Volta a Espanha

Marcou uma Hera(s) na Vuelta, fez-se empresário, agarrou numa BTT e hoje corre nas montanhas

Roberto Heras teve de lutar anos a fio em tribunal, mas conseguiu manter a vitória na Vuelta que lhe tinha sido retirada em 2005 e é o mais vencedor de sempre da corrida que arranca este sábado.

Roberto Heras venceu a Vuelta em 2000 pela Kelme, em 2003 e 2004 pela US Postal e em 2005 pela Liberty

AFP/Getty Images

Foram dez anos como sénior, oito como profissional. Roberto Heras chegou a 2005 como um dos corredores de topo do pelotão nacional, vencendo a quarta Vuelta (terceira consecutiva) pela Liberty Seguros, depois das passagens pela Kelme e pela US Postal de Lance Armstrong. De repente, o seu mundo caiu: teria acusado positivo num controlo feito na penúltima etapa da Volta a Espanha. Bateu no fundo, levantou-se, ganhou a mais dura corrida nos tribunais e hoje dá a volta ao mundo a correr ou com uma BTT. Ainda e mais uma vez, a ganhar.

Após a análise positiva, o espanhol que tinha na altura 31 anos foi suspenso por dois anos, ficou sem o triunfo nessa edição (atribuída então a Menchov), mas sempre destacou a sua inocência no caso, alegando que teria havido um erro no laboratório que fez o despiste do teste. “Mais importante do que os castigos é o meu crédito pessoal e profissional”, advogou.

Seguiu-se a mega Operação Puerto em Espanha, onde foi envolvido por Manolo Sainz, então diretor da Liberty, como um dos corredores que tinha pedido ajuda ao médico Eufemiano Fuentes, figura principal de todo o processo. Heras voltou a negar essa acusação e exigiu provas que sustentassem essa ideia. E mais tarde ainda viu o seu nome arrolado no processo contra a US Postal de Lance Armstrong, por ter passado pela equipa do norte-americano que colocou em marcha “o programa de doping mais sofisticado da história”, segundo foi na altura descrito.

Em 2007, quando acabou o castigo, tinha alguns convites para voltar mas acabou por encerrar a carreira. “Queria regressar mas não estava disposto a que fizessem um aproveitamento da situação. É impossível continuar nas condições que pretendia, mas como está o ciclismo é o melhor para mim. A modalidade está em guerra, não existe união e assim será muito complicado sair desta crise”, sustentou.

Em paralelo, o espanhol continuava à espera da segunda análise ao teste positivo. Mais de dois anos depois. “E a primeira deram-me logo no dia seguinte”, lamentava. Por isso, manteve a luta pela sua imagem nos tribunais. E ganhou: em 2011, o Tribunal Superior de Justiça de Castela e Leão anulou a suspensão de dois anos que lhe tinha sido imposta; no final do ano seguinte, o Tribunal Supremo de Justiça confirmou essa nulidade do castigo devido a uma série de irregularidades antes, durante e depois do controlo, recuperando também a quarta vitória na Vuelta que lhe tinha sido retirada. Em maio deste ano, viu também ser homologada a indemnização de 724 mil euros por parte do Estado por todos os danos causados.

Nascido em Salamanca, Roberto Heras começou por jogar futebol e praticar atletismo antes de se virar para o ciclismo, depois de receber uma bicicleta do pai com 13 anos. E esse gosto manteve-se em versão dupla… mas de outra forma: além de ser empresário, com um negócio de programas especializados de treino para os ciclistas e vários projetos solidários para auxiliar crianças em risco de exclusão social, virou-se para o BTT e percorreu vários países do mundo em provas.

“Estive dois anos sem fazer nada quando estava suspenso. No início acabamos por não ligar muito à competição porque deixámos de correr, agora vejo sempre o Tour e a Vuelta. Hoje tenho uma vida diferente, ganhei tempo para a família. Já não levo a minha família para o Tour e depois nem conseguia tomar um café com eles”, contou ao El Mundo, antes de explicar o nascimento desse novo gosto desportivo… quando estava a esquiar com um amigo: “Nem sabia o que era isso do Titan Dessert”, Ganhou por quatro ocasiões e só não volta porque, estando a viver em Barcelona, tem dificuldade em preparar o trânsito por causa do trânsito caótico.

Entre 2008 e 2013, agarrou na sua BTT e andou por países como Moldávia, África do Sul, Estados Unidos, Mongólia e Costa Rica em provas e com a família. Até que de repente deixou a bicicleta de parte e começou a correr. “Sempre adorei correr na montanha, era a única coisa que gostava de fazer e que não tinha tempo quando era ciclista profissional”, explicou. Contou com a influência dos irmãos, Miguel e Javier, e já chegou a ganhar provas de trail running com 40 quilómetros. “Vou fazendo as corridas que me apetece, percebendo para quais tenho condições”, salienta.

A Vuelta que arranca este sábado marcará o final da carreira de Alberto Contador (é um dos favoritos, a par de Chris Froome, Vincenzo Nibali, Fabio Aru ou Romain Bardet), que começou já a preparar o futuro com uma equipa de ciclismo de Sub-23 e juniores. E Heras pode ser um bom exemplo de como um desportista vencedor se pode reinventar.

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