Dinheiro

“As mulheres tendem a ter níveis mais baixos de conhecimento de finanças do que os homens”

Flore-Anne Messy, responsável da OCDE para a educação financeira, diz que as mulheres têm "menos capacidades numéricas". Os homens têm excesso de confiança, o que os leva a tomarem muito risco.

Flore-Anne Messy, da OCDE, trabalha com o Banco de Portugal, o Ministério da Educação e o Ministério das Finanças no plano de educação financeira.

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

Para Flore-Anne Messy, a administradora principal da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) na área da educação financeira, é difícil mudar os maus hábitos na gestão das finanças, como o recurso excessivo ao crédito para pagar as contas do dia-a-dia. Por isso, o organismo internacional aposta na literacia financeira dos mais novos. Messy defende que os primeiros conceitos devem ser introduzidos ainda no ensino pré-escolar, antes dos seis anos.

O último inquérito à literacia financeira mostrou que dois em cada cinco portugueses não têm os conhecimentos financeiros mínimos. Não sabem, por exemplo, calcular um juro simples. Como se pode mudar esta realidade?
Portugal está ligeiramente acima da média da OCDE nos conhecimentos financeiros. Portanto, não é assim tão mau em Portugal. É verdade que cerca de metade da população ainda tem dificuldade com conceitos financeiros. Ainda há alguma coisa a fazer. O que promovemos na OCDE é tentar introduzir o tema da literacia financeira tão cedo quanto possível na vida dos cidadão e, se possível, nas escolas.

Em maio, na apresentação dos resultados da avaliação da literacia financeira dos estudantes, em Paris, o ministro da Educação de Portugal, Tiago Brandão Rodrigues, disse que o seu ministério está a trabalhar de perto com a OCDE. Qual é a natureza dessa colaboração?
O banco central de Portugal, bem como o Ministério da Educação e o Ministério das Finanças, estão a colaborar de perto connosco na Rede Internacional para a Educação Financeira. Trabalhamos para estudar o nível de literacia financeira globalmente, mas também em Portugal.

São os estudos de literacia financeira publicados pela OCDE?
Sim, para os adultos. Temos também o PISA [programa internacional de avaliação de estudantes], em que fazemos o mesmo tipo de inquéritos mas para estudantes. Na apresentação, o vosso Ministro da Educação indicou que Portugal participará no próximo exercício de avaliação de literacia financeira do PISA, em 2018. Procuramos as melhoras práticas no desenvolvimento da literacia financeira de adultos e jovens e tentamos apoiar alguns países na implementação dessas políticas.

Que políticas?
Desenvolver uma estratégia nacional para a educação financeira. Basicamente procuramos garantir que há um mandato para a educação financeira em pelo menos uma grande instituição. Desenvolver a coordenação entre autoridades públicas, como o banco central, o ministério das Finanças, o ministério da Educação, mas também a cooperação com o setor privado e a sociedade civil para tornar a educação financeira uma prioridade. Desenvolver o programa e encontrar os recursos para o fazer não só no curto prazo como também no longo prazo.

Um dos componentes da literacia financeira é o comportamento financeiro. Como é possível os portugueses terem um nível superior no conhecimento financeiro, mas estar abaixo da média da OCDE no comportamento?
Há uma correlação entre o conhecimento financeiro e o comportamento financeiro, mas não é pura. As pessoas podem compreender os conceitos financeiros e, ao mesmo tempo, terem dificuldade no dia-a-dia. O conhecimento é a parte cognitiva, mas muitas das nossas decisões são feitas com emoções e hábitos que temos.

Pode exemplificar?
Organizar o orçamento. Nem todos os portugueses têm um orçamento. Há enviesamentos comportamentais. O mais frequente é ter uma preferência pelo presente do que pelo futuro. Isso reflete-se num reduzido nível de poupança e na utilização do crédito para gastos comuns, como na compra de um televisor ou de um telemóvel. Em Portugal, há uma dependência do crédito que não é necessariamente para comprar bens de investimento mas para comprar produtos do dia-a-dia.

Para chegar ao fim do mês?
Sim. Muito frequentemente, o crédito é usado para chegar ao fim do mês, o que não consideramos um comportamento financeiro saudável. Os responsáveis pela política devem procurar que o conhecimento financeiro está difundido para as pessoas terem informação suficiente para tomarem as decisões certas, mas também, no caso de Portugal, devem querer trabalhar nos hábitos. É por isso que insistimos em políticas dirigidas aos jovens. Para mudar hábitos, é preciso começar muito cedo.

Quão cedo? No ensino pré-escolar?
Sim. Acreditamos antes dos seis ou sete anos. Nesta idade, não se ensina sobre dinheiro ou produtos financeiros; ensina-se sobre necessidades e desejos, presente vs. futuro. São conceitos de vida muito simples.

Os estudos da OCDE mostram que as mulheres têm uma literacia financeira mais baixa, incluindo em Portugal. Porquê?
Literacia financeira é conhecimento, comportamento e atitude. É verdade que as mulheres tendem a ter níveis mais baixos de conhecimento de finanças do que os homens. É verdade nos países da OCDE. Não é fácil de explicar. Os testes mostram que as mulheres e as jovens tendem a ter menos capacidades numéricas. Há também um problema de confiança. Quando se faz um teste que envolve alguma matemática, as mulheres tendem a dizer que não sabem mesmo quando sabem a resposta. É o contrário dos homens: tendem a ter confiança em excesso, o que pode ser problema nos investimentos, por exemplo, ao tomarem demasiado risco.

[No dia 7 de julho], um banco português lançou um sítio que aprova crédito a não clientes em 15 minutos. O dinheiro fica disponível em 24 horas. É preciso um cuidado especial com estas soluções?
É toda a questão da digitalização das finanças e do acesso fácil e rápido a uma gama de produtos financeiros. Para alguns produtos, como os de pagamentos, não é um problema. Para outros, como os de crédito, pode ser um problema, em particular se o nível de literacia financeira da população não é alto. Temos de oferecer acesso a crédito, porque as famílias precisam de crédito para algumas compras, mas ao mesmo tempo têm de ser protegidas e educadas. Os produtos devem ser regulados adequadamente e os consumidores devem ser informados sobre os riscos.

Apesar de todos os regulamentos, um em cada seis titulares de cartões de crédito em Portugal que não paga a dívida mensalmente não sabe que está a pagar juros. Os bancos devem fornecer crédito a essas pessoas?
É um problema de longo prazo. É por isso que dizemos que devemos começar cedo. Sabemos que é muito complicado mudar o comportamento de adultos, por isso podemos fazer o que o vosso banco central está a fazer, que é ter campanhas de sensibilização para informar a população, mas também ter a parte regulatória para proteger os adultos. É preciso regulamentos que definam como estes produtos podem ser publicitados, a informação que deve ser incluída ou advertências a enviar pelo banco que digam “se não pagar a dívida, terá estas consequências”. É preciso que as pessoas tenham toda a informação para tomar a decisão.

Todavia, em Paris, em maio, o ministro da Educação disse também que “há uma hiperinformação financeira que nos rodeia”. Concorda?
Mais não é necessariamente melhor. Muitas vezes, os consumidores recebem de facto muita informação que é muito complexa. O que advogamos na OCDE é informação mais simples, evitando o uso de jargão e de pequenas notas de rodapé. Garantir que os produto financeiros trazem informação em inglês simples ou português simples. Concordo que há demasiada informação que é muito complicada e não há informação suficiente que seja amiga dos consumidores.

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