Cinema

“A Torre Negra”: a saga fantástica de Stephen King em versão “copy/paste”

Não é tarefa fácil adaptar ao cinema (e à televisão) a "obra máxima" do autor de "The Shining", como se pode ver por este primeiro e pouco satisfatório filme. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Stephen King é o autor de literatura de terror e fantástica mais adaptado ao cinema e à televisão do mundo. Se os livros o fizeram milionário, os direitos para a tela e o pequeno ecrã transformaram-no em multimilionário. Os resultados dessas adaptações têm variado entre o muito bom e o deplorável, mais estes do que aqueles. No primeiro caso, estão, por exemplo, filmes como “Carrie”, de Brian De Palma, “Christine, o Carro Assassino”, de John Carpenter, “The Shining”, de Stanley Kubrick, “Coisas Necessárias”, de Fraser C. Heston, “À Espera de um Milagre” e “Nevoeiro Misterioso”, ambos de Frank Darabont, bem como os “realistas” “Conta Comigo” e “Misery — O Capítulo Final”, os dois de Rob Reiner, “Os Condenados de Shawshank”, este de novo de Frank Darabont, e “Eclipse Total”, de Taylor Hackford; e telefilmes e minisséries como “A Purificação de Salem”, de Tobe Hooper, “It — Palhaço Assassino” ou “Os Tommyknockers”. Os restantes, mais vale esquecê-los quase todos.

[Veja alguns dos filmes tirados de obras de Stephen King]

Até agora, ninguém se tinha abalançado a transpor para imagens aquela que King considera ser a sua “obra máxima”: a saga “A Torre Negra”, que começou a escrever em 1982 e é composta por oito livros, o último dos quais publicado em 2012, e a que se junta uma ficção curta de 1998, num total de mais de quatro mil páginas. O complexo enredo desta bisarma literária passa-se num mundo fantástico paralelo ao nosso, o Mundo Médio, onde coabitam elementos da matéria arturiana, do “western”, do terror sobrenatural, da fantasia e da ficção científica. O seu herói é Roland Deschain, conhecido como O Pistoleiro, último membro de uma ordem semelhante às de cavalaria, mas que é figurado como um “cowboy”. Ele combate as forças malignas deste mundo, caso do Homem de Negro, um feiticeiro que domina a magia e a tecnologia, ou do demoníaco Rei Escarlate, enquanto procura proteger a Torre Negra do título, que dá ordem e segurança ao Mundo Médio, e a todos os outros mundos do universo.

[Veja o “trailer” de “A Torre Negra”]

Entre as obras e autores que Stephen King cita como influências em “A Torre Negra”, estão Tolkien e “O Senhor dos Anéis”, o poema “Childe Roland to the Dark Tower Came”, de Robert Browning, as lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda ou a personagem de Clint Eastwood na trilogia de “westerns spaghetti” de Sergio Leone, este para a personagem do Pistoleiro. Desde 2007 que Hollywood tenta dar forma cinematográfica a “The Dark Tower”, pela mão de uma série de realizadores (J.J. Abrams, Ron Howard), argumentistas e grandes estúdios, com os mais variados atores envolvidos, de Viggo Mortensen a Russell Crowe e Javier Bardem, e em formatos que vão desde uma longa-metragem para cada livro da série, a uma versão que se divide entre vários filmes de cinema e uma minissérie de televisão.

[Veja a entrevista com o realizador Nicolaj Arcel]

Foi esta que vingou e o filme “A Torre Negra”, realizado pelo dinamarquês Nicolaj Arcel (que também molhou o bico no argumento) , dá o pontapé de saída de uma “franchise” que se vai dividir entre o cinema e a televisão, e que vai ter a difícil tarefa de, por um lado, agradar aos leitores de Stephen King que conhecem a saga de trás para à frente, e àqueles que nunca leram uma palavra dela e estão totalmente fora do seu universo. A fita vai buscar elementos e personagens a vários dos oito livros e quer também funcionar como uma continuação da série, mas o que nos é apresentado é muito pouco satisfatório. Se esta epopeia fantástica de Stephen King é já em si um compósito menor e em segunda mão de obras superiores, mais elaboradas e mais originais (o forte do autor é mesmo o terror, sobrenatural ou “realista”), o filme de Arcel revela-se uma síntese radical feita em estilo “copy/paste”, despachada à pressa (dura pouco mais de 90 minutos) e desengonçada, que tropeça nos próprios pés na tentativa de nos introduzir a este universo mágico.

[Veja as entrevistas com Idris Elba e Matthew McConaughey]

Como o mostram os números de bilheteira nos EUA, os fãs da saga como os neófitos torceram os respectivos narizes a “A Torre Negra”, que ainda por cima, e em nome da ditadura dos estudos etários de audiências que Hollywood segue como se fossem palavra divina, dá mais tempo de antena e mais importância à personagem do jovem Jake (Tom Taylor) do que à do Pistoleiro de Idris Elba, praticamente transformado numa figura secundária (Matthew McConaughey, no Homem de Negro, limita-se a ser adequadamente sinistro numa personagem que não lhe dá mais nada que trabalhar). O filme tem uma série de piscadelas de olho aos fãs de King, e dois ou três momentos visualmente conseguidos (o duelo entre as balas dos Colts do Pistoleiro e os passes de mágica do Homem de Negro sobressai), mas diluem-se na bagunça geral e na abordagem mata-cavalos que lhe foi imposta.

Arcel e companhia tentaram dar um passo muito maior do que a perna, o que é fatal nestas adaptações cinematográficas de universos literários fantásticos com muita densidade narrativa, muitas personagens e muitas referências. Vai ser precisa muita magia para tirar “A Torre Negra” do atoleiro em que se meteu logo no arranque.

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