Polícia

Cova da Moura. IGAI reconstituiu detenção de jovem cabo-verdiano na rua errada

Investigação do DIAP e da PJ ao episódio de violência na Cova da Moura encontrou várias incongruências na versão apresentada pela PSP. Local e circunstâncias das detenções questionados.

A detenção de Bruno Lopes aconteceu num local e em circunstâncias diferentes às descritas pela PSP

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) foi à rua errada fazer a reconstituição da detenção de Bruno Lopes, um dos seis jovens que foram agredidos na esquadra de Alfragide. E estas não são as únicas incongruências na versão que a PSP apresentou para justificar a detenção do jovem cabo-verdiano.

A notícia é avançada pelo Diário de Notícias, que cita conclusões da investigação do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) da Amadora e da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária. Para os investigadores, a detenção de Bruno Lopes aconteceu num local e em circunstâncias diferentes às descritas pela PSP. No entanto, a IGAI usou a versão dada pelos agentes de segurança como certa para a reconstituição.

De acordo com a versão apresentada pela PSP, Bruno Lopes foi detido a 5 de fevereiro de 2015, depois de ter alegadamente arremessado uma pedra contra uma carrinha policial. As restantes detenções aconteceram quando o grupo de amigos do jovem se deslocou à esquadra de Alfragide para saberem do amigo. Terá sido nessa altura que foram violentamente agredidos com pontapés em todo o corpo, socos, bofetadas, incluindo na cabeça, pisadelas e tiros com balas de borracha.

Agentes da PSP acusados de crimes de tortura, racismo e injúria

No âmbito dos processos disciplinares que depois decorreram, a IGAI deslocou-se à Cova da Moura nove meses depois do episódio. Segundo a versão da PSP, a carrinha da polícia tinha sido atingida por pedras atiradas por um grupo de dez jovens, entre os quais Bruno Lopes, ferindo um agente.

No entanto, a investigação da PJ vem agora apontar várias incongruências à versão da PSP. Primeiro, no local que os agentes identificaram não havia pedras soltas e “era altamente improvável que alguém trouxesse pedras soltas para ali”. “É completamente inverosímil a versão do auto”, escrevem os investigadores.

A explicação é relativamente simples. “Se porventura uma pedra tivesse sido arremessada contra a viatura policial, resulta das regras da experiência que o motorista teria de imobilizá-la, o que levaria ainda alguns metros (…) e com toda a certeza que a pessoa que a tivesse arremessado não ficaria à espera que os agentes saíssem da viatura, fugiria de imediato de forma a evitar ser detido pela polícia, e não seria seguramente alcançada em 15/20 metros, como se refere no auto, tanto mais que a rua onde os factos alegadamente ocorreram era íngreme. O detido — Bruno Lopes — trata-se de um jovem de 24 anos, magro, conhecedor da arquitetura do bairro, pelo que rapidamente se colocaria em fuga e se esconderia, enquanto os agentes teriam de esperar que a viatura em que seguiam se imobilizasse e teriam de correr equipados numa ladeira íngreme, o que não lhes permitia alcançar a pessoa que tivesse arremessado a pedra ou o objeto nos 15/20 metros referidos pelos agentes denunciantes”, conclui a unidade de contraterrorismo da PJ.

Ainda de acordo com esta investigação, a versão da PSP também tem falhas em relação à forma como foi detido Bruno Lopes. Segundo a PSP, o jovem resistiu às autoridades e agrediu um agente. No entanto, a investigação judicial concluiu que Bruno Lopes “estava sozinho” junto a um café do bairro e “não fazia parte de qualquer grupo e na data e hora dos factos não estava na Avenida da República, nem sendo da sua autoria o arremesso de pedra ou do que quer que fosse à viatura policial”.

Mais: quando a viatura policial ali chegou “não apresentava qualquer vidro partido”, como confirmaram 11 testemunhas. Além disso, as manchas de sangue que resultaram da agressão a Bruno Lopes foram detetadas noutro local que não o referido nos autos.

Uma das acusadas não estava na esquadra durante agressões

Perante estes indícios, o Ministério Público deduziu acusação contra 18 agentes da PSP da esquadra de Alfragide pelos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física, agravados pelo crime de ódio e discriminação racial

No entanto, e de acordo com uma notícia da Rádio Renascença, que cita fontes policiais, a sub-comissária da PSP Ana Hipólito — incluída nesta lista de 18 acusados — não fazia parte da esquadra onde ocorreram agressões aos jovens da Cova da Moura, nem sequer esteve nas instalações no dia dos acontecimentos.

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