Crítica de Livros

O ABC da revolução russa

205

José Milhazes escreve sobre um livro que é "uma análise muito lúcida de um dos mais importantes acontecimentos do século XX, que continua a ter repercussões nos nossos dias".

Getty Images

Autor
  • José Milhazes

Título: “A Revolução Russa”
Assinatura: Sheila Fitzpatrick
Edição: Tinta da China

O livro da historiadora australiana Sheila Fitzpatrick, A Revolução Russa, é daquelas obras indispensáveis para os que estão pouco familiarizados com a História da Rússia, mas pretendem compreender fenómenos importantes como o golpe de Estado comunista de 1917, ocorrido há precisamente cem anos.

Numa linguagem extremamente simples e acessível a qualquer leitor, a historiadora começa por expor e analisar as causas da razão que levou a Rússia a tornar-se palco da primeira experiência de “construção do comunismo”, contra as previsões do criador do “socialismo científico”: Karl Marx, que previa a sua realização em países capitalistas desenvolvidos.

A académica começa por nos dar uma imagem do país na segunda metade do século XIX, do processo de crescimento da indústria russa em contraste com o atraso do campo; as tentativas de reformas de primeiros-ministros como Witte e, depois Stolypin; as acesas discussões ideológicas sobre o futuro da sociedade russa: entre eslavófilos e ocidentalistas, entre populistas. Liberais e socialistas, entre as várias correntes socialistas. Sem esta introdução, seria impossível compreender o fenómeno em análise.

Sempre numa escrita corrida, mas bem documentada, a historiadora acompanha o aparecimento e a evolução política de personagens fulcrais da futura revolução: Lenine, Trotsky e Estaline.

O reinado desastroso de Nicolau II é outro do alvo de atenção da investigadora, concentrando a sua atenção em momentos críticos como a guerra russo-japonesa (1904-1905), esmagamento da revolução de 1905 e a participação da Rússia na primeira guerra mundial (1914-1918).

Após a renúncia do último czar, o poder passa para as mãos de um Governo Provisório que não conseguiu responder aos novos desafios. Deixou a resposta para depois da eleição da Assembleia Constituinte, que deveria decidir se a Rússia continuaria a ser uma monarquia ou uma república, a reforma agrária, a questão operária e a atitude a tomar face à participação do país na guerra mundial. Essa assembleia acabou por ser eleita em 1918, mas foi imediatamente dissolvida pelos bolcheviques, pois sofreram uma forte derrota no escrutínio.

O novo poder provisório desprezou a capacidade organizativa do partido dirigido por Lenine, político que muitos consideravam um “louco utópico”. A tal ponto que não tomou medidas para travar a tomada do poder pelos bolcheviques.

Na luta pelo poder, a autora sublinha a importância dos sovietes como espécie de “poder popular paralelo” que, cada vez mais infiltrados pelos bolcheviques e perante a passividade do Governo Provisório, serve de plataforma para tomar o poder pelos primeiros. Mais à frente, Sheila Fitzpatrick reflecte sobre a burocratização dos sovietes e a sua transformação em simples apêndices do partido bolchevique. Este processo é acompanhado do domínio total do aparelho de Estado pela mesma força política, transformando a “ditadura do proletariado”, proclamada pelos comunistas, na ditadura da burocracia vermelha.

A solidificação do poder dos novos tiranos passou pela liquidação de todo o tipo de oposição: inicialmente foram os “partidos burgueses”, depois os vários partidos de esquerda e socialista e, finalmente, dentro do próprio partido bolchevique. Lenine começou e Estaline continuou. No X Congresso do Partido Comunista, o primeiro propôs a proibição de qualquer grupo ou facção no interior dessa organização e o segundo realizou-a na prática com sucessivas purgas e ondas repressivas.

A estudiosa australiana debruça-se também sobre o estudo das diversas fases económicas que acompanharam a imposição do novo autoritarismo na Rússia: “Comunismo de Guerra”, “Nova Política Económica” e “Planos Quinquenais”, prestando particular atenção à atitude do poder face às formas de organização agrícola e da indústria.

Merece especial atenção o capítulo dedicado à “Revolução Cultural”, que, segundo a autora, “foi lançada pela facção que apoiava Estaline na Primavera de 1928. Se tivermos em conta o ambiente cultural existente após o golpe de Estado comunista de 1917, seria melhor falar de “contra-revolução cultural” estalinista, pois tratou-se de uma campanha que visou impor uma corrente única de criação artística: o realismo socialista.

Contradições gritantes são sublinhadas pela historiadora em áreas como o papel da mulher na sociedade, o aborto ou a homossexualidade. Depois de uma fase de grandes alterações, praticamente tudo voltou ao mesmo.

“Apesar das suas reservas em relação à liberdade sexual, os bolcheviques legalizaram o aborto e o divórcio pouco depois da Revolução e apoiaram vigorosamente o direito da mulher ao trabalho, sendo, por isso, considerados inimigos da família e dos valores morais tradicionais” – escreve Sheila Fitzpatrick, e continua:

Na década de 1930, a maternidade e as virtudes da vida familiar foram reabilitadas, algo que pode ser interpretado como uma manobra reacionária… As alianças de ouro voltaram a estar disponíveis nas lojas, o casamento civil [aqui há um erro claro de tradução, pois trata-se de ‘união de facto’] deixou de ser reconhecido na lei, obter o divórcio passou a ser mais difícil… O aborto foi ilegalizado… e a homossexualidade masculina foi criminalizada sem que tal fosse anunciado publicamente”.

A nova elite soviética mergulhava no luxo, em contraste com o ascetismo pregado por alguns dirigentes. Resumindo, a actual extrema-esquerda não passaria, nessa época, de mais um “bando de perigosos extremistas” que acabaria nas masmorras estalinistas.

Sheila Fitzpatrick tira diversas conclusões, com as quais se pode concordar ou não, mas isso deixo ao critério dos leitores. Da minha parte, apenas discordo com o limite cronológico por ela defendida. Para a historiadora, a Revolução Russa termina no “Grande Terror” de 1937-38, deixando de fora momentos não menos trágicos da História da URSS como, por exemplo, a continuação do “Grande Terror” até à morte de José Estaline em Março de 1953 ou a Segunda Guerra Mundial (1941-1945). E porque não considerar o fim da União Soviética e a desintegração do “campo socialista” (1989-1991) o final dessa experiência revolucionária falhada?

Aliás, outra das insuficiências deste livro é a pouca atenção dada ao palco internacional em que esta revolução eclodiu e se desenvolveu.

Todavia, sublinho, trata-se de uma análise muito lúcida de um dos mais importantes acontecimentos do século XX, que continua a ter repercussões nos nossos dias. Se a História ensina alguma coisa, então a leitura deste livro é indispensável.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site