem é que o confrontou com esse ultimato e Ricciardi responde que foi “tanto a PT como o dr. Salgado. Quando eu comecei a dizer que aquilo era muito mau investimento, coisa que aliás acertei em cheio (…), a PT investiu à volta de 3,4 ou 3,5 biliões de euros na Oi. Passado pouco tempo, ela valia centenas de milhões de euros. Foi um investimento absolutamente ruinoso.”

Os investigadores da Operação Marquês procuravam solidificar ligações entre o BES e a Portugal Telecom (PT) que levaram à concretização de negócios em Portugal e no Brasil a partir de 2005 (por exemplo, negócios das operadoras Oi, Vivo e Telefónica). A suspeita dos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) é a de que Salgado terá corrompido José Sócrates, então primeiro-ministro, para que o socialista desse luz verde à venda da brasileira Vivo à espanhola Telefónica — numa operação que apanharia pelo caminho Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, homens fortes da administração da PT.

Segundo Ricciardi, a intervenção de Salgado na PT (onde o banco que dirigia comandava uma participação de 10% das ações) era reforçada por uma participação dissimulada na operadora de comunicações.

É preciso ver que ele [Ricardo Salgado] não representava só 10% da PT, porque o grupo Ongoing foi mais uma montagem, digamos, uma engenharia financeira para disfarçar outra participação”. Em causa, a participação de 10,5% da Ongoing na PT.

O primo de Salgado traça um cenário em que a própria administração da PT estaria na mão do dono do BES. “O dr. Henrique Granadeiro e o engenheiro Zeinal Bava iam ao BES receber instruções. Eu vi. Instruções. Absolutamente, instruções”, garantiu Ricciardi ao Rosário Teixeira, procurador responsável pelo processo, e a Paulo Silva, inspetor da Autoridade Tributária que investiga o antigo primeiro-ministro. O antigo presidente do BESI considera que Salgado está a fazer “bluff” quando mostra surpresa pela forma como o Governo usou a golden share que o Estado detinha na PT para vetar, num primeiro momento, a venda da Vivo à Telefónica.

Ricardo Salgado e José Sócrates manteriam, de resto — e de acordo com o testemunho prestado por Ricciardi ao DCIAP no início do ano, e declarações agora publicadas pela revista Sábado — uma relação próxima.

Quem tinha a relação com o engenheiro José Sócrates era o meu primo. Ele teve sempre o cuidado de dizer ‘cuidado, quem fala com o primeiro-ministro sou eu’. Eu encontrei-me com o engenheiro José Sócrates umas três ou quatro vezes”, admitiu Ricciardi.

Sócrates queria Passos no PSD. Salgado sugeriu Pinho para a Economia

A determinado momento do interrogatório que prestou como testemunha no processo, Ricciardi diz que — sendo Salgado quem falava com Sócrates — o antigo primeiro-ministro se aproximou do líder do BESI para, garante, intervir na liderança do PSD. “De mim, o Sócrates só se aproximou porque sabia que eu era amigo do Pedro Passos Coelho e ele queria muito que ele fosse para presidente do PSD porque achava que não conseguia fazer um tipo de acordos com a dra. Ferreira Leite”, conta. “Aliás, até se dirigia a ela em termos um bocado menos simpáticos”, acrescenta.

A ligação entre político e banqueiros funcionava nos dois sentidos. Ainda segundo Ricciardi, “a proximidade” (e “grande intimidade”, chega a referir) entre Sócrates e Salgado era tal que o presidente do GES “até indicou o ministro Manuel Pinho”, que seria nomeado para ministro da Economia, estando no Governo entre 2005 e 2009. “Acho que foi uma proposta do dr. Salgado. Como sabe, o Manuel Pinho trabalhava no BES.”

Mesmo assim, nos seus encontros regulares, os dois não corriam riscos. “[Salgado] disse-me, em termos jocosos, que não percebia como é que eu falava assim com o dr. Passos Coelho ao telefone, porque ele, cada vez que reunia com o engenheiro José Sócrates, os dois pegavam no seus telefones e iam pô-los fora da sala.”

Salgado “ameaçou” Passos Coelho

Foi já no final do seu interrogatório, Ricciardi reporta-se aos momentos que antecederam a queda do império GES e às pressões que Ricardo Salgado terá feito sobre o então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para que ajudasse a aliviar a pressão do Banco de Portugal sobre o Banco Espírito Santo.

“(…) Depois de nos levantarmos para eu me ir embora”, conta Ricciardi, recordando um encontro com Passos Coelho, no Palácio de S. Bento, “ele virou-se para mim e disse: ‘Você sabe que o seu familiar me anda a ameaçar?’ E eu disse: ‘Ameaçar, mas como?’ E ele, enfim, que tem aquele ar um bocado seráfico, diz-me assim: ‘Anda a ameaçar-me dizendo que se eu não o ajudar poderá dar um conjunto de revelações muito graves que farão cair aqui um membro do meu Governo‘”, terá revelado Passos.

O nome do ministro em causa não é revelado, mas Ricciardi acredita que Passos se pudesse estar a referir ao seu vice-primeiro-ministro Paulo Portas. Questionado pela Sábado, Passos negou o episódio: “Nunca fui ameaçado pelo dr. Ricardo Salgado e muito menos envolvendo qualquer referência a ministros”, referiu o social-democrata.

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