Cinema

Roger Corman: “O meu inconsciente leva-me para o terror”

Produtor e realizador prolífico, incansável e determinante. Roger Corman vem ao MOTELX para falar sobre os seus filmes, ficção científica e terror.
 Entrevistámos o mestre.

Roger Corman é um dos convidados de honra do MOTELX

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Autor
  • André Almeida Santos
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Roger Corman já está em Lisboa como parte do elenco da 11º edição do MOTELX, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que arranca esta terça-feira às 21:30 no São Jorge. É um dos convidados de luxo desta edição. Ele e Alejandro Jodorowsky compõem a habitual homenagem que é feita pelo festival a grandes mestres do horror, na secção “Culto dos Mestres Vivos”.

Produtor, realizador, ator, argumentista, entre outros ofícios na indústria cinematográfica desde a década de 1950, Roger Corman, nos seus 91 anos, tem uma visão muito real sobre o cinema, a sua história e futuro. É conhecido pelos seus filmes de baixo orçamento, a sua atitude enquanto realizador e produtor foi essencial para o desenvolvimento do cinema independente norte-americano, mas também para a imagética da contracultura dos anos 1960. Criou bases e fundações para os géneros de terror e ficção científica e mantém uma energia fantástica e uma atitude lúcida em relação ao presente e futuro destes géneros e das indústrias de cinema e televisão. Quarta-feira dará uma masterclass às 19h na Sala 2 do São Jorge e às 21h25 na Sala 3 apresentará um dos seus dois filmes em exibição no festival, “O Homem com Raios X nos Olhos”. O outro, “A Máscara da Morte Vermelha” será exibido dia 7, quinta-feira, às 21:30 no Teatro Tivoli BBVA.

Um dos filmes que Roger Corman vem apresentar é “O Homem com Raios-X nos Olhos”

Quando começou a trabalhar na indústria cinematográfica tinha ambições de se tornar num realizador e produtor?
Na altura não tinha a certeza. O meu curso universitário foi em engenharia e não sabia assim tanto sobre a produção de filmes. Penso que, no início, estava com esperança de me tornar argumentista.

Que foi um dos seus primeiros passos na indústria.
Sim, mas comecei como um mensageiro. Não fui muito bom aluno no curso de engenharia na Universidade de Stanford, por isso o único trabalho que consegui no cinema foi esse.

Depois começou a produzir e a realizar vários filmes de géneros bastante distintos. Essa versatilidade surgiu-lhe naturalmente?
Sim. Adoro o processo de fazer filmes e gosto de trabalhar em géneros diferentes. Não gosto de trabalhar num só género, gosto de me mover entre eles. Mantém-me fresco e impede-me, espero, de me repetir. Embora volte com frequência à ficção científica e ao terror.

Porque gosta mais?
Talvez o meu passado na engenharia e na ciência me leve à ficção científica. E provavelmente o meu inconsciente leva-me para o terror.

Durante os anos 1960 teve contratos com a United Artists e a Columbia, colocando uma espécie de intervalo no seu percurso independente. O que o levou a fazer isso?
Com a United Artists fiz diversos filmes. Fiz filmes de guerra, o primeiro foi “A Invasão Secreta” (1964) que filmei na antiga Jugoslávia e depois fiz outro filme de guerra, em volta da Primeira Guerra Mundial, com aviões, “O Barão Vermelho” (1971), sobre o Barão von Richthofen e Roy Brown, o mecânico canadiano, que o abateu. Vejo esse filme como uma expressão do simbolismo da guerra desde o conceito de cavalaria e o estado de guerra para o homicídio involuntário.

E foi complicado trabalhar com esses estúdios?
Não, foi apenas difícil trabalhar na Jugoslávia porque a Guerra Fria ainda estava a decorrer e havia complicações por lá. Contudo, as filmagens, apesar dos problemas, correram bem. No segundo filme usei aviões que foram construídos para outro filme, “Ambição de Glória” (1966), houve alguma dificuldade em transformá-los para o meu filme. Mas no geral, correu tudo bem.

Roger Corman durante a rodagem de “Frankenstein Unbound” © Divulgação

Após ter visto “The Trip” (“Os Hippies” na versão portuguesa) pela primeira vez li algures que não gostou da versão final. Ainda tem essa opinião? Pergunto isto porque o filme é importante para a representação no cinema da cultura hippie e psicadélica da década de 1960.
Algumas das sequências que eu achava que eram as melhores do filme foram cortadas. Eram uma tentativa de usar diversas lentes, filtros, efeitos especiais, os efeitos possíveis na altura, para proporcionar uma experiência de tomar LSD: sabendo que nunca a poderia reproduzir. E havia alguma nudez nessas sequências, embora a nudez estivesse escondida pelos efeitos especiais que estavam por cima. Eu ainda acho que essas eram as melhores cenas do filme e foram cortadas da versão final. E interrompeu a fluência e o movimento do filme e excluiu por completo os seus momentos mais entusiasmantes.

O que o levou a terminar a sua carreira de realizador e dedicar-se à produção?
Isso foi em 1970, quando estava a filmar “O Barão Vermelho”. Fiquei cansado. Todas as semanas ia para o aeroporto, onde estávamos a trabalhar, e no caminho para o aeroporto sentia-me tentado em virar o volante e ir para a praia e ficar por lá. Mas todos os dias fui para o aeroporto. Fiquei simplesmente exausto, realizei, penso, 59 filmes em 15 anos, e andava a trabalhar demasiado. E decidi parar durante um ano. Tinha ainda um filme para fazer para a United Artists até ao final do ano. Mas durante esse ano, fiquei aborrecido e comecei uma produtora e distribuidora, a New World, que teve um sucesso imediato. E não tive vontade de voltar à realização.

Quando começou a New World já tinha intenção de distribuir filmes estrangeiros?
Isso veio depois. Começámos por distribuir filmes norte-americanos de baixo orçamento que nós próprios fazíamos e outros filmes norte-americanos realizados por amigos nossos. Tivemos imenso sucesso. Sempre gostei dos filmes de Ingmar Bergman, Federico Fellini, Akira Kurosawa, François Truffaut e muitos outros. E quando o filme do Bergman ficou disponível [“Lágrimas e Suspiros” (1972], licitei-o e ganhei. Sentia que muitos filmes não estavam a ter a distribuição que mereciam nos Estados Unidos. E tornámo-nos, naquela altura, a mais importante distribuidora independente nos Estados Unidos.

Como vê os géneros de ficção científica e de terror nas últimas duas décadas?
Atualmente é muito difícil, pelo menos nos Estados Unidos, mas penso que isto é verdade também no resto do mundo, para um filme de baixo orçamento conseguir ter uma distribuição a nível nacional nos Estados Unidos. Quando comecei nesta indústria, qualquer filme, desde que fosse pelo menos decente, tinha um lançamento a nível nacional. Hoje em dia, estes filmes de 100/200 milhões de dólares dominam o box office, o que torna difícil filmes de baixo orçamento existirem. Penso que atinge mais a ficção científica do que o terror, porque de vez em quando, vemos um filme de terror de baixo orçamento a ter sucesso no box office. Mas é muito difícil para um de ficção científica, porque os efeitos especiais são tão bons nos filmes de grande orçamento que é quase impossível competir com isso.

O filme “A Máscara da Morte Vermelha” será exibido dia 7, quinta-feira, às 21:30 no Teatro Tivoli BBVA

E existe algum realizador na atualidade por quem tenha particular interesse?
Não diria um realizador, mas o Jason Blum, que fundou a produtora Blumhouse, é um produtor jovem que está a fazer o que eu fazia na New World. Trabalha com uma série de realizadores jovens e tem tido muito sucesso dentro do género de terror.

E o que acha de filmes como “The Conjuring – A Evocação” e de realizadores como James Wan?
Acho que são muito bons. Os originais são muito bons. Há uma tendência agora, que não existia, para fazer sequelas. E penso que as sequelas tendem a repetir-se. Por isso, quase que tens de separar o original, que era bom, da sequela, que é uma tentativa de repetir o sucesso do primeiro.

Tem trabalhado com televisão nos últimos anos. A televisão tem desempenhado um papel importante no género de terror?
Tenho trabalhado com o Syfy Channel. O último filme que produzi foi o “Death Race 2050”, que é um filme de ficção científica, que é uma sequela do meu filme, “Corrida da Morte no Ano 2000”, 50 anos mais à frente. Está no Netflix. Penso que existem oportunidades na televisão, principalmente na Netflix, HBO, Hulu, e outros semelhantes, bem como nos canais tradicionais, para este género de cinema. Criam condições e oportunidades que funcionam melhor do que no cinema na atualidade.

E vai continuar a trabalhar com televisão?
Vou continuar a trabalhar onde me for possível. Com a minha idade, não podes escolher tanto quanto escolhias no princípio. E as oportunidades para filmes de médio e baixo orçamento são menores. Neste momento estou a trabalhar um filme de ficção científica para a China, para uma companhia chamada iQIYI, que é o equivalente chinês da Netflix.

E o que podemos esperar da sua conversa na quarta-feira?
Provavelmente vou falar sobre a história dos filmes, e dos seus géneros, em particular de terror e ficção científica, e depois abordar qual a sua situação agora e para onde eu acho que irá no futuro.

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