Morte

A inquietante tradição dos “cemitérios no céu”

Colocar os entes queridos em cima de vigas decrépitas no meio de enormes desfiladeiros pode não ser a ideia de um funeral normal, mas na Ásia há vários exemplos.

Colocar os restos mortais em sítios altos pode ter razões de sobrevivência básica: por exemplo, libertar solo para cultivo

Os mais antigos podem ter mais de 1.500 anos e, até 2007, o ritual funerário de colocar os caixões não debaixo de terra mas, sim, a meio de grandes penhascos ainda se praticava nas Filipinas. É uma tradição que ninguém consegue explicar — ou encontrar para ela uma origem.

Nem mesmo Wong How Man, um explorador e jornalista de Hong Kong que passou as últimas três décadas da sua vida a tentar entender as razões que levaram os seus antepassados chineses a escolherem como última morada para os restos mortais dos seus familiares, lugares tão inóspitos como uma enorme falésia ou uma gruta escavada numa montanha, a 100 metros do chão.

São autênticos cemitérios suspensos por vigas, enterradas horizontalmente na rocha, ou alojados em buracos e grutas, abertos pela natureza ou pelos próprios familiares do defunto, mas sempre em locais elevados.

Os primeiros caixões que Wong vislumbrou estavam suspensos a quase 100 metros do solo, no sul da província de Sichuan, em 1985. Na altura, o explorador gravava uma reportagem no rio Iangtzé, e nunca mais se conseguiu desligar do que viu naquela falésia. “Ao princípio queria apenas saber como raio é que os caixões tinham ido parar ali, mas depois surgiram outras perguntas, muitas teorias e não conseguia deixar de passar nisso”, disse o explorador numa entrevista recente à CNN sobre as suas descobertas ao longo dos últimos 30 anos.

Os caixões não têm só uma forma, mas a maioria são feitos a partir de um único bloco de madeira, escavado no meio, por cima do qual se colocava uma tampa. Apesar de alguns destes caixões, principalmente aqueles que estão protegidos do clima dentro de grutas, apresentarem estados impressionantes de conservação, muitos também estão completamente degradados. Wong disse, também, que encontrou restos mortais de várias pessoas dentro de um só caixão, o que o levou a concluir que algumas pessoas terão sido enterradas de forma mais tradicional e depois transferidas para o “céu”.

Wong e a sua equipa têm tentado salvar estes vestígios arqueológicos enquanto ainda lhes parece possível investigar, através das roupas com que eram enterrados ou dos artefactos que eram deixados junto aos corpos, quem eram estas tribos e porque é que este ritual existiu. Na China, tal como no Ocidente, é normal enterrar, ou cremar, os mortos.

Há apenas teorias e Wong tem algumas. A literatura antiga, do tempo da dinastia Tang (610-907) sugere que pode haver uma razão “mística” para este ritual: quanto mais alto estivesse um caixão, mais importância tinha o morto e mais dor sentiam os seus descendentes pela sua partida. Mas as razões podem ser bem mais práticas: elevar os caixões impedia que os animais destruíssem os restos mortais ou libertaria terra essencial para o cultivo agrícola.

Apesar do trabalho incansável de Wong, ainda há cemitérios a serem descobertos. Em 2015, o jornal chinês People’s Daily escreveu que 131 “caixões pendurados”, assim se chamam, tinham sido encontrados na província de Hubei, no centro da China. Estavam dentro de grutas escavadas a 100 metros do solo, com mais de 50 metros de profundidade.

No artigo lê-se que os arqueologistas ainda não entenderam como é que as pessoas transportavam o caixão, o corpo e os objetos que normalmente são enterrados com as pessoas para sítios tão elevados. Wong considera possível que os caixões fossem colocados em cima das vigas a partir do topo da montanha e não carregados a partir do solo. Mas também é possível que tenham sido utilizados andaimes de bambu.

Esta prática pode ter sido iniciada pela etnia Bo, que desapareceu durante a dinastia Ming (1368-1644), perseguida e aniquilada pelas expedições das brigadas imperiais chinesas.

O investigador, que, no ano 2000, criou uma associação de proteção destes e de outros tesouros arqueológicos, acredita que os Bo se misturaram com outras comunidades que não foram perseguidas. Desta forma, a tradição foi sendo preservada. Em 2003, a National Geographic laçou um documentário em que se podem ver as tentativas da equipa de Wong em recrear uma trasladação deste tipo. Recentemente, Wong viajou até Sagada, Luzon, nas Filipinas, onde estes funerais ainda foram praticados até 2007.

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