Cinema

“Sorte à Logan”: o grande assalto sulista de Steven Soderbergh

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Esta divertida e bem engendrada comédia de ação rodada no Sul dos EUA é o melhor filme de um desinspirado e frustrante verão de 2017 do cinema americano. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Bandeiras sulistas, corridas de “stock cars” da NASCAR com LeAnn Rimes a cantar “America the Beautiful” antes da partida, tropa na pista e caças a passar no céu, concursos de beleza infantil, sotaques de cortar à faca, canções de John Denver usadas com toda a seriedade e não ironicamente ou a gozar. O que é que um realizador da elite progressista de Hollywood como Steven Soderbergh, amigo e associado de vedetas ultra-liberais como George Clooney e Matt Damon, que até já filmou um biografia descaradamente simpática de Che Guevara, está a fazer no Sul dos EUA, em território republicano e que votou em Donald Trump nas últimas eleições presidenciais, com o seu novo filme, “Sorte à Logan”? Será que veio gozar com os saloios de Dixie?

[Veja o “trailer” de “Sorte à Logan”]

Felizmente, a resposta é negativa. E recorde-se que apesar de labutar na ímpia e esquerdista Hollywood, Soderbergh nasceu no Sul (em Atlanta, na Georgia) e voltou às raízes para rodar uma comédia de ação que é a versão rústica dos seus filmes da série “Ocean”, como estes também centrada num assalto altamente arriscado e improvável. Só que o resto está virado do avesso. Em vez de um casino de Las Vegas, o alvo é uma pista de corridas da NASCAR em dia de competição, os assaltantes usam “jeans”, t-shirts e macacões e não “smokings” e fatos Armani, e em vez de bem-falantes e sofisticados, são operários, veteranos do Iraque, cabeleireiras, calaceiros profissionais ou estão na cadeia. E não falta inteligência e astúcia aos “cérebros” deste assalto “redneck”. Só que eles a escondem por detrás de um laconismo e uma lentidão muito sulista, que os fazem parecer aquilo que não são.

[Veja a entrevista com Steven Soderbergh]

Em “Sorte à Logan”, Channing Tatum é Jimmy Logan, um operário divorciado e recém-desempregado. Juntamente com o irmão Clyde (Adam Driver), que perdeu um braço no Iraque e trabalha num bar de beira de estrada, Jimmy decide assaltar o Autódromo de Charlotte em dia de corrida da NASCAR. Recrutam a irmã, Mellie (Riley Keogh, que queremos ver mais vezes), cabeleireira, esperta com um alho e excelente condutora; um rebenta-cofres despachado e apropriadamente chamado Joe Bang (Daniel Craig de cabelo oxigenado, tatuadíssimo, sotaque sulista cerradinho e a divertir-se imenso com a personagem); e os irmãos deste, Fish e Jack (Jack Quaid e Brian Gleeson), estúpidos como paus mas bons operacionais. Problema: Joe Bang está na “pildra”, pelo que é preciso evadi-lo para ele participar no assalto – e depois devolvê-lo à procedência, a bem do funcionamento perfeito do plano. Que implica também quebrar o enguiço de uma pretensa maldição de má sorte que pende sobre a família Logan (daí o título da fita).

[Veja a entrevista com Channing Tatum]

O argumento de “Sorte à Logan” é de uma tal Rebecca Blunt, que poderá ser mais um dos pseudónimos femininos de Steven Soderbergh. Seja como for, Blunt e Soderbergh, ou apenas Soderbergh, divertem-se aqui, e simultaneamente, a seguir algumas das convenções dos “filmes de assalto”, enquanto desrespeitam outras (não há perseguições de carro nem tiroteios, a bomba concebida por Joe Bang é feita à base de ursinhos de goma em vez de ingredientes complicados, o dinheiro roubado não tem o destino habitual e nenhum dos intervenientes se descai no final e estraga tudo) e até conseguem encaixar uma piada a “A Guerra dos Tronos” na história. A dupla evasão e posterior regresso à cadeia esticam o elástico da verosimilhança mesmo quase até ele rebentar, mas a coisa é feita com tal lata e desenvoltura, que por esta vez, passa.

[Veja a entrevista com Adam Driver]

Soderbergh dá-nos assim, em modo de fabrico “indie”, um filme estival divertido, bem engendrado e bem lançado, castiço e muito, muito bem-humorado, que é sem hesitar o melhor deste desinspirado e frustrante verão de 2017 do cinema americano. A presença de Hilary Swank no papel de uma agente do FBI persistente, e à coca no plano final de “Sorte à Logan”, deixa em aberto a possibilidade de uma continuação. A acontecer, esperemos que seja melhor do que as do primeiro “Ocean’s Eleven”.

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