Cinema

“Atomic Blonde-Agente Especial”: Charlize Theron gelada na Guerra Fria

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A actriz é uma agente do MI6 nesta fita de espionagem e acção passada em Berlim pouco antes da queda do Muro, muito inferior aos filmes do género que evoca. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

O título do filme classifica-a de “atómica”, mas Charlize Theron, no papel da agente do MI6 Lorraine Broughton, é mais fria do que vodka “on the rocks” num glaciar. Ela é uma lança de gelo oxigenada com forma feminina, vestida por estilistas de topo e treinada para matar num abrir e piscar de olhos, uma Bond de saias, uma Bourne tendência Dior e Prada, uma John Wick topo de gama (nem por acaso, David Leitch, o realizador de “Atomic Blonde-Agente Especial” foi “duplo” no filme homónimo com Keanu Reeves), que bate como um homem e apanha como um homem. Daí, no início da fita, ela estar a tratar as mazelas num banho de gelo que daria uma pneumonia dupla e um mês de hospitalização ao comum dos mortais, mas do qual Lorraine sai como se de uma piscina aquecida. Não fosse a cena de “lesbian chic” com a espia francesa novata interpretada por Sofia Boutella, e a “coolness” de Lorraine seria só por si um fator de arrefecimento global do clima.

[Veja o “trailer” de “Atomic Blonde-Agente Especial”]

Baseado no “comic” “The Coldest City”, o filme é contado em “flashback” e musicado com êxitos pop/rock da década de 80, dos New Order e David Bowie a Nena e Falco, e joga a cartada da nostalgia dos enredos de espiões do tempo da Guerra Fria. Depois do assassínio de um colega em Berlim Leste, Lorraine é enviada para a cidade fustigada pela invernia e ainda dividida, mas à beira de assistir à queda do Muro (a ação passa-se em Novembro de 1989, poucos dias antes do histórico acontecimento). Missão: recuperar um relógio com uma lista de agentes duplos e ajudar o chefe da estação local do MI6 (James McAvoy, a canastrar por todos os poros) a trazer para o Ocidente um homem da Stasi que a sabe de cor e decidiu mudar de campo antes que as coisas deem para o torto. Mal sai do aeroporto em Berlim, a agente tem logo que presentear com umas quantas fraturas expostas dois KGB que lhe prepararam uma armadilha e amassar um automóvel, dando o mote para o resto de “Atomic Blonde-Agente Especial”.

[Veja a entrevista com Charlize Theron]

O filme pisca sornamente o olho a 007 e procura acenar na direção de John Le Carré e Len Deighton, embora as atmosferas, o cinismo e o desencanto das personagens e as reviravoltas do argumento sejam forçadas e postiças. David Leitch, que é um realizador pé-de-chumbo, debita a vulgata dos enredos de espionagem mecanicamente e sem subtiliza, porque o que lhe interessa são as sequências de ação balético-brutalistas, de uma violência gráfica e exagerada, dando ao filme um acentuado travo sadomasoquista. Sobretudo pela forma como se deleita a mostrar Lorraine a levar pancada de meia-noite dos polícias da RDA e dos agentes da Stasi e do KGB, e a responder na mesma moeda, alvejada, macerada, a sangrar – e resistente até à inverosimilhança . Mais valia terem-lhe dado logo um uniforme de super-heroína em vez de um guarda-roupa “design”.

[Veja a entrevista com o realizador David Leitch]

Há, mesmo assim, em “Atomic Blonde-Agente Especial” três sequências dignas de nota, que parecem saídas de um filme melhor: a perseguição no cinema que exibe “Stalker”, a manifestação em que a agente e o dissidente evitam os atiradores furtivos no meio de uma súbita mancha negra de guarda-chuvas, e a perseguição de carro que acaba nas águas geladas do Spree, que não estaria deslocada numa fita de James Bond. No que respeita a tudo o resto, qualquer semelhança deste filme com os seus modelos de referência (bem) maiores, é pura coincidência.

Tal como é um equívoco tão perverso como primário sugerir ou entender que, pelo simples facto de ser espancada como se fosse um homem, e espancar homens pela medida grande, a agente personificada por Charlize Theron (que também co-produz o filme, rodado na Hungria e na Alemanha) configure um paradigma de virtude “feminista” e faça as mulheres sentirem-se com “poder” (ou “empoderadas”, na novilíngua politicamente correta). Citando Alfred Hitchcock, “It’s only a movie, Ingrid”. E no caso, fracote.

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