Nostalgia

10 tesourinhos da produção infantil da RTP

Nas décadas de 80 e 90 do século passado, a RTP produziu vários programas infantis com efeitos e cenários arcaicos, mas com muita imaginação. Recorde connosco algumas pérolas desse tempo.

"Ícaro" foi porventura a série infantil mais alucinada que a RTP exibiu.

Blogue Enciclopédia de Cromos

Autor
  • Tiago Tavares
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Quando amigos nostálgicos começam a desfiar memórias do que viam na televisão da sua infância, geralmente não passam de uma primeira camada que abrange as músicas da Rua Sésamo, os genéricos do Tom Sawyer ou do Dartacão, o assobio estival de Verão Azul e as canções do Vitinho. A viagem ao passado que hoje propomos escava um pouco mais fundo (como as toupeiras do Bocas), para lembrar alguns programas infantis de produção nacional com que a RTP nos brindou nas décadas de 1980 e 1990.

Antes de existirem as televisões privadas, quando muito poucos tinham acesso a maior variedade via parabólica, a programação infantil da RTP agrupava-se em grandes blocos, nas manhãs de fim de semana e na hora do lanche dos dias úteis. Nesse tempo dedicado aos mais novos, além dos desenhos animados estrangeiros, havia espaço para experimentar formatos próprios, de autores como José Fanha e Carlos Alberto Moniz. O caráter pedagógico e a liberdade criativa sobrepunham-se ao ritmo, invariavelmente lento — não havia concorrência ao segundo pela atenção dos petizes — , aos adereços que pareciam saídos de uma aula de Trabalhos Manuais, e aos efeitos especiais quase inexistentes. Surgiram nesta fase novos atores e apresentadores inexperientes, como José Wallenstein ou Carlos Ribeiro, e fomentou-se a interatividade com os pequenos espectadores.

Aqui fica a nossa seleção de programas nacionais de ficção e entretenimento que marcaram a pequenada deste tempo.

Cláudio e Carolina (1983-84)

“Cláudio, Cláudio, Carolina”, assim começava o genérico desta série de fantoches e marionetas que ensinava às crianças os instrumentos musicais, as cores ou o corpo humano. Tudo polvilhado de música tradicional portuguesa, ou não fosse Cláudio um bombo e Carolina uma guitarra. A autora da série era Isabel Andrea, psicóloga e diretora da companhia de teatro de fantoches Lanterna Mágica.

Jornalinho (1984-87)

Também da Lanterna Mágica eram os bonecos Horácio e Elias, membros da redação do Jornalinho, programa pioneiro a apresentar notícias trocadas por miúdos (anos mais tarde, o Caderno Diário seguiria a mesma lógica). António Santos foi o mentor e apresentador principal deste telejornal, em que as próprias crianças enviavam as notícias do que se passava na sua escola ou no seu bairro — o programa chegava a receber cinco a sete mil cartas por semana. Da equipa inicial de apresentadores faziam parte Carlos Ribeiro, Manuela de Sousa Rama e Jorge Passarinho. Os diálogos entre os bonecos eram escritos por Alice Vieira.

A Árvore dos Patafúrdios (1985)

Numa grande árvore vivia uma família de pássaros muito especial, os “patafúrdios”, que eram visitados pelo caixeiro-viajante Tomé. Os textos eram escritos por Sérgio Godinho, que também cantava o genérico dos 11 episódios, disponíveis nos Arquivos RTP. Mais conhecida ficou a frase “por incrível que pareça, não há nada que não nos aconteça”. No ano seguinte, a mesma equipa liderada por João Paulo Seara Cardoso produziria a mítica série “Os Amigos de Gaspar”.

Zarabadim (1985)

Dois meninos descobrem um mundo de fantasia no fundo do chapéu de um mágico. Este é o pano de fundo de “Zarabadim”, uma série com muitos pozinhos de perlimpimpim, saída da pena de José e Dulce Fanha, com canções de Carlos Alberto Moniz e um elenco de luxo, como José Wallenstein, António Feio e São José Lapa.

Sebastião Come Tudo (1986)

Muito antes de se tornar campeão de audiências nas manhãs televisivas, Manuel Luís Goucha distinguiu-se com programas de culinária dirigidos aos mais pequenos. “Sebastião Come Tudo” foi o segundo, depois de “Gostosuras e Travessuras”, em 1984. Goucha contracenava com o boneco Sebastião e ensinava um grupo de crianças a confecionar um prato que era encarnado, em cada programa, por um ator convidado (no vídeo abaixo, Miguel Guilherme faz de papo de anjo).

Clube Amigos Disney (1986-89)

As tardes de domingo eram uma festa, graças a Júlio Isidro e Manuela Sousa Rama, os apresentadores deste Clube que tinha direito a cartão de sócio e tudo. Com a poderosa marca Disney por trás, o programa misturava desenhos animados com animação em estúdio, onde tudo podia acontecer, desde convidados musicais a campeonatos de ioiô, passando pelos passatempos, como aquele que levou 200 crianças à Disneylândia de Orlando em 87. Entre o final do Clube Amigos Disney e o Telejornal, qual cereja no topo do bolo, vinham as nossas séries de eleição: “O Justiceiro” ou “MacGyver”.

O Duende Verde (1988)

Gravado na Estufa Fria, em Lisboa, parecia um bocadinho uma peça de teatro da escola, tal era o amadorismo dos protagonistas. O objetivo didático da série era ensinar jogos tradicionais às crianças, e os duendes (protagonizados por pequenos atores) andavam pelas escolas a ver os meninos brincar. Se não se lembra, pode espreitar a série completa nos Arquivos RTP.

Professor Turbo Lento (1988)

Mais uma série pedagógica, que dava umas noções de ciência. O protagonista era o Professor Pardelhas (António Semedo), coadjuvado pela Calpúrnia e pelo robô XPTO, primo afastado do Homem de Lata do Feiticeiro de Oz.

Vitaminas (1991)

Este programa com cenários psicadélicos, apresentado por Carlos Alberto Vidal (em versão Avô Cantigas à paisana) e Sofia Sá da Bandeira, era uma mistura de concurso de cultura geral para crianças com sketches de humor, além das canções sobre animais que viriam a ser compiladas em disco. O momento alto eram as interrupções de Félix Fracasso (António Cordeiro).

Ícaro (1991-92)

“Ícaro” é difícil de definir. Era um produto alternativo, sem dúvida. Tinha as jovens Alexandra Lencastre e Julie Sargent. Tinha Michel, o mestre do sapateado. Tinha um visual vanguardista para a época, ao mesmo tempo que pegava em histórias e brinquedos tradicionais. E tinha este boneco sinistro no genérico:

Hugo (1997-2000)

Já apareceu na era das privadas, mas merece aqui referência por ter inaugurado uma nova fase de interatividade — pelo menos na altura, parecia-nos uma coisa muito sofisticada. Os concorrentes do passatempo eram crianças que manipulavam em casa, com as teclas do seu telefone fixo, os passos do simpático duende Hugo, num jogo de computador muito básico. A ação não era estimulante, mas o concurso durou quatro temporadas. Ficaram na memória as frases do boneco: “Continua lentinho e vais de carrinho” ou “É tramado, mas este jogo está acabado”.

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