O comissário da exposição de Miró que começa esta semana em Lisboa não gosta das molduras dos quadros – as mesmas que já lá estavam quando o Banco Português de Negócios (BPN) era dono das obras, antes de ficarem na posse do Ministério das Finanças. No fim de uma entrevista ao Observador, na quarta-feira à tarde, Robert Lubar Messeri confessou que certas molduras até estão bem, mas a maioria tem cores e adornos barrocos que não lhe agradam. “Interferem na leitura dos quadros e remetem para uma época muito anterior à das pinturas”, justificou.

Num futuro próximo, quando as 85 obras de Miró ganharem um espaço definitivo no Porto, e aí estiveram em exposição permanente, o comissário tem a certeza de que as molduras serão substituídas. “Falta aqui alguma coerência”, comentou.

O pormenor não é de somenos. A conversa com Robert Lubar Messeri era sobre a exposição em Lisboa – “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”, que abre ao público na sexta-feira, no Palácio Nacional da Ajuda –, mas este estudioso do pintor catalão acabou por adiantar algumas novidades sobre o futuro das 85 obras. A circulação internacional e o diálogo com outras grandes coleções do mesmo artista é um dos objetivos de Robert Lubar Messeri, que permanecerá como consultor da coleção portuguesa, cuja apresentação permanente será em Serralves.

“Quando esta exposição em Lisboa terminar, entraremos numa fase que inclui restauro e conservação, escolha de novas molduras e criação do espaço adequado para a exposição permanente”, disse o comissário. “Em princípio, serei assessor da coleção, não o conservador. Como administrador da Fundação Joan Miró, tenho acesso direto a muitas coleções do pintor, na Península Ibérica. A minha ideia, a concretizar-se, é associar as seis grandes coleções de Miró na Península, para que haja intercâmbio e projetos comuns. É algo que ainda temos de discutir e apurar.”

Ciente de que “não se pode colocar esta pinturas numa parede qualquer”, o comissário sublinhou ser “necessário estudar e criar o espaço adequado”, sugerindo que Serralves terá de sofrer obras de adaptação, o que já é esperado. “Não é meu papel dizer quando será feita a apresentação permanente desta coleção, mas espero que aconteça dentro de um ou dois anos”, revelou.

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A coleção ficou na posse do Estado português após a nacionalização do BPN, em 2008, e esteve prestes a ser leiloada em 2014 pela Christie’s de Londres, que na altura avaliou o conjunto em 35,9 milhões de euros. O leilão nunca ocorreu, devido a providências cautelares interpostas pelo Ministério Público no Tribunal Administrativo de Lisboa. Depois de alguma indefinição, as 85 obras permaneceram sob tutela do Estado português e vão ter morada fixa no museu portuense de arte contemporânea.

Um primeiro sinal dessa decisão foi a mostra temporária na Casa de Serralves, de outubro de 2016 a junho deste ano, que atingiu o número recorde de mais de 240 mil visitantes, segundo dados oficiais. A versão lisboeta que agora se apresenta é muito idêntica, mas o comissário fez notar diferenças.

No Porto mostrámos 78 obras, por falta de espaço, e aqui está a coleção completa, que é composta por 85 obras. Aqui, tendo muito mais espaço e tetos muito altos, as pinturas podem respirar. Em Serralves, tendo em conta o espaço disponível, os quadros ficaram mais apertados. Não diria que as obras aqui estão melhor. Serralves é um encanto e com a intervenção arquitetónica de Siza fizemos uma exposição bastante boa. Cada espaço tem os seus próprios limites. Este aqui, em Lisboa, é mais flexível e oferece mais possibilidades”, afirmou Robert Lubar Messeri.

A abertura ao público é na sexta, dia 8, estando a inauguração oficial agendada para esta quinta-feira ao fim da tarde, na presença do ministro da Cultura, Castro Mendes. Ao contrário do que sucedeu em Serralves, o projeto expositivo não é de Siza Vieira, ficou a cargo dos técnicos da Direção Geral do Património Cultural.

A mostra abrange um período de seis décadas do trabalho de Miró, de 1924 a 1981. Das sete novas obras agora apresentadas na capital e que não estiveram no Porto, o comissário destacou três, pela relevância no contexto do percurso do artista:

  • “Mulher e Pássaro numa Paisagem”, guache e lápis sobre papel, com data de 29 de maio a 1 de julho de 1976;
  • e “Depois das Constelações”, dois óleos sobre aglomerado de fibras de madeira, de 19 de julho de 1976, nos quais o artista começou a trabalhar ainda na década de 50.

“Mulher e Pássaro” numa paisagem

No dizer de Robert Lubar Messeri, Joan Miró (1893-1983) foi um vanguardista que “criou uma linguagem formal e visual totalmente nova”, razão por que o classifica como “um dos artistas visuais mais importantes do século XX e de sempre”, cuja influência se estendeu a muitos outros contemporâneos. “Enquanto criadores inovadores, diria que os três grandes nomes do século XX são Miró, Picasso e Matisse. Sobre isso não há dúvida.”

A pintura constitui o principal meio representado na coleção, mas há vários exemplares de desenhos, colagens, tapeçaria e escultura, alguns dos quais nunca antes tinham sido vistos em público ou são pouco conhecidos. “No caso das tapeçarias, de que temos seis, foram expostas em conjunto há cerca de 40 anos”, precisou o comissário.

Há na coleção “20 ou mais obras muito, muito importantes em termos históricos”, que mostram Miró “não apenas como artista lírico, mas também como artista de uma agressividade brutal”, disse.

“O grande público não conhece bem a tapeçaria e a variedade de técnicas em que Miró trabalhava”, explicou Messeri. “Por outro lado, através destas obras percebemos que na década de 70, quando ele tinha 80 anos, estava a renovar a própria pintura, o que é pouco comum mas faz prova da sua genialidade. Os anos 70 são vistos como a época em que morre a pintura e se atinge o auge do conceptualismo e da performance. Obviamente, a pintura continuou. Nos anos 70, Miró foi um dos exponentes máximos da pintura.”

Robert Lubar Messeri é professor associado de Belas Artes na Universidade de Nova Iorque, há quase três décadas, e atualmente vive em Madrid, onde dirige o campus da mesma instituição. Dedica-se ao estudo de Miró há muitos anos e é considerado um dos maiores especialistas mundiais no tema.

O convite para comissariar a exposição foi-lhe dirigido no ano passado pela diretora do Museu de Serralves, Suzanne Cotter. Messeri já conhecia as 85 obras em causa, desde 2013, quando se começou a falar do leilão na Christie’s. “A leiloeira tinha-me convidado para fazer o discurso de abertura e foi assim que vi a coleção pela primeira vez, embora tivesse já uma ideia do que se tratava”, revelou. “É uma coleção de alta categoria, de outra forma nem teria aceitado coordenar a exposição.”

O quê? “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”
Onde? Galeria D. Luís I do Palácio Nacional da Ajuda.
Quando? De 8 de setembro a 8 de janeiro de 2018. Quinta a terça das 10h às 18h
Quanto? 10€